O Conselho de Segurança das Nações Unidas exigiu, pela primeira vez, na segunda-feira, um cessar-fogo em Gaza durante o Ramadão, com os Estados Unidos a absterem-se na votação. O documento, que pede ainda a libertação de todos os reféns feitos durante o ataque surpresa do Hamas de 7 de outubro, refere que este cessar-fogo deve conduzir a uma trégua "duradoura". Todos os outros 14 membros do Conselho de Segurança votaram a favor da resolução, apoiada também pela Rússia, China e pelo Grupo Árabe, composto por 22 países.
António Guterres congratulou a aprovação da “resolução há muito aguardada sobre Gaza” e enfatizou que a mesma “tem de ser implementada”. “Um fracasso seria imperdoável”, vincou.
“Um ultraje moral”
Com todos os relatórios e organizações a alertarem para uma situação catastrófica de fome em Gaza, Philippe Lazzarini, da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente (UNRWA), explicou que Israel comunicou à ONU que não aprovará mais comboios humanitários dirigidos ao norte da Faixa de Gaza.
Já o secretário-geral da ONU pediu na segunda-feira um fornecimento maciço de ajuda ao território.
Guterres denunciou que “os palestinianos em Gaza continuam presos num pesadelo incessante”, e que, “a partir da passagem de Rafah”, viu “a desolação e a insensibilidade”.
“Uma longa fila de camiões de ajuda bloqueados de um lado dos portões. A longa sombra da fome do outro lado. Isto é mais do que trágico. É um ultraje moral”, escreve o representante da ONU nas redes sociais.
Em Rafah, Guterres deixou uma mensagem para os palestinianos em Gaza: “Não estão sozinhos. Pessoas de todo o mundo estão indignadas com os horrores a que todos estamos a assistir em tempo real. Eu levo as vozes da grande maioria do mundo que já viu o suficiente. Que estão fartos. E que continuam a acreditar que a dignidade e a decência humanas devem definir-nos enquanto comunidade global. É a nossa única esperança”, avança o secretário-geral da ONU.
De acordo com António Guterres, “é altura de inundar verdadeiramente Gaza com ajuda que salve vidas. A escolha é clara: ou o surto ou a fome. Vamos escolher o lado da ajuda - o lado da esperança - e o lado correto da história”.
A mensagem carrega ainda um apelo à comunidade internacional: “não devemos desistir de fazer tudo o que pudermos para que a nossa humanidade comum prevaleça em Gaza e em todo o mundo”.
Anteriormente, durante uma visita a um centro no campo de Wihdat, na Jordânia, o principal responsável da ONU já tinha realçado que “a decisão de não permitir que os comboios da UNRWA sigam para o norte de Gaza, onde temos uma situação dramática de fome, é totalmente inaceitável e aqueles que tomaram essa decisão devem assumir a responsabilidade" pelas suas consequências.
Assédio sistémico de Israel à ONU
Documentos internos das Nações Unidas citados pelo The Guardian referem que o Exército e as autoridades israelitas têm promovido uma campanha sistemática de assédio aos funcionários da ONU que trabalham com os palestinianos na Cisjordânia.
Governo de Israel odeia Guterres
José Manuel Rosendo em | Meu mundo Minha aldeia.
Os relatórios documentam os abusos cometidos por autoridades israelitas contra empregados da ONU detidos em postos de controlo e o uso de instalações de Nações Unidas como posições de tiro por parte de soldados israelitas durante as incursões em campos de refugiados.
A porta-voz da UNRWA, Juliette Touma, afirmou que estes incidentes são “parte de um padrão de assédio generalizado contra a UNRWA na Cisjordânia e em Jerusalém Este, ambos territórios ocupado”.
Desde 7 de outubro, a UNRWA documentou, pelo menos, 135 incidentes que afetaram os seus centros sanitários, escritórios ou escolas, entre os quais figuram incursões, uso indevido das instalações e operações militares com fogo real ou com bombas de gás lacrimogéneo.
Israel acusa Espanha e outros três países de premiarem terrorismo
Na segunda-feira, o ministro das Relações Exteriores de Israel acusou Espanha, Irlanda, Malta e Eslovénia de, ao trabalharem num plano para o reconhecimento de um Estado palestino, estarem a preparar um “prémio para o terrorismo”.
“O reconhecimento de um Estado palestino após o massacre de 7 de outubro envia uma mensagem ao Hamas e a outras organizações terroristas palestinianas de que os ataques terroristas assassinos contra os israelitas serão retribuídos com gestos políticos aos palestinianos”, escreveu Israel Katz no X.
Entretanto, os ataques de Israel a hospitais, como o de Al-Shifa e Al-Amal, mantêm-se. E os números do horror da mortandade em Gaza continuam a crescer. O número total de mortos desde o início da guerra ascende a 32.226. As autoridades palestinianas estimam que há ainda cerca de 7 mil cadáveres presos sob os escombros.