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Há 50 anos, a ditadura argentina fuzilou 16 militantes de esquerda

O massacre de Trelew é considerado o precursor da chamada Guerra Suja em que “desapareceram” milhares de pessoas e a tortura e a violência foram sistematicamente usadas para eliminar opositores.
Alguns dos 19 militantes que se renderam no aeroporto e depois foram fusilados.
Alguns dos 19 militantes que se renderam no aeroporto e depois foram fuzilados.

Na madrugada de 22 de agosto de 1972, 16 jovens militantes de vários grupos de esquerda foram fuzilados numa base naval em Trelew, na Patagónia. Outros três sobreviveram, apesar de feridos. Todos eles acabaram também por ser assassinados alguns anos mais tarde pela ditadura argentina.

O crime foi cometido na sequência de uma fuga da prisão de Rawson a 15 de agosto. Nesta tinham sido concentrados combatentes contra a ditadura do general Alejandro Agustín Lanusse. Membros do Exército Revolucionário do Povo, das Forças Armadas Revolucionárias e dos Montoneros deixaram divergências políticas de lado e decidiram organizar uma fuga conjunta. Só que o plano corre mal desde o início. Os condutores dos camiões que deveriam percorrer os 21 quilómetros que os separavam do aeroporto de Trelew ouvem tiros e pensam que a fuga tinha sido abortada, retiram-se deixando mais de uma centena de presos sem escapatória. O grupo que tinha tomado a prisão rende-se depois de tornar pública a situação, comunicando com imprensa e juízes. Em caso de falhanço, essa era uma forma combinada para tentar impedir um massacre.

Contudo, seis dos mais conhecidos dirigentes destes grupos tinham conseguido efetivamente fugir num automóvel. Chegam ao avião sequestrado no aeroporto e pronto para partir para o Chile. Sem contacto com os restantes, este levanta voo cinco minutos antes que outros 19 guerrilheiros consigam igualmente chegar ao aeroporto. Uma janela de tempo que acaba por se revelar fatal para estes. Também eles tomam as mesmas precauções dos seus camaradas que tinham ficado na prisão: contactaram com as autoridades judiciais para além dos jornalistas, fazem até uma conferência de imprensa com o mesmo objetivo: tentar assim impedir execuções ou atos de tortura.

Em vão. Em vez de seguirem de volta para a prisão de Rawson, como lhes havia sido garantido, são levados para a base naval Almirante Zar. Seguiram-se dias em que a ditadura argentina ameaçava os presos na tentativa de pressionar Allende para entregar os líderes guerrilheiros. Na noite de 21 de agosto, as mais altas patentes militares do país e membros do governo reuniram para tomar uma decisão. Na madrugada seguinte, os presos foram alinhados. O capitão da marinha Luis Emilio Sosa e o tenente Roberto Bravo deram ordem para disparar. Nem todos morreram no momento. Sete ficaram feridos. Sem assistência médica, quatro deles morreram pouco depois.

A ditadura tentou justificar o que aconteceu inventando a história de uma segunda tentativa de fuga. Os testemunhos que os três sobreviventes conseguiram dar em conferência de imprensa um ano depois mostram uma história completamente diferente. E só em 2012 alguns dos responsáveis diretos foram julgados e o crime foi considerado um delito contra a humanidade. Luis Sosa e dois outros oficiais foram condenados a prisão perpétua. Roberto Bravo escapou por viver nos EUA. Foi julgado em Miami apenas este ano e condenado apenas a uma multa e ainda aguarda extradição para ir a tribunal na Argentina, dificultada por ter já cidadania norte-americana.

O massacre de Trelew ficou conhecido não só pela sua brutalidade mas também por ter sido o primeiro ato do terrorismo de Estado dos ditadores argentinos. A chamada Guerra Suja começaria quatro anos depois sob o nome oficial de Processo de Reorganização Nacional, passando a usar-se sistematicamente a tortura, sequestros e assassinatos, alguns perpetrados através dos voos da morte, lançando as vítimas de aviões.

Memória

Passados 50 anos, é no mesmo aeroporto de Trelew que familiares dos assassinados e ex-presos políticos aterram pela primeira vez emocionados. Foram participar numa iniciativa de quatro dias de debates e encontros para não deixar perder-se a memória.

O jornal Página 12 dá conta de algumas das suas histórias. Como as de Ana María e Gabriela Santucho. O seu pai, Mario Roberto Santucho, dirigente do Exército Revolucionário do Povo, é um dos que conseguiu fugir, primeiro para o Chile e depois para Cuba. Regressará à Argentina onde é morto quatro anos depois. A sua mãe, Ana María Villareal, que estava então grávida, será uma das que foi fuzilada.

Há outras histórias como a de Alicia Sanguinetti , também do ERP, que voltou à prisão de Rawson onde tinha sido uma das participantes da tentativa de fuga que ficou bloqueada no interior do estabelecimento. Recorda que a prisão era uma autêntica “escola de quadros: estudávamos, treinávamos, tínhamos Economia, História, Política e preparação para a fuga”. A fotógrafa também se lembra de “odiar” as aulas sobre o Capital dadas por Ana María Villareal e de ter voltado “feliz” para trás depois da tentativa de fuga por saber que pelo menos seis tinham conseguido escapar e assim “estávamos a devolver companheiros à luta”.

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