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Feministas russas organizam redes de resistência contra a guerra

Na Rússia, a Resistência Feminista Contra a Guerra opõe-se à invasão de Putin. Leia aqui o seu manifesto.
Imagem de um apelo a que se coloquem flores em São Petersburgo em homenagem aos ucranianos mortos na guerra. Este 8 de março, as feminista russas estão a apelar à realização de marchas e a que se coloquem flores em lugares públicos em homenagem às vítimas.
Imagem de um apelo a que se coloquem flores em São Petersburgo em homenagem aos ucranianos mortos na guerra. Este 8 de março, as feminista russas estão a apelar à realização de marchas e a que se coloquem flores em lugares públicos em homenagem às vítimas.

As feministas russas organizaram redes de resistência contra a guerra, formadas por células autónomas e auto-organizadas. Dada a repressão que se verifica contra ativistas que se opõem ao ataque à Ucrânia, asseguram ter escolhido esta forma de coordenação por motivos de segurança. Até ao momento contabilizam meia centena de grupos.

O seu canal de comunicação, que serve também para informar para fora, é uma página de Internet ligada ao grupo de Telegram Resistência Feminista contra a Guerra. A sua primeira publicação tem a data de 25 de fevereiro e consiste num manifesto em que condenam a intervenção militar na Ucrânia e apelam a que as feministas se manifestem contra a guerra.

Diz assim:

No dia 24 de fevereiro, às 5:30 da manhã, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, anunciou o início de uma “operação especial” no território da Ucrânia para “desnazificar” e “desmilitarizar” este estado soberano.

Durante vários meses as tropas russas estavam a deslocar-se para a fronteira com a Ucrânia. Durante todo este tempo, o governo russo negava qualquer possibilidade de um ataque militar. Agora vemos que tudo isso era mentira.

A Rússia declarou guerra ao país vizinho, privando-o do direito à auto-determinação e a uma vida pacífica e livre. Não é a primeira vez: sabemos que a guerra no Donbass iniciada pelo governo da Federação Russa dura já há oito anos, tendo por consequência a anexação ilegal da Crimeia.

Acreditamos que as vidas das pessoas de Lugansk e Donetsk nunca interessaram ao presidente Putin e o reconhecimento destes territórios como repúblicas independentes depois destes oito anos foi necessário para criar um pretexto e invadir a Ucrânia sob o lema da libertação.

Como cidadãs russas e feministas, condenamos esta guerra. O feminismo como força política não apoia guerras, sobretudo a ocupação militar. O movimento feminista na Rússia luta pelos direitos dos grupos oprimidos e o desenvolvimento de uma sociedade mais justa e igualitária, onde a violência e os conflitos armados não têm cabimento.

A guerra é violência, pobreza, deslocados forçados, vidas despedaçadas, insegurança e ausência de futuro. A guerra é totalmente incompatível com os valores e princípios do movimento feminista. A guerra agrava a desigualdade de género e faz com que os sucessos na defesa dos direitos humanos das últimas décadas retrocedam.

A guerra implica não só violência física mas também sexual: como nos mostra a história, o risco de ser violada aumenta drasticamente durante a guerra para qualquer mulher. Por estas e muitas outras razões, as feministas russas consideram muito necessário posicionar-se contra esta guerra que fio iniciada pelo governo do nosso país.

Esta guerra, como demonstrou a última declaração de Putin, foi organizada com o objetivo de promover os chamados “valores tradicionais”, que a Rússia, como “país missionário” se sente obrigada a levar ao mundo, utilizando violência contra quem não estiver de acordo.

Estes “valores tradicionais”, claro, suportam o sistema patriarcal existente: mantêm a desigualdade de género e a exploração das mulhreres, condenam a represálias todas as pessoas cuja identidade e pensamento não esteja de acordo com a visão estreita do regime patriarcal. Não se pode justificar a ocupação do país vizinho com esta falácia de “norma e libertação”. Assim, as feministas de toda a Rússia devem opor-se a esta guerra.

O movimento feminista russo é hoje uma das forças políticas mais ativas na Rússia. O governo de Putin já há muito que não nos considerava uma ameaça, por isso, até agora, o movimento não tinha sido afetado pelas represálias estatais tanto como outros grupos políticos.

Hoje em dia, mais de 45 grupos feministas operam por todo o país: desde Kaliningrado e Vladivostok até Rostov do Don e Ulan-Ude.

Apelamos às feministas russas, assim como às de todo o mundo para que se juntem à Resistência Feminista Anti-militarista para lutarmos juntas contra a guerra desencadeada por Vladimir Putin e o seu governo.

Somos muitas e juntas podemos consegui-lo: durante os últimos 10 anos o movimento feminista conseguiu força mediática e cultural, e hora de a converter em força política. Somos oposição à guerra, ao patriarcado, ao autoritarismo e ao militarismo. Somos futuro! A vitória será nossa!

Petição às feministas

Pedimos a todas as feministas:

  • Manifestem-se e iniciem campanhas contra a Guerra na Ucrânia e o regime de Putin. Sintam-se livres para usar o símbolo do movimento Resistência Feminista Anti-militarista nos vossos materiais e publicações, assim como ass hashtags #FeministAntiWarResistance e #FeministsAgainstWar.

  • Distribuam informação sobre a guerra na Ucrânia e a agressão de Putin. É muito importante que o mundo inteiro apoie a Ucrânia nestes momentos e se negue a ajudar o regime de Putin.

  • Partilhem este manifesto. É necesrio mostrar que nós, feministas, estamos contra esta guerra e qualquer tipo de guerra. Também é fundamental demonstrar que ainda há ativistas na Rússia que se opõem ao regime de Putin. Agora mesmo estamos em perigo de perseguição por parte do Estado e necessitamos do vosso apoio.

FeministAntiWarResistance, 28 de fevereiro de 2022.

Artigo publicado originalmente na página Andra.eus. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.

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