Fórum Socialismo: Capitalismo e Saúde Mental

08 de setembro 2023 - 11:00

No fim de semana de debates de 8 a 10 de setembro em Viseu, Moisés Ferreira apresentará o painel "O que é que o capitalismo tem a ver com saúde mental?".

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Foto de Paulete Matos.

A poucos dias da realização do Fórum Socialismo 2023 - programa aqui - o Esquerda.net publica alguns resumos das sessões que terão lugar em Viseu de 8 a 10 de setembro.


Fala-se cada vez mais de saúde mental. Ainda bem. Esse é o caminho para combater o estigma que durante séculos perseguiu, enclausurou e excluiu. Preocupa, no entanto, a forma como se fala. As narrativas tendem a ser desenraizadas do contexto social, desinteressadas das causas e não raras vezes retratam a experiência de doença mental como uma jornada individual onde a superação, conseguida através de terapias diretivas, prova a possibilidade de resiliência, adaptação e sobrevivência.

É por tudo isto que é urgente falar da relação entre saúde/doença mental e capitalismo. Porque há causas para o sofrimento, porque as doenças têm etiologia, porque as vítimas de um sistema de exploração e precarização não podem ser atomizadas, responsabilizadas, deixadas sozinhas e por vezes abandonadas. Acima de tudo, porque se aceitarmos uma narrativa individualista sobre o sofrimento, por vezes roçando o essencialismo, corremos o risco de esquecer que para garantir a felicidade e o bem-estar é, acima de tudo, necessário modificar o contexto social e cultural em que vivemos.

Exploraremos três formas de relação entre capitalismo e saúde mental: primeiro, as condições de vida e de trabalho, patogénicas, que provocam sofrimento; segundo, a narrativa liberal que desloca o conflito para dentro do individuo e que foi absorvida pela prática psicológica e pela política de saúde; terceiro, a produção de narrativas para que os indivíduos internalizem a culpa, se responsabilizem pelo seu mal-estar e virem a sua agressividade contra si mesmos.

O capitalismo causa sofrimento e o sofrimento é útil ao capitalismo

Comecemos por aquilo que apelidámos de condições de vida e de trabalho patogénicos. O capitalismo, sistema que se rege pela compulsão para a reprodução, acumulação e concentração de capital, necessita do desemprego, ora como mecanismo para fazer face às suas crises cíclicas, ora como mecanismo para manter pressão sobre os salários dos restantes trabalhadores. De igual forma, para uma cada vez maior mais-valia, necessita de impor a precariedade e a desregulação das relações laborais. Nem o desemprego nem a precariedade (muito menos a privação financeira que daí advém) são inócuas do ponto de vista psicológico. Acresce que, como veremos, o sofrimento do trabalhador não é apenas dano colateral das condições de trabalho, ele serve para aumentar a produtividade e a capacidade de extração de mais-valia.

No início dos anos 30 do século passado (não por acaso no auge das consequências da grande crise capitalista de 1929) um grupo de investigadores deslocaram-se a Marienthal, uma pequena vila a cerca de uma hora de Viena. O objetivo era estudar os impactos do desemprego na comunidade e nos seus indivíduos. A escolha desta vila era óbvia: com a crise económica a fábrica fechou e quase todas as famílias (cerca de 500) ficaram com pelo menos um dos seus elementos no desemprego.

As consequências deste desemprego de massas eram quase palpáveis: apesar de a maioria dos habitantes ter agora mais tempo livre a sua atividade diminuiu; verificou-se uma destruturação do tempo, com os desempregados a terem mais dificuldade em cumprir horários e em organizar o seu dia; as próprias necessidades e expectativas, assim como as relações sociais e, mais tarde, a identidade dos habitantes, acabaram por ser afetadas e foram revistas em baixa; as relações sociais diminuíram e direcionaram-se para a família nuclear, movimento com um verdadeiro viés de género.

Marienthal teve o mérito de ser a primeira grande investigação sobre os impactos sociopsicológicos do desemprego. Muitas outras investigações se seguiram e confirmaram essa relação entre emprego/desemprego e saúde/doença mental. Apenas dois exemplos:

  • Uma meta-análise a 104 estudos publicados entre 1985 e 2002 concluiu que os trabalhadores desempregados revelam uma menor saúde mental, uma menor satisfação com a vida e uma menor saúde física subjetiva. Longitudinalmente mostram uma significativa quebra na saúde mental após a perda de emprego e, inversamente, uma melhoria significativa na saúde mental após o reemprego;

  • Outra meta-análise, esta a partir de 324 estudos, revelou que o número de desempregados a necessitar de tratamento psicológico ou médico é mais do dobro do que o registado na população geral. Assim, para uma prevalência de 16% de doença psicológica na população geral, estimou-se uma prevalência de 34% nos desempregados.

Como explicar esse impacto do desemprego na saúde mental? Podemos fazê-lo, pelo menos, de duas formas: 1) sendo o trabalho central na sociedade, ser-se excluído do trabalho é também ser-se excluído de várias funções que ele preenche, como a estruturação do tempo, o incentivo à atividade, o desenvolvimento de laços sociais, a partilha de objetivos, estatuto social e identidade; 2) ser excluído do emprego é ser excluído de um salário e o salário tem, ele próprio, funções psicológicas. A capacidade de agência, de traçar e concretizar objetivos e projetos dependem da possibilidade financeira.

Mas não é só da ausência de emprego que advêm consequências para o bem-estar psicológico e para a saúde mental. É também da ausência de qualidade do emprego, ou seja, da precariedade. Mais uma vez, e como no caso do desemprego, a evidência é extensa e consistente. Para deixar alguns exemplos:

  • Uma revisão de 54 publicações científicas concluiu pela existência de uma correlação negativa entre precariedade e saúde mental, esta última dimensão aferida a partir de sintomas de depressão, ansiedade, exaustão emocional, perturbações psiquiátricas minor, depressão major, entre outras variáveis;

  • Outra revisão, com 19 estudos longitudinais, concluiu que a insegurança no trabalho aumenta o risco sobre a saúde mental para 32%-48% numa população com um risco base de 5-30%. Quem sente insegurança no trabalho tem 1,61 vezes mais probabilidade de relatar sintomas depressivos, 1,65 vezes mais probabilidade de manifestar tensão psicológica e 1,77 vezes mais probabilidade de desenvolver ansiedade.

Se é verdade que situações como estas – desemprego, precariedade – causam pressão, stress e sofrimento, não é menos verdade que esse sofrimento não é uma mera colateralidade do capitalismo. Isto é, ele não é um mero subproduto da exploração; ele faz parte da intensificação da exploração.

Quem notou esta utilidade do sofrimento para o capitalismo foi Christophe Dejours a partir da experiência de trabalho de trabalhadoras de uma central telefónica. A frustração pela falta de autonomia, a tensão por causa do conflito com os clientes e pelo controlo apertado feito pelos superiores, etc., levam as telefonistas a virar a agressividade contra si, reforçando a autodisciplina e intensificando o ritmo de trabalho. Noutros casos, por exemplo, de operários da construção civil, notou o desenvolvimento de estratégias para lidar com o perigo e com a ansiedade perante a possibilidade de acidente grave. Entre elas estão os discursos de virilidade que valorizam a coragem, o desenvolvimento de jogos perigosos, entre outros. No fundo, perante a ansiedade desenvolvem-se comportamentos que permitem ser produtivos em situações de perigo. Dejours conclui: o que a organização do trabalho explora é também as estratégias de adaptação ao sofrimento.

Para que o capitalismo triunfe é preciso que controle a forma de pensar e de sentir

O que aqui se defende é que o capitalismo não é apenas um sistema económico. Para ser hegemónico e dominante ele precisa de controlar a subjetividade. Impõe-nos a forma como devemos interpretar, viver, sentir e pensar, nomeadamente o sofrimento, para impor a forma como nos devemos comportar. Nas palavras de Thatcher: “a economia é o método; o objetivo é mudar o coração e a alma”.

A partir daqui, tal como o desemprego não é culpa do mercado mas sim uma consequência da falha moral do desempregado (que deve ser incompetente, preguiçoso ou subsídio-dependente), também o sofrimento psicológico não será culpa das condições de trabalho ou das desigualdades sociais, mas sim da dificuldade de adaptação do trabalhador, da inexistência de competências adequadas ou da existência de traços psicológicos individuais que o tornam mais propenso à depressão, à ansiedade, etc.

A esta deriva pela reinterpretação da nossa vivência e pela culpabilização do indivíduo não ficaram imunes nem a prática da psicologia (e outras profissões psi) nem a política de saúde.

Os manuais de diagnóstico foram abandonando o debate sobre as causas da doença, substituindo a etiologia por checkboxes de sintomas; a psicologia tendeu a centrar-se no indivíduo, naturalizando ou essencializando patologias, a política de saúde resumiu-se à alocação de recursos que consertam e reenviam o indivíduo para o mesmo contexto que o fez adoecer. O conflito entre o indivíduo e o exterior, entre si e as forças externas exercidas sobre si, foi transferido para um conflito interno.

É interessante notar que da mesma forma que o capitalismo transfere para entidades supranacionais e não controladas democraticamente (BCE, FMI, etc.) a aplicação do programa económico, com o objetivo de evitar o debate em torno de opções de política económica, também no que toca ao sofrimento psicológico se tenta eliminar o conflito com os determinantes socioeconómicos, optando-se por transferir esse conflito para dentro do indivíduo. O objetivo é nunca se questionar o modelo económico, nunca colocar em causa a arquitetura capitalista.

Absorvendo esta narrativa, a prática profissional torna-se acrítica das condições de vida, o foco da investigação estreita-se, o mal-estar resolve-se com competências de adaptação do indivíduo ao trabalho, mas nunca com a modificação das situações de trabalho que fazem adoecer. Os profissionais psi tornam-se muitas vezes num misto de engenheiros do comportamento e mecânicos do indivíduo: adaptam, reconfiguram e consertam a mão-de-obra que depois é devolvida ao mercado para continuar a operar. As políticas de saúde mental reduzem-se, muitas vezes, à exigência de mais destes profissionais, mas não refletem nem sobre o que deve ser o seu papel, nem sobre a necessidade de transformar o meio.

Sobre os filósofos Marx escreveu que se limitavam a interpretar o mundo de maneiras diferentes quando a questão era transformá-lo. O mesmo podemos dizer sobre os profissionais de saúde mental (e sobre as políticas de saúde mental): têm apenas olhado para os comportamentos individuais quando o que é preciso é transformar o que no mundo produz esses comportamentos. Essa limitação de atuação, já vimos, não acontece por acaso: acontece porque o capitalismo quer interiorizar o conflito, fazer com que o mal-estar seja culpa do indivíduo, responsabilizar sempre a vítima e nunca o mercado.

Melhor do que culpar a vítima só mesmo a vítima culpar-se a si própria

No início deste texto dizia-se que iriamos explorar três formas de relação entre capitalismo e saúde mental. Esta é a terceira delas: a forma como o capitalismo produz narrativas para que os indivíduos internalizem a culpa, se responsabilizem pelo seu mal-estar e virem a sua agressividade contra si mesmos.

É sabido que quando as consequências do mercado se fazem sentir a nível macro, os defensores do capitalismo correm a culpar o Estado: ora é gordo demais e consome recursos, ora é guloso demais e cobra impostos, ora é burocrático e não deixa a livre iniciativa florescer, ora é generoso demais e não obriga os desempregados a trabalhar por uma ninharia, etc. O mesmo acontece a um nível mais micro. Quando o mercado espalha o sofrimento entre os indivíduos, os defensores do capitalismo, claro está, culpam esses mesmos indivíduos. Sofre porque não se consegue adaptar às exigências, porque não tem resiliência, porque não investiu na reciclagem das suas competências, porque tem uma queda para a depressão… Ou seja, sofre por culpa dele. Porque na era do capital humano esqueceu-se de que deve ser mais capital do que humano.

Para que esta culpabilização se torne eficaz é preciso que se transforme numa auto-culpabilização. Isto é, que seja a própria vítima do capitalismo a internalizar a culpa pelo seu sofrimento. Dessa forma, a agressividade e o conflito são virados contra si mesmos e o mercado, incólume, continuará a sua função de exploração e de produção de desigualdade.

A forma como o conceito de neurodiversidade está a ser mobilizado como identidade em situações de sofrimento psicológico cumpre os objetivos de responsabilização do indivíduo e de desresponsabilização do mercado. Para além de extravasar um conceito inicial que se debruçava sobre a estrutura neuronal, essa tendência apresenta, pelo menos, três problemas: 1) essencializa o sofrimento e desconecta o indivíduo das suas condições de vida; 2) desloca a questão para um confronto do indivíduo consigo mesmo; 3) impede transformações económicas e sociais potenciadores do bem-estar e da saúde.

Em vez de emancipar e desestigmatizar, a assunção do sofrimento como identidade fecha o indivíduo sobre si e torna-o culpado único da sua situação. Paradoxalmente remete o assunto para a esfera do privado e desempodera a pessoa em sofrimento. Ao indivíduo restará resignar-se ou lutar contra si mesmo.

Nega-se tudo o que já vimos que são factos: que o desemprego, a organização de trabalho, as condições de vida e as desigualdades sociais podem produzir sofrimento. A partir da identidade neurodivergente, o sofrimento é essência da pessoa e tem até possível explicação em substrato neurológico, logo, para quê transformar o mundo exterior?

Para terminar…

Conseguir um mundo de bem-estar, psicológico e físico, passa por transformar as condições de vida, de trabalho e de lazer. O capitalismo causa sofrimento mental nas suas formas de exploração e absorver as suas narrativas de individualização e essencialização apenas perpetua essa exploração. É preciso, por isso, combater as narrativas de auto-culpabilização que isolam a saúde mental do mundo exterior. Falar de saúde mental é essencial; não menos essencial é dizer que o baixo salário, a precariedade, a desigualdade, a exploração, o produtivismo à custa do sofrimento, etc., destroem a nossa saúde mental.

Alguma bibliografia:

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