“Governo cedeu em toda a linha ao lóbi das multinacionais das plataformas”

08 de junho 2022 - 17:33

José Soeiro acusou o Governo de ter cortado dez medidas na Agenda do Trabalho Digno apresentada no ano passado na versão entregue agora ao Parlamento. “Um aspirador patronal fez uma limpeza em temas de grande importância”, critica o deputado.

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José Soeiro - Foto esquerda.net
José Soeiro - Foto esquerda.net

Em declarações à comunicação social, o deputado do Bloco de Esquerda José Soeiro denunciou que em relação à Agenda do Trabalho Digno, a proposta entregue agora pelo Governo na Assembleia da República tem grandes alterações em relação à proposta de 2021 que saiu no Boletim do Trabalho e do Emprego e que o Governo brandiu em campanha eleitoral.

“Um aspirador patronal fez uma limpeza em temas de grande importância”, criticou ironicamente José Soeiro e afirmou: “Vou assinalar 10 medidas que caíram entre a versão que estava publicada no boletim do trabalho e do emprego e a versão que entrou no Parlamento”.

Dez propostas que caíram

Entre a proposta de lei da “Agenda do Trabalho Digno” publicada no Boletim do Trabalho e Emprego em outubro de 2021 (disponível aqui) e a proposta de lei da “Agenda do Trabalho Digno” entregue no Parlamento esta semana (disponível aqui) há 10 medidas que caíram, assinalou o deputado José Soeiro (em baixo, referência às páginas do Boletim do Trabalho e Emprego, e dos artigos referidos, que não constam da proposta de lei entregue no Parlamento):

1. Patrões deixam de ter de comunicar motivos de fim de contrato no período experimental. (art.º 114, nº 5; p. 7)

2. Desapareceu a proposta sobre reposição (mesmo que muitíssimo parcial) da majoração do trabalho suplementar / pagamento das horas extra. (art.º 268, p. 11)

3. Afinal não há revisão da Lei Uber tendo em conta a presunção de laboralidade. O modelo português, original no mundo para servir as pretensões da Uber, não deverá assim sofrer alterações. (artº. 6.º, p. 16)

4. Caiu a moratória à caducidade das convenções coletivas, que suspendia a caducidade até 2024. (art.º 7º, p.16)

5. Caiu o poder especial da ACT de suspender despedimentos ilícitos (a nova proposta remete apenas para uma participação ao Ministério Público). (artº. 8º, pp. 17 e 18)

6. Desapareceram as alterações ao Código dos Contratos Públicos (art. 9º, p. 18). Caiu a exigência de que os contratos de trabalho num contrato de concessão não sejam precários, ou tenham pelo menos o tempo da execução do serviço: empresas passam a poder utilizar precários de forma rotativa para prestar serviços ao Estado. (art. 419º-A, p. 25)

7. Governo cedeu em toda a linha ao lóbi das multinacionais das plataformas, desobrigando-as de responsabilidades patronais, ao contrário do que tinha sido o compromisso, ao contrário do que consta do Livro Verde, da proposta de Diretiva europeia e da jurisprudência internacional. A consagração de um intermediário é a reivindicação das plataformas para contornarem a presunção. (Art.º 12-A, p.22)

8. Caiu a norma sobre Transparência da estrutura de custos de trabalho, essencial para combater dumping no outsourcing e nos contratos de prestação de serviços. (art. 57.º-A, p. 25)

9. Caiu a Interconexão de dados para combater a precariedade. (art. 25º, p. 26)

10. Caiu o registo diário dos trabalhadores em explorações agrícolas e estaleiros temporários na construção civil (passou a prever-se um registo semanal), dificultando e obstaculizando a inspeção do trabalho informal nesses contextos. (art. 27º, p. 26)

"Desfiguração da proposta do Governo sob a pressão patronal é verdadeiramente chocante”

“É evidente que a maioria absoluta não irá em nada hostilizar os patrões, mas tal grau de desfiguração de uma proposta do próprio Governo sob a pressão patronal é verdadeiramente chocante”, frisou José Soeiro.

O Bloco de Esquerda decidiu chamar ao parlamento os autores do Livro Verde sobre o Futuro do Trabalho, Guilherme Dray e Teresa Coelho Moreira, “cujas propostas foram profundamente desprezadas pelo Governo sob a pressão do lóbi das multinacionais das plataforma digitais”.

Audição da ministra do Trabalho sobre o corte de apoios de combate à pobreza

Esta quarta-feira foi tornado público que o Instituto da Segurança Social (ISS) deu indicações, no dia 20 de maio, aos Diretores de todo o país para que, no âmbito do Programa de Apoio às Pessoas Mais Carenciadas (POAPMC), o número de beneficiários seja reduzido de 120 mil para 90 mil.

Face a esta notícia, o Bloco decidiu requerer uma audição da Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social sobre o corte de apoios de combate à pobreza.

O Bloco assinala que “esta redução é administrativa, porque na prática existem famílias em lista de espera para aceder a este apoio alimentar, uma vez que a plataforma não permite a inscrição de mais pedidos”. E aponta também que a invocação da “evolução favorável da situação epidemiológica no nosso país e a progressiva normalidade em geral” – feitas no ofício pelo ISS e publicadas no Jornal de Notícias – não tornam subitamente desnecessária uma proteção e um apoio que passa a não existir, depois de várias medidas extraordinárias terem sido sucessivamente retiradas pelo Governo. “Estão em causa situações de pobreza extrema que ficam assim desprotegidas”, frisa o Bloco.

“Num momento em que a inflação atinge níveis a que não assistíamos desde 1993, em que o Instituto Nacional de Estatística (INE) aponta para uma taxa de inflação de 8%, na primeira estimativa relativa ao mês de maio, à qual está associada um aumento dos preços e uma perda real de poder de compra, é inaceitável que o Governo adote medidas para desproteger quem mais precisa”, critica ainda o Bloco de Esquerda.