O próprio corpo que toma decisões da NATO decidiu que a própria NATO ficará encarregue de implementar também todas as demais decisões da Resolução n. 1.973 do Conselho de Segurança da ONU sobre a NATO.
A declaração da NATO, feita em Bruxelas no final desse domingo, mal disfarçava o tom triunfalista: “É um passo muito significativo, que prova a capacidade da NATO para empreender uma acção decisiva” em: Statement by NATO Secretary General Anders Fogh Rasmussen on Libya
Mas há muito por esclarecer.
A declaração da NATO não diz nada sobre quem estaria à espera que a NATO “provasse” alguma coisa, ou que “acção decisiva” a NATO agora irá “empreender”. A questão, de facto, é que a NATO afinal tem a hipótese de provar a si mesma mesma – de provar que é a única organização militar em escala global que pode intervir militarmente e “empreender acção decisiva” contra qualquer país (fora do mundo ocidental, sempre, é claro).
Não há dúvida que se trata de um “passo muito significativo” no que tenha a ver com a segurança internacional. O Conceito Estratégico adoptado na cúpula da NATO em Lisboa[1], em Novembro passado, definiu que o objectivo da aliança seria constituir-se como organização de segurança global. Mas ninguém do mundo externo, naquele momento, jamais supôs que o objectivo seria alcançado nesse prazo recorde.
A realidade política é que a R-1.073 não atribuiu nenhum papel específico à NATO. A própria NATO auto-atribuiu a si mesma um papel, e esse específico papel.
As potências ocidentais interpretaram unilateralmente a R-1.973 e incluíram nela os raids aéreos contra forças do governo líbio para, militarmente, alterar o equilíbrio militar na Líbia a favor dos “rebeldes”. Agora, também a NATO atacará militarmente a Líbia.
Em termos mais simples, a NATO acaba de entrar no sangrento negócio de derrubar governos, “mudança de regimes”, em países fora da Europa nos quais interesses ocidentais sejam ameaçados.
A declaração da NATO dizia que a aliança está preparada para “iniciar imediatamente a operação efectiva”. Significa que a NATO já sabia que seria encarregada dessa acção e se manteve em estado de prontidão, enquanto todos os analistas ocidentais, pela imprensa, sugeriam que a aliança estaria a ser empurrada para um dilema. Muito evidentemente, tudo acontece segundo um plano bem preparado – armar os ‘rebeldes’ líbios; instigar o conflito até uma situação extrema; e, então, interferir directamente, com poder bélico gigantesco, para derrubar um governo, digo, para “mudar um regime”.
É a primeira vez que a NATO inicia uma operação militar na África/Oriente Médio. As operações “fora de área”, da NATO começaram, no mundo, nos Balcãs, quando se tratou de dividir a antiga Jugoslávia; e a guerra do Afeganistão forneceu o cenário para que a NATO chegasse à Ásia sul e central.
Ninguém precisa de esperar pelo resultado da conferência das potências ocidentais que acontecerá em Londres na terça-feira, para entender as dimensões políticas da missão da NATO na Líbia.
As potências ocidentais estão a passar a perna à ONU, depois de obter uma “legitimidade”, de facto, uma folha de parreira, mediante a R-1.073. Os dois membros que têm poder de veto no Conselho de Segurança – Rússia e China – já accionaram as respectivas máquinas de propaganda, mas é altamente improvável que algum dos dois considere, mesmo que remotamente, a possibilidade de convocar uma sessão do Conselho de Segurança para enfrentar, de facto as novas dimensões do problema da Líbia. Assim sendo, EUA, França e Inglaterra estão totalmente livres para desenhar como bem entendam a missão da NATO. Se os ataques aéreos não conseguirem arrancar de lá o governo Kadhafi, a NATO será convocada para mandar as suas tropas de ocupação por terra.
É possível até que a Rússia e China estejam a estimar que não será de todo mau para seus interesses, se o ocidente se envolver em guerra na Líbia. Ocupados na Líbia, diminuem os riscos de que a NATO e o ocidente se metam pelos quintais russos ou chineses, pelo menos por algum tempo.
Assim sendo, só resta a União Africana para protestar contra as operações militares decididas unilateralmente contra o governo líbio. O problema é que, como dizem que Estaline teria perguntado sobre o papa: “Quantas divisões tem a União Africana?”. A resposta é óbvia: “Zilch”, ‘népias’.
Feliz, só o presidente Barack Obama, dos EUA. Afinal, é a NATO, não os EUA, que inauguram um novo, grande espaço, para longas guerras.
28/3/2011, *MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Embaixador*M K Bhadrakumar foi diplomata de carreira; serviu no Ministério de Relações Exteriores da Índia. Ocupou postos diplomáticos em vários países, incluindo União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão, Kuwait e Turquia.
[1] Ver, NATO’S True Role in US Grand Strategyde2/12/2010, Diana Johnstone, Counterpunche traduzido por Margarida Ferreira, para ODiario.infoem Cercar a Rússia, visar a China: “O verdadeiro papel da OTAN na grande estratégia dos EUA”, publicado na redecastorphoto.