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Fukushima: Governo e Tepco ignoraram risco de acidente nuclear

O Governo japonês e a companhia de eletricidade Tepco ignoraram o perigo associado à energia nuclear e isso foi o que tornou possível o acidente da central nuclear de Fukushima, concluiu o relatório final sobre a catástrofe de Março de 2011.
De acordo com os investigadores, o número de casos de cancro não letais relacionados com o acidente em Fukushima pode chegar a 2,5 mil, e levar a até 1,3 mil mortes.

Um novo relatório oficial põe em causa o Governo japonês e a empresa Tepco quanto às suas responsabilidades no acidente nuclear de Fukushima, criticando a forma como ignoraram os riscos da energia nuclear e os seus erros durante a gestão da catástrofe que ocorreu em Março do ano passado. O relatório pedido pelo Governo a um comité de engenheiros, investigadores, juristas e jornalistas tem 450 páginas e foi publicado numa altura em que o país se questiona sobre o futuro do nuclear, energia que suscita cada vez mais dúvidas e críticas por parte da população.

"O problema principal vem do facto de as companhias elétricas, incluindo a Tepco, e o Governo não se terem apercebido da realidade do perigo, porque acreditavam no mito da segurança nuclear e de que um grave acidente não poderia acontecer no nosso país", sublinha o relatório, citado pela AFP.

As conclusões foram apresentadas esta segunda-feira, após entrevistas com 772 pessoas envolvidas antes ou durante o acidente na central de Fukushima, incluindo o então primeiro-ministro Naoto Kan. Não só as autoridades não tomaram as medidas suficientes para impedir o acidente nuclear, após o sismo de magnitude 9 na escala de Richter e um tsunami que submergiu as instalações, mas a sua gestão da catástrofe deixou muito a desejar, de acordo com o relatório.

À Tepco, os peritos apontam "uma deficiente gestão da crise, uma estrutura organizacional pouco adaptada às situações de urgência e uma formação insuficiente do pessoal em caso de acidente grave". Os autores do relatório esperam, contudo, que a companhia "reforme em profundidade os seus sistemas de formação de modo a melhorar a capacidade do seu pessoal de lutar contra o acidente" ainda em curso.

Dezasseis meses após a tragédia, as emissões radioativas são muito menores que em meados de março de 2011 e os sistemas de refrigeração em circuito fechado voltaram a ser reinstalados. Mas o perigo ainda não foi afastado, já que as instalações continuam fragilizadas após as explosões do início da catástrofe. Além disso, frequentes tremores de terra continuam a atingir a região.

Os autores criticam ainda as intervenções do ex-primeiro-ministro Naoto Kan, na gestão operacional do acidente. "A sua intervenção direta fez mais mal que bem, porque gerou confusão, impediu a tomada de decisões importantes e levou a julgamentos erróneos", acrescentou. Um outro relatório oficial, pedido pelo Parlamento e divulgado a 5 de julho, já tinha criticado as atitudes das autoridades, julgando que a catástrofe tinha sido "um desastre criado pelo homem" e não simplesmente provocado pelo sismo e pelo tsunami.

O acidente de Fukushima, o pior do setor desde Chernobyl (Ucrânia, 1986), provocou importantes emissões radioativas no ar, nas águas e nos solos da região da central, situada a 220 km de Tóquio. Uma centena de milhares de pessoas foram retiradas das suas casas.

Japão ainda dependente da energia nuclear

Estas conclusões surgem depois de, este fim-de-semana, o Japão ter reativado um segundo reator nuclear após o desastre de Fukushima (no mês passado tinha já sido reativado um outro).

Entre 11 de Março de 2011 e 5 de Maio de 2012, foram desativados 54 reatores nucleares no país. Mas as preocupações com a escassez energética devido aos picos de consumo no Verão, fizeram o Governo japonês voltar atrás.

Neste momento, o Japão depende fortemente de energia térmica para compensar a perda de quase todo o fornecimento de energia nuclear. Antes do acidente na central de Fukushima, a energia nuclear era responsável por 30 por cento do consumo de eletricidade no Japão.

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