A França pede a demissão da relatora especial da ONU para os territórios palestinianos devido a comentários que Francesca Albanese teria feito contra Israel numa conferência no sábado passado, afirmou o ministro das Negócios Estrangeiros francês esta quarta-feira, 11 de fevereiro, segundo o Le Monde. “A França condena sem reservas as declarações ultrajantes e repreensíveis de Francesca Albanese, que não se dirigem ao governo israelita, cujas políticas podem ser criticadas, mas sim ao povo e à nação de Israel, o que é absolutamente inaceitável”, afirmou Jean-Noël Barrot aos deputados franceses.
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Francesca Albanese, no seu discurso no fórum organizado pela rede Al Jazeera no sábado, em Doha, referiu-se a um “inimigo comum” que possibilitou o genocídio em Gaza. “O facto de, em vez de travar Israel, a maior parte do mundo o ter armado, lhe ter dado justificações políticas, proteção política, apoio económico e financeiro, é um desafio. O facto de grande parte dos meios de comunicação social no mundo ocidental ter amplificado a narrativa pró-apartheid, a narrativa genocida, é um desafio”, disse a relatora especial das Nações Unidas. “Nós, que não controlamos grandes volumes de capital financeiro, algoritmos e armas, vemos agora que, enquanto humanidade, temos um inimigo comum”.
É isto que o governo francês, adotando a interpretação da organização de lóbi israelita UNWatch, considera como ataque à população e nação Israelita. Aliás, Hillel Neuer, presidente da UNWatch, acérrimo sionista e que ataca Francesca Albanese desde o momento da sua nomeação como relatora especial da ONU para os direitos humanos nos territórios palestinianos ocupados - tal como atacou os anteriores ocupantes do mesmo cargo -, havia publicado na sua conta no X um vídeo truncado da intervenção de Francesca Albanese, com frases cortadas e manipuladas, para forçar a interpretação que o ministro francês adoptou.
Relatório
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Na segunda-feira, Francesca Albanese defendeu-se numa publicação na sua conta no X, afirmando que “o inimigo comum da humanidade é O SISTEMA que permitiu o genocídio na Palestina”. Mas o ministro francês disse que os comentários da relatora especial da ONU se juntaram “a uma longa lista de posições escandalosas”, acusando a perita italiana em direitos humanos de “justificar” os ataques de 7 de outubro de 2023 contra Israel e de “comparar Israel ao Terceiro Reich”.
Francesca Albanese colocou na sua conta na rede X o vídeo com a sua intervenção integral no fórum da Al Jazeera, para todos poderem avaliar sobre a justeza das suas afirmações, e que transcrevemos abaixo na íntegra.
Discurso de Francesca Albanese
“Passámos os últimos dois anos a analisar o planeamento e a execução de um genocídio. E o genocídio ainda não terminou. O genocídio enquanto destruição intencional de um grupo enquanto tal está agora claramente revelado.
Tem estado no ar há muito tempo e agora está plenamente exposto. Tem sido difícil relatar o genocídio. A Al Jazeera sabe-o melhor do que qualquer outro meio de comunicação social, devido a todas as perdas que sofreu enquanto empresa mediática.
Mas ninguém o sabe melhor do que os próprios palestinianos. Os palestinianos continuaram sempre a reportar o dilúvio de violência que se abateu sobre eles de forma implacável. E isto constitui um desafio.
O facto de, em vez de travar Israel, a maior parte do mundo o ter armado, lhe ter dado justificações políticas, proteção política, apoio económico e financeiro, é um desafio. O facto de grande parte dos meios de comunicação social no mundo ocidental ter amplificado a narrativa pró-apartheid, a narrativa genocida, é um desafio. E, ao mesmo tempo, é aqui que também reside a oportunidade.
Porque, se o direito internacional foi apunhalado no coração, também é verdade que nunca antes a comunidade global tinha visto com tanta clareza os desafios que todos enfrentamos. Nós, que não controlamos grandes volumes de capital financeiro, algoritmos e armas, vemos agora que, enquanto humanidade, temos um inimigo comum.
E as liberdades, o respeito pelas liberdades fundamentais, são o último caminho pacífico, o último conjunto de instrumentos pacíficos de que dispomos para recuperar a nossa liberdade. Mas precisamos de nos erguer. Precisamos de fazer o que está certo.
Todos nós, na nossa esfera individual — sejamos advogados, jornalistas, educadores, estudantes ou cidadãos comuns, em casa — temos um papel a desempenhar. E esse papel passa por mudar os nossos hábitos. Desde aquilo que escolhemos comprar, consumir e ler, até à forma como nos posicionamos perante o poder.
Precisamos de ser capazes de falar. Precisamos de ter a força de olhar uns para os outros e ver os nossos irmãos e irmãs e reconhecer neles aliados. E, a este respeito, penso que a Al Jazeera tem um desafio maior do que outros, porque tem de permanecer fiel aos seus valores fundamentais, à missão que a tornou conhecida em todo o mundo: a sua capacidade de relatar factos verdadeiros e de marchar em direção à justiça com esses factos nas mãos.
Acredito verdadeiramente que a Palestina será livre. Acredito verdadeiramente que todos seremos livres, porque demasiada consciência dos direitos humanos está hoje enraizada no mundo, após anos de pregação e ensino dos direitos humanos. Mas precisamos de agir.
E o momento é agora. Assim, por um 2026 de pleno compromisso com a responsabilização e a justiça.”