Fome volta a crescer no mundo

15 de outubro 2010 - 15:27

Recessão económica e crise mundial de alimentos fazem com que o número de pessoas sem alimentação básica tenha superado os mil milhões no ano passado. Por Peter Boaz, IPS.

PARTILHAR
Os esforços para combater a desnutrição não tiveram êxitos contundentes. Foto de Filipe Moreira

p { margin-bottom: 0.21cm; }

Washington – O mundo não está “nem perto” de alcançar os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio da Organização das Nações Unidas, segundo o último Índice Global de Fome (IGH), apresentado no dia 11. O estudo pede que sejam redobrados os esforços contra a desnutrição infantil. Atingir o primeiro dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio – reduzir pela metade até 2015 a proporção de pessoas que sofrem fome, em relação aos níveis de 1990 – é algo improvável, indica o estudo. Embora a proporção de desnutridos tenha caído de 20% no período 1990-1992 para 16% em 2004-2006, os últimos acontecimentos mundiais reverteram esse avanço.

A propagada recessão económica e os efeitos persistentes da crise mundial de alimentos entre 2007 e 2008 fizeram com que o número de pessoas sem alimentação básica superasse os mil milhões no ano passado. O IGH, medição multidimensional da fome no mundo, é publicado de forma conjunta pelo Instituto Internacional de Pesquisa de Políticas de Alimentação (IFPRI), com sede em Washington, pela organização beneficente irlandesa Concern Worldwide, e pelo grupo não governamental alemão Welthungerhilfe.

O índice combina três indicadores para avaliar a fome: a proporção de desnutridos na população, a prevalência de menores de cinco anos com deficiência de peso, e a taxa de mortalidade entre estes. Com base nesses números, é elaborada uma pontuação. Dos três componentes da actual pontuação mundial, de 15,1, a deficiência de peso na infância contribui com quase a metade (7,4 pontos). A desnutrição crónica, com atraso de crescimento, afecta cerca de 195 milhões de meninos e meninas com menos de cinco anos no Sul em desenvolvimento, isto é, cerca de uma em cada três crianças. Quase uma em cada quatro (129 milhões) tem deficiência de peso, e uma em cada dez apresenta severa deficiência de peso.

“Para melhorar as suas pontuações, muitos países devem acelerar os seus progressos na redução da má nutrição infantil”, disse Marie Ruel, directora da Divisão de Pobreza Social e Nutrição do IFPRI e co-autora do relatório. Os esforços para combater a desnutrição não tiveram êxitos contundentes. Em 20 anos, a proporção de crianças com deficiência de peso na África subsaariana caiu apenas de 27,2% para 23,6%. As políticas e os programas agora são destinados a meninos e meninas com menos de cinco anos, mas a última evidência no IGH indica que as intervenções mais efectivas exigem maior precisão.

O momento crucial para melhorar a nutrição de uma pessoa situa-se nos mil dias que vão desde a sua concepção até completar dois anos. Depois, os efeitos da má nutrição são praticamente irreversíveis, podendo causar danos para toda a vida, como um limitado desenvolvimentos físico e cognitivo. “A saúde das mulheres, especialmente das mães, é fundamental para reduzir a desnutrição infantil. As mães que foram mal nutridas quando crianças tendem a dar à luz bebés com deficiência de peso, perpetuando o ciclo de desnutrição”, disse o presidente do Welthungerhilfe, Bärbel Dieckmann. “As intervenções devem estar dirigidas às meninas e às mulheres, especialmente na adolescência, antes de engravidarem”, afirmou.

O relatório também recomenda atender as raízes da desnutrição, como pobreza, desigualdade de género e conflitos bélicos. A pontuação mundial caiu de 19,8 em 1990 para 15,1 neste ano, mas o panorama varia notavelmente em cada país e região. Vinte e nove nações ainda apresentam níveis de fome “extremamente alarmantes” ou “alarmantes”. Todas as nações com níveis de fome “extremamente alarmantes” são da África subsaariana: Burundi, Chade, Eritreia e República Democrática do Congo (RDC). As regiões mais afectadas são Ásia meridional e África subsaariana, com pontuações de 22,9 e 21,7, respectivamente.

Na Ásia meridional, o baixo nível nutricional, educacional e social das mães é um dos principais factores da alta prevalência de crianças menores de cinco anos com deficiência de peso. A ineficácia dos governos, os conflitos bélicos, a instabilidade política e as altas taxas de sida são os principais factores da alta mortalidade e desnutrição na África subsaariana, diz o estudo. Entretanto, todas as regiões apresentaram melhorias desde 1990. As pontuações dos últimos 20 anos caíram 14% na África subsaariana, cerca de 25% na Ásia meridional e 33% no Oriente Médio e na África do Norte.

Parece haver uma relação entre o desempenho económico e os níveis de fome. “Países com altos níveis de produto interno bruto por habitante (importante medida de desempenho económico) tendem a apresentar baixas pontuações de IGH”, diz o relatório. “E países com baixos níveis de PIB/habitante tendem a apresentar altas pontuações de IGH”. Entretanto, a relação nem sempre é clara, já que os conflitos bélicos, as doenças, a desigualdade, a má governança e a discriminação de género podem afectar negativamente os benefícios.

Alguns países conseguiram grandes avanços nas suas notas, reduzindo-as 13 pontos ou mais, como Angola, Etiópia, Gana, Moçambique, Nicarágua e Vietname. Contudo, nove países, todos subsaarianos excepto a Coreia do Norte, aumentaram a sua pontuação. O caso mais preocupante é da RDC. O IGH desta nação, açoitada por conflitos e instabilidade política, aumentou 65% desde 1990. Três quartos da população estão desnutridos. Em situação semelhante encontram-se Burundi, Comores, Guiné-Bissau e Libéria, que também aumentaram suas pontuações.

13/10/2010