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Gaza: não é fácil trocar umas ideias sobre o assunto

Qualquer crítica a políticas dos governos de Israel obtém uma resposta que é simultaneamente uma acusação: antissemitismo. Em muitos casos, errada e propositadamente enganadora, desferida com para desqualificar o autor e a crítica, através de uma implícita vitimização do criticado. Por José Manuel Rosendo em meu Mundo minha Aldeia.
Foto: Mohammed Talatene / Avalon.
Foto: Mohammed Talatene / Avalon.

Qualquer crítica a políticas dos governos de Israel obtém, invariavelmente, uma resposta que é simultaneamente uma acusação: antissemitismo! Quem ousa criticar é imediatamente “carimbado”. É tempo de desmontar uma retórica, e uma resposta que, de tão utilizada, por tudo e por nada, banalizou-se. É, em muitos casos, errada e propositadamente enganadora, desferida com o objetivo de desqualificar o autor e a crítica, através de uma implícita vitimização do criticado, que já não serve de argumento para justificar actos dos sucessivos governos israelitas numa continuidade de repressão e tentativa de anulação do povo palestiniano. As críticas não são contra o povo judeu, mas sim contra políticas que são ilegais, injustas e que arrastam o conflito para níveis de violência que nunca vão ser a solução de coisa nenhuma. Não é muito difícil perceber que o conflito israelo-palestiniano não se resolve por meios militares mas sim através do compromisso político. A não ser que se acabe de vez com os palestinianos, como alguns políticos israelitas já admitiram (“lançá-los ao mar”) ou, mais recentemente, quando um ministro do Governo de Benjamin Netanyahu não excluiu a utilização de uma bomba nuclear na Faixa de Gaza. Actualmente, quem procura confundir as críticas políticas, legítimas, ao governo de Israel, com algum tipo de antissemitismo, acaba por ser o maior instigador daquilo de que acusa os críticos: levar a opinião pública a confundir o povo judeu com o governo de Israel. É politicamente desonesto e socialmente muito perigoso.

Em qualquer país europeu onde é crime o discurso de ódio seja contra quem for, muitos israelitas que desde 7 de Outubro falam em alguns canais de televisão de Israel não escapavam à prisão, tal o discurso de ódio que ousam expressar. Portanto, condenemos o antissemitismo quando ele se expressa, denunciemos todo o tipo de racismo e xenofobia, discursos de ódio, mas não adulteremos o debate.

O que é notícia?

Neste conflito que dura há décadas e que conhece agora um pico de violência inédito, há um facto indesmentível e preocupante: a “questão palestiniana” tinha quase desaparecido da agenda noticiosa e só se voltou a falar dela depois do ataque do Hamas, a 7 de Outubro. É importante deixar claro que esta constatação não significa qualquer tipo de apoio ao que o Hamas fez. Muito menos significa um elogio escondido ao ataque do Hamas. Em qualquer conflito, em qualquer guerra, os civis têm direito de protecção reconhecido por convenções internacionais que os protagonistas em conflito estão obrigados a respeitar. Aplica-se ao Hamas e a Israel.

Mas enquanto a agenda noticiosa esquecia o conflito, ele continuava a existir. Incursões do exército israelita em cidades e vilas palestinianas, palestinianos mortos, palestinianos presos que ficam anos nas cadeias sem serem julgados ou conhecerem uma acusação, actos de punição colectiva, postos de controlo, palestinianos impedidos de rezar nas mesquitas da cidade velha, casas demolidas, colonos a atacarem palestinianos e a queimarem culturas, colonatos a crescerem, terras confiscadas… tudo isto continuou enquanto a agenda noticiosa pouca relevância dava. “Isso já não é notícia”, é uma frase frequente nas redacções. A terrível realidade deixara de ser uma novidade: o que é considerado “normal” não cabe nas notícias. Também houve ataques palestinianos a alvos israelitas, mas em muito menor número, com consequências muito menos dramáticas e sempre sublinhados nas notícias.

Também muitas chancelarias internacionais têm um diferente discurso consoante o caso: se o alvo é Israel, as chancelarias condenam, muitas vezes “veementemente”, e sublinham sempre o direito de Israel a defender-se, justificando desde logo uma eventual retaliação; se o alvo são os palestinianos, as chancelarias declaram “preocupação”, raramente condenam e nunca referem o direito que os palestinianos também têm de se defenderem.

Gaza ground zero

A Faixa de Gaza, neste momento, já é muito pior do que o “ground zero” que resultou do ataque às Torres Gémeas em Nova Iorque. É um campo de ruínas com mais de dois milhões de seres humanos a tentarem sobreviver aos bombardeamentos, à fome, à sede, à ausência de cuidados de saúde e à indiferença da “comunidade internacional”. A Faixa de Gaza é um território de 360 km2 sujeito a ataques indiscriminados de um dos mais poderosos exércitos do mundo, municiado pela maior potência militar à face da terra. O balanço que já é terrível ameaça ser ainda mais trágico porque são muito ténues os sinais de que as armas se possam calar.

Mas isto também nos diz algo muito importante que não está a ser devidamente valorizado: os palestinianos resistem e, apesar de castigados de forma absolutamente terrível, inimaginável, apesar de suportarem um preço que vai muito para além do que é possível admitir, muitos deles recusam sair de Gaza.

O que esperar de quem não tem esperança?

Podemos tentar olhar e analisar com mais distanciamento e de uma forma mais fria. Tentemos responder a uma pergunta: o que esperar de 2,2 milhões de pessoas trancadas numa prisão a céu aberto, sem qualquer perspectiva de futuro, há mais de 16 anos?

Pergunta semelhante se pode fazer em relação à Cisjordânia: o que se pode esperar de quem vive constantemente a humilhação entre postos de controlo, entre incursões do exército, mortes, prisões, agressões dos colonos, achincalhamento e dignidade ferida?

Quem agora se apressa a falar da “solução dois Estados” devia, ao longo do tempo, ter feito alguma coisa para que essa solução não pareça agora completamente inviável. A não ser que Israel retire os colonatos da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental – o que é altamente improvável – que tipo de Estado podem os palestinianos esperar? Foram esses, os mesmos que levaram Perez, Rabin e Arafat a apertarem as mãos e assinarem os Acordos de Oslo, que traíram os palestinianos. Não têm as mãos nada limpas relativamente ao que está a acontecer em Gaza.


Por José Manuel Rosendo em meu Mundo minha Aldeia

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