A Cimeira das Américas realiza-se em Cartagena, num dos países mais fustigados pela "guerra às drogas" e cujo presidente já manifestou abertura para rever uma estratégia que não cumpre o objetivo. Em vésperas da cimeira, é o chefe de Estado da Guatemala que lança o desafio em entrevista ao jornal inglês "Observer": "O paradigma proibicionista que inspira a política global vigente sobre drogas é baseado numa falsa premissa: a de que os mercados de drogas a nível global podem ser erradicados", aponta Otto Pérez Molina.
"O consumo, produção e comércio de drogas devem ser sujeitas a regulação internacional, o que significa que o consumo e a produção devem ser legalizados, dentro de certas condições e limites", prossegue o presidente guatemalteco.
A preocupação estende-se a outros responsáveis políticos latinoamericanos que fazem contas aos entraves que o poder do narcotráfico coloca ao desenvolvimento dos seus países. Também Felipe Calderón, presidente mexicano, já apelou a um debate nacional sobre esse assunto e o seu homólogo colombiano admitiu um cenário de legalização, caso os países chegassem à conclusão que isso iria travar o poder dos cartéis que floresceram nas últimas décadas à sombra da proibição.
No entanto, é pouco provável que os líderes dos países onde se concentra a produção encontrem eco do lado de Washington, onde está o mercado consumidor. O presidente mexicano ilustrou bem o problema com que o seu país está confrontado, por entre dezenas de milhares de mortos numa narcoguerra sem fim à vista: "Nós vivemos no mesmo prédio. O nosso vizinho é o maior consumidor de drogas do mundo e toda a gente quer vendê-las através das nossas portas e janelas".
Com o aproximar das eleições presidenciais, Obama não irá concerteza repetir as declarações feitas em 2004, quando defendeu a descriminalização da canábis e o repensar da política global para as drogas, que é aplicada no mundo sob a batuta dos EUA. Mas a guerra às drogas também se trava no interior do seu país, onde a população prisional disparou em poucas décadas e uma parte importante devido a condenações por consumo de droga. O resultado foi a criminalização de milhões de pessoas, sem que as drogas deixassem de estar cada vez mais disponíveis para quem as procure.
Guerra às drogas em debate na Cimeira das Américas
08 de abril 2012 - 18:43
No próximo fim de semana, os chefes de Estado americanos estarão reunidos na Colômbia. Pela primeira vez em 40 anos, o falhanço da "guerra às drogas" deverá ser um dos temas levantados na reunião por alguns dos participantes, na presença de Barack Obama.
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O presidente mexicano Felipe Calderon terá oportunidade para voltar a criticar Obama sobre o falhanço da "guerra às drogas". Foto Governo mexicano/Flickr