A poucos dias da realização do Fórum Socialismo 2023 - programa aqui - o Esquerda.net publica alguns resumos das sessões que terão lugar em Viseu de 8 a 10 de setembro.
Há (super) ricos a mais?
A acumulação de capital na última década foi tão grande que vivemos a era dos oligarcas. Perdão, dos super-ricos. Chegando a um momento de acumulação sem igual na História da humanidade não haverá limites à concentração de riqueza, de recursos e de poder dos super-ricos? Haverá super-ricos a mais? Com quantos zeros se escreve a sua riqueza? O que é afinal a riqueza? Não foi esta acumulação de riqueza - e consequente desigualdade social - resultado de políticas públicas? Como as revertemos? A mobilidade social é a resposta? Como é que os próprios tomam decisões que tornam a sua fortuna maior? Qual é mesmo o produto que vendem? Vendem sequer algum? Porque são espampanantes?
Na última década, com os bancos centrais a injectar dinheiro na economia e taxas de juro baixas, os super-ricos acumularam riqueza como nunca. E agora, que estamos no caminho inverso, como vos tem corrido este ano? A maioria dirá que tem sido difícil por causa da inflação e do preço crescente da habitação. Já os super-ricos dizem que foi excelente: os 500 mais ricos adicionaram um total de 852 mil milhões de euros às suas fortunas na primeira metade do ano. É a "trickle-up economy", pinga sempre para cima.
Sobre as dificuldades sentidas pela população portuguesa, o ministro da economia António Costa e Silva socorreu-se de outros 500. Quando no início do ano a inflação apertava a vida dos trabalhadores, o ministro foi ao Parlamento explicar que tinha sinais muito positivos para a economia em 2023: as 500 maiores empresas da bolsa de Nova Iorque tinham valorizado 5%.
De acordo com a crença difundida pelo capitalismo, o mercado - pela lei da oferta e da procura - ajustará a sociedade para que cada necessidade seja suprida. Mas a realidade é que tivemos e temos mega-empresas que moldaram a economia, as leis do trabalho e o nosso dia-a-dia sem que tivessem um dia de lucro ou sequer um produto para vender. Onde andam os liberais? Estão a denunciar esta batota ao mercado que idolatram? Não. Estão ao lado do ministro da economia e de todo o governo a moldar a sociedade para essas mega-empresas.
A escala de grandeza da acumulação é de tal magnitude que o mais rico dos ricos chegou a perder tanta fortuna como só ele e mais dois homens alguma vez possuíram e mesmo assim ficou no segundo lugar do pódio dos ricos. Hoje os super-ricos fazem uma corrida espacial. Um deles controla tantos satélites que literalmente pode decidir uma guerra entre Estados. Outro é super-rico porque vende produtos exclusivamente a ricos e super-ricos. E todos têm selfies com governantes. Não se criam super-ricos sem Estado, falemos portanto do tipo de Estado que queremos.
Os super-ricos mobilizam uma claque e uma luta ideológica. Por cá também vimos a periferia do seu exército a defender o valor absoluto da propriedade contra o valor da habitação (cujo preço aumentou à custa do mundo dos super-ricos). Mas no mundo dos super-ricos mesmo a propriedade é relativa em favor do tubarão maior, é o caso da propriedade de ações de empresas.
O capitalismo é a sociedade da abundância para os super-ricos e da escassez para a maioria. Se nunca houve tanta riqueza como hoje, uma coisa sabemos: há pobres a mais, há desenrascados a mais e estes são a outra face da sociedade dos super-ricos. Por isso querem meter a debate sociedades inexistentes e se recusam a debater a existente. Façamos esse debate.