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França nacionaliza a 100% a EDF, a principal empresa elétrica do país

O Estado detinha já 80% do capital. O seu percurso bolsista é considerado desastroso, a empresa está muito endividada e dificilmente conseguiria cumprir a nova aposta de Macron na energia nuclear. Sindicalistas e oposição de esquerda temem o desmantelamento e falam em “nacionalização das perdas e privatização dos lucros”.
Sede da EDF. Foto de Olivier Durand/Flickr.
Sede da EDF. Foto de Olivier Durand/Flickr.

A primeira-ministra francesa, Elisabeth Borne, anunciou esta quarta-feira que o Estado irá passar a deter a 100% a principal empresa de produção e distribuição elétrica do país, a Électricité de France, através de um investimento de entre cinco a sete mil milhões de euros. O Estado francês já contava com 84% do capital da companhia que está fortemente endividada e que tem metade dos seus reatores nucleares parados por problemas de corrosão.

A chefe do governo justifica que esta é uma “evolução” que “permitirá à EDF reforçar a sua capacidade de realizar projetos ambiciosos e indispensáveis para o nosso futuro energético nos melhores prazos”. Com isto quis sobretudo referir-se ao nuclear. Borne defende que esta é “uma energia descarbonizada, soberana e competitiva” e que “a transição energética passa pelo nuclear”.

O presidente francês tinha lançado a sua nova aposta no nuclear em vésperas das presidenciais. Pretendia construir 14 reatores nucleares de terceira geração EPR e prolongar o prazo de funcionamento dos reatores em funcionamento. Nas circunstâncias em que estava, a endividada EDF não parecia em condições de cumprir sequer o plano mínimo de construção de apenas seis desses reatores nos quais terá de gastar pelo menos 60 mil milhões de euros.

Com esta renacionalização a 100%, terminará a sua fracassada aventura bolsista iniciada em 2005. As ações que começaram a ser vendidas a 32 euros então, vendiam-se agora, antes deste anúncio, a 7,8. A revista económica Capital, comprada recentemente pelo grupo Vivendi, classificou este percurso como “desastroso”.

Contudo, a notícia não foi bem recebida pelos sindicatos. Ao jornal Les Echos, Fabrice Condour, dirigente CGT na EDP, diz que “se o Estado quer deter a 100% a EDF é para abrir a via a uma fragmentação da empresa. Desviam-se as atenções do Parlamento falando-se de soberania enquanto se trata da primeira etapa de desmantelamento do grupo”.

Na imprensa, também surgem análises críticas. No Mediapart, Romaric Godin e Ilyes Ramdani dizem que a operação “parece apenas uma nova etapa da famosa doutrina neoliberal de socialização das perdas e de privatização dos lucros”. Exatamente as mesmas palavras utilizou o deputado da França Insubmissa François Ruffin: “veremos se será uma nacionalização das perdas quando houve uma privatização dos lucros”. À LCI acrescentou: “o setor privado não cumpriu , subcontratou (…), e agora que as coisas vão mal, vem-se nacionalizar”.

Ao mesmo órgão de comunicação social, o secretário nacional do Partido Comunista Francês, Fabien Roussel, coloca mesmo em causa a ideia de nacionalização: “eles dizem nacionalização mas é mais uma recapitalização, o Estado toma 100% das ações de uma sociedade anónima que continua a ser uma sociedade privada”.

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