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Governo quer promover mais 134 mil hectares de agricultura intensiva

Até 2030, o Governo quer intensificar o regadio no Alqueva quando, segundo a Agência Portuguesa do Ambiente, o país está em “stress hídrico” com as bacias a sul do Tejo “em situação de seca hidrológica”.
Agricultura intensiva no baixo Alentejo. Foto de Nuno Veiga, Lusa [arquivo].

São dois estudos apresentados praticamente em simultâneo e que apontam para a necessidade de políticas opostas. O estudo “Regadio 2030 - Levantamento do Potencial de Desenvolvimento do Regadio de Iniciativa Pública no Horizonte de uma década”, coordenado pela Empresa de Desenvolvimento e Infra-Estruturas de Alqueva (EDIA), define a instalação de mais 134 mil hectares de regadios e a modernização de outros 72 mil hectares já instalados até 2030.

Sobre sustentabilidade, o estudo argumenta apenas que “a agricultura intensiva de regadio é prefeitamente compatível com a sustentabilidade dos recursos, tendo-se verificado a existência, nos últimos anos, de uma evolução muito positiva nesse sentido”. Mas os dados contrariam a tese do Governo.

O Relatório do Estado do Ambiente 2020/21, revela um diagnóstico “preocupante” sobre o futuro dos recursos hídricos no país que, nos últimos 20 anos, sofreu uma redução na disponibilidade de água estando oficialmente em “stress hídrico”.

A classificação técnica aponta para um cenário dramático, onde as reservas hídricas de superfície ficaram “abaixo da média em 11 das 15 bacias hidrográficas analisadas” no ano 2018/19, com o ano seguinte a terminar com as bacias a sul do Tejo “em situação de seca hidrológica”.

Se o cenário é de crise, o Governo optou por dedicar nos próximos anos 558 milhões de euros para a modernização de regadios e outros 199 milhões para novas infra-estruturas de rega. A longo prazo, são 2 mil milhões de euros canalizados para o regadio sem qualquer consideração pela redução de água disponível.

A empresa que promove a iniciativa equipara o investimento ao programa de desenvolvimento do Alqueva (que absorveu 2400 milhões de euros), mas que agora irá ser distribuído por todas as regiões do país, criando “pequenos alquevinhas”.

Segundo o estudo, o aumento das áreas regadas irá “contribuir para o combate à desertificação e despovoamento, criando barreiras verdes contra o impacte negativo das alterações climáticas”. E apontam para o modelo de Alqueva como um sucesso “associado principalmente ao olival, amendoal, frutícola, hortícolas” que garante “elevados rendimentos a curto prazo”, o que leva a antecipar que a percentagem de regadio “quase exclusivamente em olival e amendoal” no futuro venha a ser superior.

Nenhum destes argumentos é sustentado por dados científicos, sendo refutado amplamente pelas associações que produzem conhecimento sobre combate às alterações climáticas e que apontam precisamente para a agricultura intensiva e a monocultura como um dos principais fatores de destruição insustentável de recursos.

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