Governo cancela tratamentos de infertilidade

12 de outubro 2010 - 16:02

Casais vêem-se forçados a interromper os tratamentos de infertilidade já iniciados na sequência de norma emitida pela Administração Central de Sistemas de Saúde (ACSS).

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Tratamentos de infertilidade implicam, no sector privado, despesa entre 3 mil e 4 mil euros. Foto de Natasha Moreno, Flickr.

Em resultado da aplicação de uma norma emitida pela Administração Central de Sistemas de Saúde (ACSS), datada de 12 de Agosto, vários casais estão a ser confrontados com a informação de que terão que interromper os tratamentos de infertilidade já iniciados.

O documento, a que a Lusa teve acesso, estipula que, em 2010, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) apenas suporta «um ciclo de tratamento de segunda linha, fertilização in vitro ou injeção intra-citoplasmática de espermatozóide para cada caso/casal».

Os casais que foram sujeitos, sem sucesso, a um primeiro tratamento, e que agora contavam poder aceder a um novo ciclo, terão que aguardar por 2011, na medida em que os custos associados aos tratamentos são incomportáveis para a grande maioria das famílias. A fertilização in vitro ronda, no sector privado, os três mil euros, enquanto a injecção intracitoplasmática de espermatozóide tem um custo de cerca de quatro mil euros, segundo informações fornecidas à Lusa pela dirigente da Associação Portuguesa de Fertilidade, Cláudia Vieira.

Esta notícia está a criar um enorme descontentamento entre os casais visados. Além do investimento financeiro que já suportaram, nomeadamente no que respeita às injecções hormonais que não são financiadas pelo Estado, e que representam um custo para o casal entre 500 a mil euros, em causa está toda a carga emocional que envolve estes processos.

A forma como os casais estão a ser informados das novas regras impostas pela tutela também tem sido profundamente criticada. Ao que a Lusa apurou, os serviços apenas informam os casais de que os tratamentos estão a ser cancelados no momento em são feitas as análises de rotina.

A situação é ainda mais dramática para as mulheres que completam 40 anos em 2010,   que vêem defraudada a expectativa de poderem vir a engravidar, na medida em que os seus tratamentos deixam de ter financiamento público.

Este procedimento, segundo noticia o Correio da Manhã, está actualmente a ser aplicado na Maternidade Alfredo da Costa (MAC), mas deverá ser alargado aos Hospitais de Santa Maria (Lisboa), São João (Porto), Universidade de Coimbra, Vila Nova de Gaia, Guimarães e Maternidade Júlio Dinis (Porto).

Lisa Vicente, chefe da Divisão de Saúde Reprodutiva da Direcção-Geral de Saúde, citada pela Lusa, defende que a introdução desta nova norma permitirá que “mais casais possam aceder a mais consultas e terapêuticas", no entanto, a representante da Associação Portuguesa de Fertilidade, Cláudia Vieira, não concorda com este argumento. A presidente da APF lembra que "no tratamento da infertilidade há uma luta contra o tempo, quanto mais tarde aceder pior, pelo que é recomendável três ciclos num ano".

Já são mais de uma dezena as queixas recebidas pela APF sobre esta matéria, e a associação já assegurou que irá acompanhar estes casos e que irá pedir, designadamente, satisfações à tutela.