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Glifosato: Instituições europeias continuam a envenenar pessoas de forma consciente

Entrevistado por Marisa Matias, Younous Omarjee, eurodeputado de La France Insoumise, afirmou que, “hoje em dia, opta-se mais pelos interesses económicos da grande indústria do que pela saúde pública dos cidadãos europeus”.

Marisa Matias: Obrigada por estares aqui comigo. Nós temos causas comuns, nomeadamente a questão das RUPs (as Regiões Ultra Periféricas) em que tu trabalhas muito, o que nos ajuda bastante, por causa dos Açores e da Madeira. Mas há uma outra questão em que trabalhamos juntos, e à qual tens dedicado bastante trabalho, que é a do glifosato. Para nós, esta também é uma grande batalha, que ainda não ganhámos. Podes explicar-nos um pouco mais sobre o que tem acontecido aqui e sobre os trabalhos que estás a fazer?

Younous Omarjee: Sim, o trabalho que faço é muito mais reforçado quando tenho o teu apoio e quando trabalhamos juntos sobre estas questões tão importantes em Portugal ou na França, onde os cidadãos estão tão envolvidos nestas causas. No Parlamento, constituímos uma comissão, que é uma comissão especial, uma espécie de comissão de inquérito, sobre os pesticidas, na sequência do escândalo dos Monsanto Papers e do glifosato. E estamos a trabalhar sobre isso neste momento [o Relatório final foi aprovado no plenário de Estrasburgo de janeiro]. Mas o que gostaria de dizer é que estamos numa situação em que as instituições europeias, a Comissão Europeia, o Conselho Europeu, os Chefes dos Governos, apesar de sabermos que o glifosato é cancerígeno, continuam a tomar decisões que envenenam as pessoas de forma consciente. Este é o primeiro problema. É um escândalo de saúde pública considerável, e os culpados deverão ser confrontados com as suas responsabilidades. Vejamos o caso dos Estados Unidos, onde atualmente há ações judiciais.

Marisa Matias: Mas não na União Europeia.

Younous Omarjee: Não na União Europeia.

Marisa Matias: Tu disseste que havia também outras questões.

Younous Omarjee: Sim, há outras questões. Tudo o que diz respeito ao procedimento de autorização dos pesticidas. Nós constatámos que há um conluio incrível entre as agências europeias, ou a Comissão Europeia e os lobbies.

Marisa Matias: Sim, e a grande indústria.

Younous Omarjee: A grande indústria química, e, em particular, a Bayer-Monsanto, porque é preciso nomeá-las. E, durante este procedimento de autorização, há bastantes falhas. O nosso grupo parlamentar foi o único, na comissão especial, a fazer propostas para pôr fim às ligações entre estas agências e esta indústria química, para que haja uma independência das autoridades e também para que haja transparência. Porque a questão é sempre a mesma, a cultura do segredo. E isto é algo que é muito prejudicial para os cidadãos. Em suma, hoje em dia opta-se mais pelos interesses económicos desta grande indústria do que pela saúde pública dos cidadãos europeus.

Marisa Matias: Hoje temos um debate no plenário sobre o REACH, que é uma das maiores vitórias europeias, creio eu, no domínio da proteção da saúde pública. Há pessoas que pensam que o glifosato não tem nada a ver com isto, mas há uma grande ligação. Tu podes falar-nos um pouco sobre isto...

Younous Omarjee: Sim, será mais logo e eu vou intervir no plenário sobre esta questão. Então, para que as pessoas percebam, REACH é o primeiro conjunto de normas que, de facto, permitiram avançar um pouco na tomada de consciência destes interesses que colocam as indústrias à frente de qualquer constrangimento. Contudo, no que diz respeito aos pesticidas, damos-nos conta que o programa REACH foi organizado com lacunas. A questão é sempre a mesma. Adotámos os regulamentos supostamente protetores, mas logo se procuram as possibilidades de entrar pela janela e de fazer com que tudo continue como antes. E para os pesticidas isto é um verdadeiro problema, e há coisas que têm que ser corrigidas no REACH. É sobre isso que vou falar.

Marisa Matias: Nomeadamente, há que incluir alguns pesticidas que não constam ainda, e a questão do glifosato.

Younous Omarjee: O glifosato é o grande problema. É necessário voltar a dizer que o glifosato é cancerígeno. Está provado. Há novas doenças. Há doenças raras. Por exemplo, atualmente em França, no serviço médico que chamamos de doenças raras, existem novas patologias que aparecem, porque o glifosato pode ser utilizado com outro pesticida. E pode ser a primeira vez que o glifosato está a ser utilizado com esse outro pesticida. E isto provoca um efeito cocktail que desconhecemos ainda, que gera uma série de problemas para a saúde, e os nossos serviços de saúde ainda não estão necessariamente dotados de todos os meios para fazer face a estas novas patologias, pelo que há imenso trabalho a fazer. Em França, tivemos uma grande batalha com Macron. O teu amigo Macron – Napoleon. E digo isto porque a Marisa ficou ainda mais conhecida em França quando interveio no Parlamento Europeu de forma forte e convicta perante o Presidente da República Francesa. E com Macron tivemos uma batalha por causa do glifosato, porque exigimos a interdição imediata do glifosato em França. E a sua maioria na Assembleia Nacional tem vindo a rejeitar isto de forma sistemática. É sempre a mesma coisa. Adiam-se para depois as decisões apesar de estarmos perante o problema neste momento.

Marisa Matias: Sim, ele está aí. Temos a mesma batalha em Portugal e a mesma posição política. Agradeço-te imenso, sobretudo pelo teu trabalho na comissão de inquérito e por esta cooperação que vamos conseguindo para tentar fazer melhor pelas cidadãs e cidadãos.

 

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