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Fui ao Jardim da Celeste… e o que foste lá fazer?

Dois filmes muito interessantes, com títulos invulgares e sugestivos. Ambos sobre factos históricos contemporâneos. Enquanto a guerra durar de Alejandro Amenábar e Comportem-se como Adultos de Costa Gravas. Por Luísa Cabral
Enquanto a guerra durar de Alejandro Amenábar
Enquanto a guerra durar de Alejandro Amenábar

Enquanto a guerra durar (realização de Alejandro Amenábar), passado em Salamanca, na ascensão do franquismo. Dois pólos: um povoado por figuras de Salamanca, todos intelectuais mas todos diferentes: um padre protestante, um professor de literatura na universidade, antigo aluno de Unamuno e o próprio Miguel de Unamuno. O avançar da narrativa vai mostrando as diferenças entre eles e o que os aproxima à medida que os franquistas se instalam, tomam conta das instituições e do destino dos espanhóis. Tanto num grupo como noutro, é enfatizado o que os une e o que os distingue. No seu todo, o que move o grupo dos cidadãos de Salamanca e o que empurra para a frente o grupo dos franquistas. Como duas correntes paralelas, qualquer delas com contradições internas mas enquanto num grupo, as contradições têm muito a ver com compromissos tomados anteriormente em nome da liberdade de pensamento – numa revisitação ao passado, Unamuno é retratado num sofrimento enorme, no outro grupo não há compromissos mas sim ganância e fome de poder. A liberdade, a defesa de um pensamento sem baias, a sociabilidade, o prazer da discussão, o bom hábito de uma tertúlia diária, enquanto a teia dos fascistas se aperta. Uma liberdade que equaciona mal a realidade, que não intervém e que apenas avalia a situação quando ela se torna irreversível. Talvez fosse mesmo irreversível. Unamuno sofre com a perda sucessiva dos seus amigos presos e executados sem julgamento, um aviso terrível do que se multiplicaria por milhares. Execuções sumárias, a ascensão do fascismo. Um aviso aos intelectuais sobre a necessidade absoluta de estar presente, de não perder tempo com discussões vãs. Do outro lado, a glorificação da morte. Um quadro tenebroso sobre a forma como Franco subiu, tomou o poder e permaneceu. A cobardia de uns perante a manipulação e a força bruta de outros. Não é só a figura de Franco que é retratada como figura que se insinua dando sempre a impressão que se deixava conduzir fosse pelos generais seus iguais fosse pela mulher, beata e dominadora. O papel da religião e da civilização cristã. Disfarçando o carácter, Franco instalou-se em 1936 e no poder ficou até 1975. No filme é retratado como tímido, cauteloso, um pouco medroso até, fascinado pela ordem hitleriana. Não importa se este perfil é completamente exacto porque a personagem emerge como odiosa como de facto o foi. Não usou muitas artimanhas para conseguir impor-se, bastou a manipulação, o medo e o silêncio. Unamuno acaba por intervir de forma magistral na Universidade, o seu templo como lhe chama, perante um auditório repleto pela horda fascista. Tarde demais, os compromissos tinham dado espaço à conquista dos fascistas. Em Salamanca como por toda a Espanha a bandeira bicolor substituiria a tricolor.

 

Avancemos agora para Atenas, ascensão e queda de Alexis Tsipras, 2015. Com um guião escrito pelo próprio Yanis Varoufakis, com tudo o que possa acarretar de verdade e de imaginação, Costa-Gravas fez um filme envolvente que nos deixa colados à cadeira porque sabendo nós que a imaginação não pode ir tão longe, ficamo-nos a perguntar como foi possível nesta Europa deixar acontecer o que ali se narra.

O desenrolar dos acontecimentos acontece a um ritmo acelerado, para o sucesso do qual conta muito a depuração a que a narrativa foi sujeita. Não há momentos mortos ou inúteis, toda a acção é crucial e o papel de Varoufakis é absolutamente central. Nem tudo será narcisismo mediterrânico (expressão desesperada de Wolfgang Schäuble, ministro alemão das finanças) pese embora uma dose de voluntarismo considerável. Tudo sempre justificado pela crise humanitária presente e revelada nas ruas desertas de Atenas, os espaços para alugar, vender ou trespassar. Nada a que o estoicismo helénico não esteja habituado. As cenas do Eurogrupo são épicas. Não terá sido exactamente assim? Não pode ter andado longe; as intervenções iradas de alguns ministros entre os quais sobressai o finlandês, o descontrolo de Jeroen Dijsselbloem (presidente do Eurogrupo), as múltiplas manobras, a democracia europeia clarinha como água mesmo que vagamente romanceada. E como se inverte a decisão esmagadoramente maioritária do povo grego sobre o seu próprio destino. A Tsipras faltou-lhe coragem, talvez, enquanto Varoufakis ficou sem chão. Ou, parafraseando Lagarde, presidente do FMI, Comportem-se como adultos.

 

Sobre o/a autor(a)

Bibliotecária aposentada. Activista do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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