Nesse fórum convergiram muitos dos principais dinamizadores do movimento Occupy dos vários pontos dos EUA e do Canadá. Em debate, uma miríade de temas de política, cultura, intervenção. O balanço sobre o Occupy, os seus desafios estratégicos e os próximos passos atravessaram todo o encontro.
O microfone humano
O microfone humano é uma bela metáfora do movimento Occupy. Em qualquer sítio, improvisa-se amplificação: “do it yourself”. Qualquer intervenção, para ser ouvida, precisa da cooperação ativa de todos. Cada um vai repetindo o que ouviu para que os outros também oiçam, mesmo que discorde do que foi dito. Pode demorar mais tempo, é verdade. Mas às vezes é preciso ir devagar se temos pressa.
A polícia ocupa Zuccotti Park
A capa do jornal Metro tem o seguinte título: “Occupy Wall Street raises fist...NYPD puts it down”. No dia em que fez seis meses, voltou-se ao Zuccotti Park. Festejou-se, debateu-se, cantou-se. Mas as regras tinham mudado: na praça, que é propriedade privada, foi afixada uma placa de metal a dizer que é expressamente proibido levar sacos-cama, tendas, ou sentar-se no chão. A polícia não hesitou: quando os primeiros ocupantes começaram a abrir as mantas, começou à porrada, evacuou a praça e cercou-a de grades. 70 pessoas foram presas. Em resposta às críticas à brutalidade da sua atuação, a polícia emitiu um comunicado em que se justifica da seguinte forma “os manifestantes deixaram o parque numa confusão, com garrafas de licor por todo o lado” e “às 11:39 da noite uma pessoa chamada 'smackem1' escreveu no twitter: 'só faremos a diferença se matarmos um policia ou dois', o que configura uma ameaça de morte”.
“Pensam que nos evacuaram, mas obrigaram-nos a expandir”
É assim que uma ativista fazia o balanço dos meses que decorreram desde o momento, em Novembro, em que o movimento foi expulso da praça. Deixaram de ter a Liberty Square, mas disseminaram-se as assembleias e as iniciativas. “Occupy your neighbourhood, occupy your occupation no matter what your job is or what you do, occupy theory, occupy your mind, occupy your life”
A primeira vitória
Michael Moore falou no Left Forum e fez uma intervenção otimista, que acabou em manif até Zuccotti Park, o sítio onde o movimento começou: “não podemos deixar escapar este momento, é a nossa hora”. Disse que, pela primeira vez em 30 anos, Wall Street deixou de se rir da esquerda e passou a temê-la. “Expusemos a fraude. Segundo as sondagens, mais de 70% dos americanos têm simpatia pela causa do Occupy e acham que devia haver mais impostos sobre os ricos”. Foi assim que Moore mediu a primeira grande vitória: não só apoio que tem, mas ter passado a determinar o que se pergunta e o que se discute.
Pão e Rosas
No domingo passaram seis meses desde o dia em que começou o movimento Occupy Wall Street, na rebatizada Liberty Square. Elaine Bernard, sindicalista, lembra uma outra data. Entre Janeiro e Março de 1912, há um século atrás, em Lawrence, Massachussets, mulheres operárias e imigrantes davam uma lição ao mundo. Dois longos meses de greve fizeram os patrões recuar. Queriam melhores salários mas também o direito à humanidade e à beleza. “Os corações mirram de fome, assim como os corpos. Dêem-nos pão, mas dêem-nos também rosas”.
“Não se apaixonem por vocês próprios”
A experiência da vida na praça marcou muita gente. Os lugares do Occupy, como as acampadas, foram durante semanas “mini-sociedades autogeridas”, “comunidades holísticas onde nos sentimos seres sociais completos”, onde aconteceram “novas formas de estar junto” e “encontros que nunca tínhamos imaginado, como ver um rabi e duas jovens transgender a debater sentados no chão”, como explicavam algumas das participantes por aqui. “Juntámo-nos como corpos em aliança, na rua e na praça, pondo em prática a expressão 'Nós, o povo'”, disse Judith Butler. Mas o desafio da transformação não pode ser apenas uma experiência centrípeta. As palavras de Zizek ressoavam em várias discussões: “Não se apaixonem por vocês próprios. Tivemos um tempo porreiro aqui, mas o que importa é o dia seguinte, quando tivermos de voltar às vidas normais. Ter-se-á provocado alguma transformação? O que queremos? Que tipo de organização social pode substituir o capitalismo? Que novo tipo de lideranças?”
O exemplo das enfermeiras
Rosann Demoro é porta voz do sindicato das enfermeiras, que ficou conhecido pela perseguição que fez a Schwarzenegger contra os rácios que queria impor enquanto governador. Explicou no fórum: “onde ele ia, estava a imprensa. Se estava a imprensa, nós íamos. Fizemos mais de 100 manifestações dessas.” Ganharam a luta. O sindicato tem mais de 170 mil membros, tem uma estratégia ativa de recrutamento, deu apoio aos acampamentos do Occupy e está agora empenhado numa grande campanha para taxar as transações financeiras.
Numa reunião com as enfermeiras, uma senadora democrata disse-lhes, a propósito desta luta de agora, que elas “tinham de baixar as expectativas”. A resposta veio pronta: “Senhora Senadora, será que vai querer que lhe diga o mesmo quando estiver numa cama de operações?”.
Porta-vozes
À porta do fórum, uma assembleia feita com o tradicional microfone humano. Só para confirmar que está tudo no mesmo espírito, a rapariga que toma a palavra pergunta: “quem é que é o porta-voz aqui?”. Toda a gente levanta o braço.
A educação não é uma mercadoria?
O programa da manhã da CNN é sobre educação. Em debate está a questão “vale a pena estudar?”. No estúdio, apenas dois economistas. A pergunta vai sendo respondida comparando o que se tem de pagar pelo empréstimo para andar na faculdade e o que se vai receber ao longo da vida com cada emprego dentro daquela área. No final, há uma lista sobre os cursos que “valem a pena” e os que não.
Cosmopolitismo
Domingo, numa concentração em Nova Iorque, ao despedir-me de um mulher dou-lhe dois beijos. “Ah, vocês dão dois beijos?”, pergunta-me. “É, em Portugal normalmente é assim. Aqui como é?”, respondo. “Aqui”, diz ela, “aqui depende sempre, toda a gente é diferente, é uma negociação”.
O culto
No guia do American Express aconselham a Revolution Books a quem gostar de “literatura radical”. Achei que devia ir lá. O destaque da livraria era uma publicação de citações de Bob Avakian chamado “BAsics”. Avakian é líder do Partido Revolucionário Comunista (maoista) e explica, num jornal distribuído no Left Fórum, “por que sou importante?”, revelando como ele próprio condensa a experiência do movimento operário e lhe trouxe uma “nova síntese”, sendo naturalmente o líder das massas operárias. O outro destaque é a “Constituição da Nova República Socialista na América do Norte”. A senhora da livraria explica-me que o Partido passou os últimos anos a escrevê-la com detalhe. Tem seis artigos que se distribuem por dezenas de páginas e está lá tudo: as regras do governo central, a comissão estatal que emitirá as licenças dos media independentes, as votações que exigem maioria qualificada, a duração dos mandatos, o código penal, o orçamento para a produção cultural do Partido, etc. Até o preâmbulo já está escrito. Começa assim: “a Nova República Socialista da América do Norte só pôde ter nascido como resultado da heróica luta de milhões e milhões de pessoas que foram forçadas a viver sob um regime de opressão nos antigos Estados Unidos da América”. No mesmo preâmbulo define-se ainda com clareza a “base teórica do novo Estado”: “a ciência do comunismo e o posterior desenvolvimento desta ciência através da nova síntese trazida por Bob Avakian”. Na nota introdutória, previnem-nos que, apesar da expressão adotada, o nome oficial do novo país poderá ser alterado quando o processo revolucionário acontecer.
Porta-vozes II
À noite, há um debate com a Amy Goodman, no conhecido programa alternativo de televisão “Democracy Now”. Faz-se o balanço de seis meses do Occupy e fala-se sobre o futuro: o movimento “occupy your home” contra os despejos, as mobilizações dos estudantes endividados, a campanha pela taxação dos capitais financeiros, a disseminação de iniciativas locais, o MayDay. Três convidados em estúdio: um jovem correspondente inglês, que esteve ativo no processo; a socióloga Francis Pivot, estudiosa dos movimentos sociais e referência na esquerda; um dirigente sindical. São três rostos do movimento, que tomam a palavra e falam “e muito bem” sobre os próximos passos. Alguém os escolheu.
Três desafios
Arun Gupta esteve ativo no Occupy Wall Street, foi o editor do Occupied Wall Street Journal e passou os últimos meses a visitar dezenas de occupys um pouco por todos os Estados Unidos. Resume assim os desafios organizativos do movimento: é preciso estruturas, que aguentem as coisas para além dos momentos; organizadores, que assegurem o funcionamento dos vários grupos de trabalho; e de intelectuais que, além de comentar, participem.
José Soeiro
março de 2012