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Geovani Martins: de uma janela do Rio de Janeiro, vê-se o mundo

Podia ser muito fácil, de uma janela de uma favela do Rio de Janeiro, cair no exotismo ou no pântano interior. Mas não. Daquela janela carioca, vê-se o mundo. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Ter medo das palavras para quê, se são o que nos leva ao outro?

As 137 páginas não assustam. Afinal, lê-se numa tarde e ainda sobra tempo. Depois, volta e meia, como com os filmes de José Padilha, Fernando Meirelles, Kátia Lund, a coisa fica a fazer eco.

Há uma folha metida lá dentro, em papel mais grosso. Um glossário com quase cem palavras. E, mesmo assim, procurei lá muitas vezes palavras que não estavam. Não é que o português do Brasil me seja assim tão estrangeiro: ouço brasileiros, leio brasileiros, vivi no Brasil. Mas Geovani Martins, com este O sol na cabeça, que pode até ser uma pancada na cabeça, fez o que não é hábito: mandou convenções linguísticas às urtigas, escreveu como se fala, mas fê-lo com uma omnipresente beleza literária, numa construção pensada em que nada fica ao acaso. Não há hesitações nem banalidades, não há nenhuma tentativa de nivelar a língua, castrando-a. Exista o cânone semântico nas convenções de quem o cultiva, este livro é outra coisa – a prova de que o que separa a oralidade da escrita é o talento.

A literatura bem comportada tem convenções muito bem aceites – sapato preto, fato e gravata –, mas vem ao mundo e é incólume. Lê-se e muito bem, e depois está tudo igual. Geovani Martins nasce como um foguete na literatura contemporânea e, mesmo com o que pode ser confuso para um leitor português (a semântica tão diferente), é com um talento único que atinge o fundamental da literatura: chegar ao outro. A literatura brasileira entra no marasmo da auto-ficção – um marasmo velho, pantanoso – e Geovani Martins traz ao leitor lusófono um rasgo de irreverência numa literatura fresca e jovem.

Este curto livro de treze contos tornou-se logo um fenómeno de vendas, tendo sido vendido para editoras em mais de dez países e estando a ser adaptado para cinema. Ali estão o macro e o micro, ali está a única forma elevada de se fazer literatura: há a infância, há o contexto; há a discriminação racial, há o banho de luz chamado Rio de Janeiro. Há a vida sem complacências: a violência, a ameaça, as drogas, a beleza, a honestidade. Lê-se e recebe-se, nem autor nem leitor se perdem em contemplações inúteis, em nenhum parágrafo o autor se põe em bicos de pés a tentar mostrar talento, em nenhuma página ergue a voz a ver se a coisa pega. Numa composição bem doseada e nivelada, tudo soa a honestidade num exercício raro de talento.

A capacidade narrativa de Geovani Martins só encontra par no interesse de narrativas que mostram a vida para além do sufoco de auto-ficção que tem atabalhoado a literatura brasileira. As personagens não são veículos de histórias, são gente. Não são pretexto, são existência. E isto Geovani Martins fez contrariando a onda: em vez de neglicenciar o osso da história por questões formais, usando as últimas para enterrar as primeiras, em vez de dar vida às personagens, sacando-lhes apenas a angústia que será instrumentalizada para etc. etc., optou por mostrar a experiência humana sem pó de arroz e sem tentar convencer nada.

Não é que O sol na cabeça seja uma reinvenção da língua. É mais uma posição autoral de dignidade, recusando o cinismo, as camisas-de-força, as convenções. A força desta opção, aliada a um magnífico talento, é o que marca com garras este livro. A gíria está ali escancarada, mas, mesmo quando não se entende uma palavra (e são tantas, as vezes), exalta-se o conteúdo num feroz jogo de comunicação. Claro que o calão salta à vista, mas é sempre posto ao serviço de uma história.

A literatura de Geovani Martins nasce da vida e volta-se para o mundo. Suja as mãos ao receber do mundo e ao devolvê-lo aos leitores. Este pequeno livro (“lê-se numa tarde e ainda sobra tempo”) tem força e coesão narrativas, tensão psicológica, tensão social, retratos do mundo, e ainda explica a violência de se crescer ali sem bizarria – o crescimento ali é o real. Podia ser muito fácil, de uma janela de uma favela do Rio de Janeiro, cair no exotismo ou no pântano interior. Mas não. Daquela janela carioca, vê-se o mundo.

Sobre o/a autor(a)

Doutorada em Literatura, investigadora, editora e linguista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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