Entrevista

Francisco Louçã: “A imaginação pode conduzir a todos os sentidos, o libertador e o ameaçador”

15 de novembro 2025 - 17:04

Em entrevista ao Esquerda.net, Francisco Louçã fala do seu livro mais recente, um estudo sobre a imaginação na história da humanidade.

porDaniel Moura Borges

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Francisco Louçã
Montagem de Esquerda.net.

Imaginação – Cores, Deuses, Viagens e Amores é o novo livro de Francisco Louçã, uma viagem pela história humana e pela história da imaginação. De Bosch a Cervantes, a obra explora a essência humana, o desejo, a arte e a religião.

O livro será apresentado esta segunda-feira, dia 17 de Novembro, pelas 18h30 no Auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian, numa sessão que conta com apresentação da escritora Lídia Jorge.

Em entrevista ao Esquerda.net, Francisco Louçã fala sobre o processo de escrita do livro, sobre os três primeiros imaginários humanos e sobre o caminho para um estudo mais alargado da imaginação.


De onde surge a pulsão para escrever um livro sobre a imaginação?

Comecei o livro nos primeiros dias de 2020, vai portanto fazer seis anos. Mas algumas conversas que nele se expressam vinham de longe: com Miguel Portas sobre as civilizações suméria e acádia, com João Martins Pereira, muito antes, sobre Bergson e Sartre, ou com Daniel Bensaid sobre a sociedade do espetáculo. Ou outras, que evoco na introdução ao livro. De facto, tudo o que se escreve, mal ou bem, é aos ombros de gigantes. A partir daí, a interrogação do livro é esta: sendo a natureza humana a sua realidade social, o que é que determina e define a acumulação cultural que distingue a nossa espécie de todas as outras? A faculdade de imaginar é partilhada com outros animais, mas nenhuma espécie a desenvolveu como os humanos, criando essa criação cultural como uma das bases da sua civilização, incluindo a linguagem, que é a nossa forma de instruir a imaginação.

Há, na busca por uma história da imaginação, um esforço para ir ao encontro de uma história da Humanidade?

Sim. Parece admissível que os três primeiros imaginários humanos tenham sido a abundância, num mundo em que a alimentação era escassa e arriscada, o prazer e a sexualidade reprodutiva, e as forças externas ameaçadoras, interpretáveis como poderes transcendentes, ou deuses. Nos três casos, são imaginários poderosos. Neste livro estudo dois deles, as religiões e os amores, a partir dos registos escritos, das inscrições e representações visuais e outras, e das cartas, livros e testemunhos dos amantes. A forma como imaginamos a morte, a eternidade, os poderes que foram descritos como incognoscíveis, ou como criamos os seus mitos, ou como imaginamos o outro, definem alguns dos processos mais notáveis dessa acumulação cultural. O livro é, nesse sentido, um mapa da história da humanidade, para o que escolhi Paul Gauguin, pintor genial que queria descobrir um novo significado para a cor, também um misógino incorrigível, controverso e insuportável, para ser o cicerone destes percursos, pela arte, pelos mares do sul, pela religião polinésia, pelas imagens do amor.

Também entram aqui outras vozes: a de Cervantes, que deu cores aos personagens de Dom Quixote para realçar a intriga, a de Frida Kahlo, que inventou cores dos seus pesadelos e do seu folclore, ou os viajantes, como Polo e Ibn Battuta, ou muito depois deles os aristocratas e burgueses que passeavam pelo Oriente ou pela Itália romântica dos séculos XVIII e XIX, ou os mentirosos, como Plínio e Mandevile, ou as figuras fantasistas, o Preste João.

Da descoberta da escrita às redes sociais, o meio certamente tem efeito na mensagem e na criação. Que história da imaginação é possível traçar a partir do meio em que se expressa?

Sem dúvida, mas isso será um tema para prosseguir o estudo da imaginação. A linguagem, que é a tecnologia da imaginação, muda no presente e está a mudar depressa, assim como o contexto em que se definem novos imaginários. Há hoje uma vertigem de captação mercantil da capacidade de imaginar e a um conformismo hipercomunicacional que pretende encerrar o humano nos limites do metaverso e do poder algorítmico dos super-oligarcas. É o que me levará às utopias e distopias, à ficção científica e a outros campos. Mas é trabalho para diante.

O último livro que publicaste, O Futuro Já Não É O Que Nunca Foi, delineia um presente onde a democracia e a sociedade como a conhecemos estão sob ataque da extrema-direita com o impulso das redes sociais. A imaginação é, nesse presente, um ato de liberdade?

A imaginação pode conduzir a todos os sentidos, o libertador e o ameaçador. Até a barbárie é parte integrante da nossa civilização. Mas o que a faculdade da imaginação garante é que nenhum destino está determinado ou, para adaptar uma expressão bíblica, ninguém tem a última palavra. 

Daniel Moura Borges
Sobre o/a autor(a)

Daniel Moura Borges

Militante do Bloco de Esquerda.
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