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É “uma coincidência que cai mal”: num artigo da sua edição de quarta-feira, 9 de Março, o Le Canard Enchaîné fala da existência de um relatório positivo do Fundo Monetário Internacional (FMI) sobre a situação económica da Líbia, publicado no dia 15 de Fevereiro no site da instituição, seis dias após o início dos motins em Benghazi.
Um documento “devidamente carregado de dados criptografados e estatísticas”, mas sobretudo “surreal”, segundo o semanário satírico, porque “continua a felicitar o coronel Khadafi e o seu governo pela qualidade da sua gestão e do seu orçamento e pelas reformas já realizadas, nomeadamente através dos ganhos resultantes dos preços do petróleo. E, a propósito do regime, apenas profere um conselho (“promover o emprego dos jovens”) e uma única reprovação (“não privatizar rapidamente os bancos e o mercado de capitais local”).
Essa questão já tinha sido vista no estrangeiro. No dia 3 de Março, o blog The Economic Populist consagrava um post a este “erro embaraçoso” e citava relatórios positivos do FMI sobre a Tunísia e o Egipto, antes das revoluções nestes países, e o apoio substancial dado no passado a outras ditaduras. Poucos dias depois, o mesmo blog referia os propósitos de um quadro do FMI, Ahmed Massof, afirmando numa rádio americana que o FMI não tem que dizer a um país como deve ser governado, mas que a “sustentabilidade” dos seus projectos dependia, em grande parte, de como os lucros fossem distribuídos pela população.
Em finais de Fevereiro, também o site Reuters Breakingviews dedicava uma crónica a esta matéria e observava ironicamente que “aparentemente a missão do Fundo em Tripoli se tinha esquecido de verificar se a agenda de reformas 'ambiciosas' se baseava de alguma forma no apoio popular.”
Para além do próprio funcionamento do FMI, este caso teve, naturalmente, uma particular ressonância em França, claramente resumida no artigo do Canard Enchaîné:
“As suas conclusões foram encaminhados para as autoridades líbias, depois de resumidas (“sumariadas”) pelo seu director geral, um tal Dominique Strauss-Kahn.”
Em Novembro de 2008, este último tinha estado na Líbia para participar numa conferência sobre a integração económica do Magrebe e tinha-se reunido com Muammar Khadafi. Após esta viagem, destacou as ”reformas ambiciosas dos últimos anos” antes de concluir:
”As nossas conversações convenceram-me de que o programa de reformas na Líbia vai continuar em ritmo acelerado, a fim de alcançar um crescimento ainda maior e melhorar os padrões de vida da população.”
Publicado em 11 de março de 2011 em Mémoire des Luttes
Tradução de Deolinda Peralta para o Esquerda.net