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Furos de gás em Lacq, França: a não repetir

Objeto de orgulho tecnológico há 50 anos, fez-se extração de gás natural em Lacq, na maior jazida do país. As altas taxas de mortalidade e a má saúde originaram protestos. A investigação epidemiológica ora foi ocultada, ora recusada. O relatório, de 2002, é agora revelado por associação local que interroga os poderes públicos: o negócio fez-se à custa dos habitantes?
Exploração de grande jazida de gás natural em Lacq, perto de Pau, Pirenéus Atlânticos
Exploração de grande jazida de gás natural em Lacq, perto de Pau, Pirenéus Atlânticos

De orgulho nacional a ocultação deliberada

Em 1951 a SNPA, antecessora do grupo Elf, lançou-se na exploração de uma grande jazida de gás natural em Lacq, perto de Pau, Pirenéus Atlânticos. Foi fornecedora de boa parte do consumo nacional de gás. A paisagem rural foi sendo substituída pela industrial, a entrada massiva de mão de obra atraída por salários mais altos levou ao surgimento da cidade nova de Mourenx a poucos quilómetros. De 218 residentes em 1954, Mourenx passa a 10.734 em 1968, incluindo gente vinda do Estado espanhol e repatriada da Argélia1. Frente à Garganta Aberta, Michel Rodes ironiza e fala da gás-tronomia local: “a 10 km em volta não há nem um damasqueiro, uma nogueira, uma vinha, já não há cogumelos”. “As vacas adoecem. A água está contaminada”.

O alerta, contudo, soa apenas em 2002 através de um estudo epidemiológico feito pelo ISPED, Instituto de Saúde Pública, de Epidemiologia e de Desenvolvimento que foi ocultado, apesar das preocupações e contestação de muitos. Percebia-se nele que, sobretudo entre trabalhadores mas também entre residentes próximos da exploração, a mortalidade excedia em muito as médias.

Masserá preciso esperar pelo início de 2016 para que alguém quebre o silêncio forçado. A associação local Sepanso, (atual Federação Regional das Associações de Proteção da Natureza da Região da Aquitânia) torna público o estudo de 2002 e vem pedir contas aos poderes públicos pelo silenciamento e pela ausência de assunção das consequências para a saúde e a vida: “o que fizeram para perceber o que aconteceu em Lacq?” E ainda:

“Será que os furos se fizeram à custa de quem lá vive?”

O estudo sobre a qualidade do ar na região estabeleceu 3 zonas de exposição em função da proximidade e do regime de ventos. A contaminação produzida em Lacq, com 23.000 habitantes no ano do estudo, podia efetivamente atingir outras zonas.

Entre 1968 e 1998, no grupo dos menos de 65 anos,residentena zona mais exposta junto a Lacq, morriam mais (sobremortalidade) 14% das pessoas do que a 12 km do local da exploração(mais detalhes no facsímiledo resumo do ISPED consultável neste artigo do Mediapart). Em 1976 inicia-se um incremento que não cessa, atingindo 30% de sobremortalidade entre 1991-98. O que é ainda mais preocupante se tivermos em conta que até 1976 morria-se menos de cancro do aparelho respiratório do que em média na região da Aquitânia.

O estudo, como frequentemente acontece em epidemiologia, não foi categórico quanto à causa dessas mortes. Em vez de afirmar que era a poluição industrial a sua causa, afirmou antes que esta era uma conclusão plausível, e recomendou mais pesquisa que complementasse e aprofundasse os primeiros resultados obtidos. O que nenhum poder público virá a fazer.

A Agência Regional de Saúde (ARS) só em 2007, 14 anos depois, revela que os habitantes estavam sujeitos a mais de 140 substâncias presentes no ar. O Tribunal de Contas dirige em 2015 um relatório ao governo onde aponta várias debilidades ou falhas na intervenção da Agência: só 5 das substâncias mais perigosas foram alvo de medidas; só averiguou poluição atmosférica e não avaliou o risco global; falhou ao não estudar a exposição de trabalhadores; não teve em conta possíveis efeitos combinados (efeitos cumulativos de várias moléculas). E relembra que a recomendação feita para novo estudo não foi seguida. A isto se adiciona que a medicina do trabalho não trocou informação anonimizada sobre os casos detetados com os serviços de saúde pública, como prevê o plano nacional de saúde em vigor.

À pergunta sobre as consequências dos furos não houve qualquer resposta.

Perante isto a Sepanso exigiu novo estudo epidemiológico. Mais ainda, propôs que se constituísse um observatório da população e, dado o falhanço da ARS, que os estudos sanitários se fizessem fora da sua tutela.

O que mudou no ambiente

Desde 1958 foram extraídos 3 milhares de milhões de m3 de gás por ano. Note-se que os técnicos perceberam logo no arranque que, como o gás de Lacq tinha muito ácido sulfídrico (16%), precisavam de o tratar. Para além de produzir enxofre nesse processo, a empresa passou a lançar os resíduos de dióxido de enxofre para a atmosfera à razão de 700 toneladas de SO2 por dia. É sabido que este poluente origina dificuldade em respirar e cancros.

A meio deste percurso a atividade industrial teve melhorias parciais em termos de ambiente, mas não se sabe ainda se as alterações globalmente consideradasbeneficiaram a população.A Total deixou de explorar gás com fins comerciais desde finais de 2013. Uma quantidade inferior de hidrocarbonetos destina-se agora à indústria. Entretanto outras 20 unidades industriais, classificadas como zonas Seveso de risco industrial, instalaram-se no mesmo local e áreas circundantes. Constituíram aí uma plataforma industrial química: produzem enxofre, polímeros, lauryl-lactame, nitratos de amónio, fibra de carbono, nanotubos de carbono, agrocombustíveis. É então que os fumos das chaminés mudam de cor e de cheiro.

A contestação pública

Segundo o trabalho de Jade Lindgaard no Mediapart, publicado no artigo citado, parte I e II, alguns intervenientes públicos no processo de contestação merecem destaque.

Michel Rodes, o militante associativo que há 40 anos defende a zona de Lacq, dirigente da Sepanso Aquitânia, denuncia a complacência para com os industriais. Em 1973 o antigo professor de história e geografia publica um artigo onde dava conta das declarações de um operário dos tanques das fábrica Pechiney, então em greve: “Fisicamente, é nojento. Trabalhamos ao lado de tanques a mil graus em cima de máquinas trepidantes. Estão 50° C. Está cheio de poeira e gás tóxico, não se vê a mais de 20 metros, pomos muitas vezes a máscara. Além disso, há o campo magnético criado pelos cabos de alta tensão; sai-se todo preto”. “Fazemos [turnos de] 3 × 8, mesmo ao domingo, com apenas 20 dias de férias. Aos 40 anos, a nossa saúde está estragada, 20% de nós estão inválidos”.

É ainda o caso de Loïc Coudry, clínico de serviços de urgência e adjunto da câmara de Laà-Mondrans, próximo de Lacq. Foi dos poucos que usou a voz e se dirigiu à ministra da saúde exigindo nova perícia sobre os impactes da exploração de gás: “As pessoas nascidas depois da abertura do campo em 1949 vão viver menos tempo? Vão ficar mais doentes? Há verdadeira urgência em saber isto. É chocante que o estado de saúde da população não seja vigiado em permanência.”

Patrick Mauboulès, agora membro da Sepanso e antigo delegado sindical CGT na TEPF (Total exploration production France), ramo que explorava o gás até há pouco, afirma: “o mínimo que se pode fazer é o seguimento da curva em subida!”.

Em outubro de 2015 uma associação local foi criada para denunciar o cheiro irritante para as vias respiratórias, diferente do de antigamente. Cerca de 20 famílias contactaram o Instituto Nacional de Vigilância Sanitária (INVS) vincando a necessidade de fazer novo estudo epidemiológico. Ainda não obtiveram resposta.

Gilles Cassou, de Mourenx, 52 anos, afirma: "Eu não sou verde, você viu o meu carro...”. “Se me tivesse dito há cinco anos que eu teria de fazer isto para fazer ganhar consciência do problema, eu tinha-me rido. Mas mantemos a esperança e a nossa abordagem deu os seus frutos: uma rede de vigilância vai ser criada e o presidente da autarquia pediu a criação de uma Comissão de acompanhamento do campo industrial em que vamos participar. É construtivo”. O enxofre não queima só a vegetação. A partir de 2012 é uma das pessoas que deixa de conseguir respirar de noite, e as crises vão repetir-se. Como empregado do centro de pesquisa da Total e depois de ter vivido sempre em Lacq está tão acostumado ao cheiro sulfuroso que senti-lo “é estar em casa”. No verão de 2015 terá de meter-se no carro para conseguir dormir num sítio longe dali. A seguir, a empresa recém criada Zéro pollution systèmes será fechada. Já não há aquele fumo azulado em grandes quantidades no ar porque foi encerrada após liquidação judicial devido a má gestão técnica e financeira.

E antes destas reações? O que aconteceu em anos mais recuados?

"Quero contradizer a afirmação falsa de que a população concordava e estava calada. Durante dez anos houve uma luta de camponeses, de trabalhadores, de sindicatos”. André Cazetien guarda uma foto de 1960 onde o deputado Guy Ébrard está ao seu lado, ao microfone de uma tribuna, juntamente com centenas de camponeses de boina preta na cabeça. Agora com 93 anos, Cazetien foi presidente de câmara comunista de Mourenx. Na sala tem um cartaz da Revolução dos Cravos e outro de Che Guevara. "Desde esse dia, uso a boina para ser fiel a todas essas pessoas maltratadas pela poluição. Desde o princípio as pessoas viram a poluição. Os nossos filhos, os nossos alunos iam à escola levando máscara de gás”. Professores primários, ele e a esposa, viram com susto as escolas a serem equipadas com máscaras. Para ele “este combate contra as grandes sociedades que exploram a gizada criou um dever de vigilância dos industriais e obrigou-os a reduzir a poluição”.

Numa outra foto uma criança carrega uma mochila e um o saco com a sua máscara. Tiveram de aprender a viver com o risco de acidente.

A turma de Cazetien, Mourenx, 1960, com as máscaras de gás em cima das carteiras

A turma de Cazetien, Mourenx, 1960, com as máscaras de gás em cima das carteiras

Em 1963, um militante e poeta da Occitânia realizou um filme ativista contra a fábrica de Lacq. Entitulado Terra Uscalada (Terra Queimada), denunciando "a grande dama" de Lacq, a da "morte amarela" que envenena o ar. Referia-se às montanhas de enxofre amarelo com muitos metros de altura e que se estendiam por hectares. O autor comparava ironicamente as máscaras de gás, que tinham de equipar todas as residências num raio de 500 metros à volta do poço, a "focinhos de porco". "Se salvaram tão bem os nossos soldados em Verdun, não há nenhuma razão para não salvarem os nossos filhos".

Entre residentes e trabalhadores há também quem veja a poluição de outra forma.

Um eleito de esquerda terá comentado: “Bem, temos de morrer de qualquer coisa”. Um reformado de Artix declara que, ao telefonar para o serviço de alerta se recusou a recebê-los em sua casa: “Não queremos ser delatores”. Um residente de Lagor, cidade que domina o campo industrial, diz que "as pessoas não querem falar. O anúncio por correio de uma reunião de moradores descontentes deu lugar a respostas zangadas: “isto é que nos dá de viver”, “não vamos cuspir na nossa sopa”.

O gás está em todo o lado e os moradores já não reparam nos altifalantes dos alarmes no cimo dos telhados.

Ocultação e desinformação

A ARS, face aos protestos, afirmou ter difundido os resultados de 2002 entre os presidentes das câmaras em causa, o que a Sepanso contesta. Na realidade a Agência desvalorizou o alcance do estudo com informação certa, mas truncada e de forma enganadora. A 9 de março de este ano lançou um comunicado de imprensa alegando que o estudo concluiu haver “submortalidade em 13% nas zonas estudadas”. O estudo dizia-o, mas os autores explicaram que isso não se aplicava a doenças do aparelho respiratório. O que escreveram aliás no resumo, destacado logo no 1º ponto chave, era: “sobremortalidade nos mais de 65 anos, em particular por causas cancerosas” (sublinhado nosso).

Entrevistado para o Mediapart, Michel Noussitou, da ARS afirmou que, além de não aceitar a palavra sobremortalidade, o estudo era inconclusivo. Contactado de novo uns dias mais tarde afirmou: “o lançamento dum estudo faz correr o risco de quebrar a paz social, sendo a população levada a pensar que as investigações em curso são motivadas pela suspeição do problema”.

Se até um dado momento as autoridades confiavam nos industriais para medir as emissões de poluentes, recentemente o processo já deveria ser outro e portanto estão em falta. Alertas de várias fontes foram-se sucedendo.

O estudo de 2002 apontava para ultrapassagens “frequentes”dos limites máximos de dióxido de enxofre. A União Europeia abriu um processo à França por não cumprimento das quotas desse poluente entre 2005/2008. E o Tribunal de Contas relatou em 2015 diversas infrações aos limites máximos de emissões de tetraclorídio de carbono, suspeito de ser cancerígeno para humanos, por parte de uma empresa da plataforma de Lacq. Indicou, ainda, haver riscos no transporte e armazenagem de matérias perigosas que não estavam a ser controlados.

Toda a plataforma industrial de Lacq se tornou uma zona negra no mapa dos riscos ambientais e de saúde como vários episódios demonstraram: em Mont a poluição atingiu as camadas freáticas do solo; em Mourenx a água ganhou cor e o seu uso foi restringido; a estação de tratamento das águas de Lacq, Mont e Mourenx foi notificada na sequência de deteção de resíduos medicamentosos numa ribeira vizinha.

Interesses em presença

Supostamente as pessoas eleitas, trabalhadoras, associações e representantes do estado deveriam reunir periodicamente para avaliar riscos sanitários e tecnológicos, mas isso ocorre de forma irregular. Há nessas reuniões um passar de bola constante, observa Jade Lindgaard. Os dirigentes das comunas próximas são antigos empregados destas indústrias. Estas empresas vão sendo contempladas com facilidades. Um deputado do partido socialista, próximo de Valls, fez aprovar em 2011 a isenção da taxa de atividades poluentes sobre as injeções a mais de 4000m de profundidade dos efluentes industriais da plataforma química de Lacq. Declarou que se tratava “simplesmente de água salgada”. A ministra do orçamento de Sarkozy, Valérie Pécresse, apoiou a proposta. Quem ganhou foi o grupo Total.

Artigo de Paula Sequeiros para esquerda.net


Fonte: Quand forer tue: le secret bien gardé de l’épopée du gaz de Lacq (1/2), 24 abr. 2016; Gaz de Lacq: la fabrique du silence (2/2), 26 abr. 2016; de Jade Lindgaard, Mediapart, https://www.mediapart.fr/


Sobre o/a autor(a)

Investigadora em sociologia da cultura
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