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Guerra Colonial: “Esta é uma guerra que, entre nós, nunca existiu”

Para que a memória não se apague, e para desconstruir alguns dos mitos que ainda persistem sobre a Guerra Colonial, vale a pena (re)visitar o livro “Nó Cego”, de Carlos Vale Ferraz. A nova edição desta obra foi apresentada em Lisboa e sobre ela conversaram o autor, António-Pedro Vasconcelos e João de Melo. Por Mariana Carneiro.
O lançamento da nova edição do livro Nó Cego, primeiro romance de Carlos Vale Ferraz, teve lugar na Livraria Ferin, em Lisboa. Foto de José Morais.

A nova edição deste clássico da literatura portuguesa, publicado, pela primeira vez, em 1982, teve lugar na livraria Ferin, na passada terça-feira, dia 19 de junho. Carlos Vale Ferraz, pseudónimo literário de Carlos de Matos Gomes, escolheu para falar sobre o seu livro duas pessoas que “têm uma relação pessoal com o romance”: o escritor João de Melo e o cineasta António-Pedro Vasconcelos.

João de Melo, identificado pelo autor como “o primeiro escritor com a noção da importância da Guerra Colonial na Literatura Portuguesa”, além dos vários livros publicados, como Autópsia de um Mar de Ruínas (1984), organizou a primeira grande antologia de textos sobre a Guerra Colonial (Os Anos da Guerra - Os Portugueses em África - 2 volumes) e introduziu o conceito de “geração da Guerra Colonial”. O escritor já tinha sido escolhido por Carlos Vale Ferraz para apresentar a obra Os Lobos Não Usam Coleira, que veio a ser adaptada ao cinema por António-Pedro Vasconcelos com o título Os Imortais.

O cineasta, cuja obra é alvo de uma retrospetiva na Cinemateca até ao final de julho, dedicou outros filmes, como Adeus, Até ao Meu Regresso, ao tema da Guerra Colonial. Carlos Vale Ferraz sublinhou a “sensibilidade e a acuidade” de António-Pedro Vasconcelos “sobre a realidade portuguesa, sobre aquilo que é importante na história portuguesa, e sobre, porventura, aquilo que é importante na literatura portuguesa”.

Nota inicial do livro Nó Cego, introduzida por Carlos Vale Ferraz:

"Esta é uma obra de ficção. Factos, pessoas e situações narradas não aconteceram nem existiram, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Pormenores eventualmente chocantes dizem respeito a outras gentes e a tempos em que a guerra era suja, mas povoada por humanos combatentes; a real verdade foi outra, vejam-se as fotografias e leiam-se os discursos da época, limpas e gloriosas ações representadas por magníficos heróis".

 

“A descoberta do Nó Cego é também a descoberta do outro”

João de Melo referiu, durante a sua intervenção, que este é um “livro tão importante e tão fundamental”, no qual se aborda “a nossa experiência traumática da guerra mas não apenas traumática, também histórica, de fim de ciclo de algo que é do domínio da história da expansão portuguesa”.

O escritor identificou Carlos Vale Ferraz como um “investigador competentíssimo e trabalhador incansável desta (re)descoberta daquela África oculta onde nós mergulhámos, da história da Guerra Colonial, dos antecedentes, do decurso e do pós -guerra”.

João de Melo salientou que “a descoberta do Nó Cego é também a descoberta do outro, da pessoa e das razões do outro”: “Não há literatura possível cuja autenticidade não repouse nesta ideia do nós e do outro. E, sobretudo, de uma guerra de guerrilha carregada ela própria de ideias e de ideologia. Por um lado, as lutas de libertação nacional, a luta pela independência, de uma mudança, e, do lado de cá, a luta pela manutenção do tal 'colonialismo sem império', como dizia o Eduardo Lourenço”, avançou o escritor.

A este propósito, João de Melo recordou uma passagem do livro em que um comissário político da FRELIMO “tem um curiosíssimo diálogo com o capitão”, um diálogo, portanto, entre “um prisioneiro e aquele que pretendia ter razão”, e que, “para nós leitores, é uma revelação”.

Para os que estiveram na Guerra e levavam “tempos infinitos para conhecer o guerrilheiro”, este era “um ser invisível e, 'quando não se tem imagem, não se é'”, disse. No caso de João de Melo, o guerrilheiro passou a ser imaginado como “o anjo da guerrilha, o ser luminoso que tinha a força, a energia e a coragem para se debater pela sua terra, o ser mítico”, até se confrontar com a sua humanidade.

De acordo com o escritor, o Nó Cego é uma “espécie de paráfrase da Operação Nó Górdio, que se destinava a estrangular a FRELIMO no Norte de Moçambique - uma ideia 'absolutamente genial' do general Kaúlza de Arriaga que garantia que a Operação Nó Górdio ia acabar com a Guerra e a FRELIMO iria ser dizimada”. Como destacou João de Melo, “a operação Nó Górdio acabou por ser um fracasso a nível militar e é da assunção desta consciência que se faz também o Nó Cego”.

“Um livro de uma profunda honestidade”

António-Pedro Vasconcelos assinalou que o Nó Cego é “o grande livro sobre a Guerra Colonial, um livro de referência”, lamentando os constrangimentos com que se confrontou ao tentar transformá-lo em série televisiva, nomeadamente no que respeita à falta de resposta da RTP ou à recusa de colaboração por parte das Forças Armadas.

O cineasta leu o Nó Cego “avidamente” e recorda-se “da emoção e da impressão extraordinária que teve ao ler o livro”, que o fez invocar imediatamente a obra Os Nus e os Mortos, de Norman Mailer.


António-Pedro Vasconcelos, Carlos Vale Ferraz e João Melo. Foto de José Morais.

Para além da “sucessão de situações dramáticas cinematográficas”, António-Pedro Vasconcelos referiu que o Nó Cego é “de uma profunda honestidade”.

De acordo com o cineasta, a obra revela “o respeito pelo inimigo mas, ao mesmo tempo, o conflito que é vivido, com muita honestidade, por alguém que compreende as razões do inimigo mas que tem de fazer a guerra e, sobretudo, tem de defender os seus homens. Alguém que está entre os seus superiores, que muitas vezes não respeita e considera que têm um comportamento e ordens absurdas, e os homens que estão em baixo, que dependem de si”.

Uma geração de viragem de um ciclo histórico”

Referindo-se a quem viveu a guerra, João de Melo frisou que “toda a nossa experiência de guerra foi uma revelação e um corpo estranho que nos transformou e que ainda está em nós, na nossa pele”

Guerra é guerra. Não há guerras boas e quem vai para elas vai de uma maneira e volta de outra. Como pessoa, como homem, até como escritor, se já o era”, sinalizou.


Foto de José Morais.

O escritor salientou, contudo, que estamos perante “uma geração de viragem de um ciclo histórico”.

“Portugal era historicamente um país de partidas”, onde “o regresso praticamente não existia” e esta foi “a geração do regresso. Porque partimos e voltámos. Para dar eco e notícia daquilo que era e daquilo que tinha de deixar de ser”, adiantou João de Melo.

O escritor acrescentou que, se durante quase 500 anos, foi construída uma ideia de Portugal ser um grande império, uma grande nação, alimentada no tempo do salazarismo, tratava-se de desconstruir esta ideia.

O silêncio de quem fez a Guerra

Durante a apresentação de Nó Cego, os três oradores fizeram referência ao facto de muitos daqueles que fizeram a guerra serem incapazes de falar da sua experiência.

“São situações traumáticas em que as pessoas são confrontadas com situações limites e em que, inclusive, são confrontadas com lados da sua própria personalidade que ignoravam, para o melhor e para o pior. É uma experiência na qual se convive com a morte e da qual é difícil falar na primeira pessoa”, assinalou António-Pedro Vasconcelos.


Foto de José Morais.

E é exatamente por esta perceção do “silêncio de quem fez a Guerra”, da falta de transmissões de vivências e memórias, que Carlos Vale Ferraz frisou que é necessário “escrever, filmar, dizer o que se passou”.

“Temos de mostrar. E mostrar não é julgar nem condenar. É mostrar. Não há julgamentos da história, não se julga o passado. Agora temos é de tentar perceber e tentar que o passado nos ajude a viver o presente. E nos ajude a não cometer os erros no futuro”, vincou.

O escritor lembrou ainda que, com o sacrifício de todos estes homens que viveram a guerra, “encontrámos bases para uma nova situação, para uma solução”.

O tabu sobre a Guerra Colonial

Carlos Vale Ferraz afirmou que “os escritores portugueses desde o século XIX até depois do 25 de Abril não escrevem sobre África”.

“A primeira, ou única vez, que África é referida é pelo Eça de Queiroz em Uma Campanha Alegre, que diz mais ou menos o seguinte: 'se não sabem o que fazer com as colónias, vendam-nas. Ou melhor ainda, dêem-nas'. Os neorrealistas não escrevem sobre África, os grandes nomes da literatura não escrevem sobre África. Existem apenas dois ou três escritores que, durante o período da Guerra, escrevem sobre a matéria com várias artimanhas para passar na censura”, avançou Vale Ferraz.

No pós 25 de Abril, por outro lado, foram vários os constrangimentos sentidos por quem ousou falar sobre o tema. Essa foi a experiência de Carlos Vale Ferraz no que respeita ao Nó Cego e de António-Pedro de Vasconcelos, quando tentou passar o romance para o ecrã de televisão, como foi também a experiência de João de Melo aquando da publicação de Os Anos da Guerra - Os Portugueses em África, altura em que chegou a ser sujeito a ameaças.

Para Vale Ferraz, estes episódios são “muito significativo daquilo que é a mentalidade dos portugueses, daquilo que são os poderes fáticos no país, da forma como os poderes veem ainda hoje a questão colonial e a questão da guerra”.

“Os portugueses têm uma má relação com a memória”

Segundo António-Pedro Vasconcelos, “os portugueses têm uma má relação com a memória, ainda que isso esteja relativamente a mudar”.


António-Pedro Vasconcelos. Foto de José Morais.

“Quando pensamos na nossa história, e na nossa literatura, não há, verdadeiramente, um romance sobre a Guerra Civil, não há um romance sobre as invasões napoleónicas, sobre o cerco de Lisboa”, exemplificou, sublinhando que “não temos na nossa literatura uma tradição de falar daquilo que foram os episódios importantes da história de Portugal”.

Para o cineasta, muitas vezes é “mais cómodo” não evocar o passado, isso “desresponsabiliza-nos de conviver com a realidade. Porque a realidade às vezes é dura, é contraditória”.

A “falta de ficção sobre aqueles que foram os momentos importantes da nossa vida”, principalmente no que toca ao cinema e à televisão, foi uma das razões pelas quais António-Pedro Vasconcelos quis fazer um filme sobre a guerra.

“Levar a guerra colonial às escolas enquanto ainda é tempo”

Os três oradores confluíram na ideia de que é necessário levar a Guerra Colonial às escolas, transmitir estas experiências e estas memórias às gerações mais novas.

“Há um léxico que foi adotado entre nós pelo qual ainda aferimos a nossa posição em relação à guerra. Há pessoas que se recusam a dizer guerra colonial, dizem guerra do ultramar. Não dizem colónias, dizem províncias ultramarinas. Não dizem guerrilheiros, dizem terroristas. Este léxico é vastíssimo. No regime que sustentou esta guerra evidentemente que esta guerra não era guerra, eram 'missões de soberania'. E a guerra era movida por elementos exteriores que nem sequer eram nacionalistas, eram uns bandidos que do exterior nos guerreavam porque queriam o que eram nosso”, apontou João de Melo, sublinhando que “é por estas e por outras, e por muitas mais, que esta é uma guerra que, entre nós, nunca existiu”.


A primeira edição de Nó Cego data de 1982. Foto de José Morais.

“Falta mais literatura, faltam filmes, séries sobre a Guerra Colonial. E falta levar a Guerra Colonial às escolas, levá-la às novas gerações enquanto ainda é tempo, enquanto ainda existem pessoas que estiveram na Guerra, bem como os seus pais e filhos”, reforçou António-Pedro Vasconcelos.

A par de Nó Cego, que, ainda que referenciado como um clássico da literatura, não integra o Plano Nacional de Leitura, muitos mais títulos de Carlos Vale Ferraz ocupam destaque na literatura sobre África, como A Mulher do Legionário, Os Lobos Não Usam Coleira, ASP, De Passo Trocado, O Livro das Maravilhas, Flamingos Dourados, Fala-me de África, que deu origem à série televisiva Regresso de Sizalinda, e Soldadó. No que respeita ao cinema, o autor redigiu o argumento do filme Portugal SA, de Ruy Guerra, e colaborou com Maria de Medeiros no argumento do filme Capitães de Abril.

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