Habitação

Falta “coragem e bom senso”: Pureza e Carolina Serrão denunciam alienação de imóveis do Estado

07 de abril 2026 - 15:16

O coordenador bloquista e a vereadora do partido na Câmara de Lisboa mostraram alguns dos edifícios vendidos pelo Estado no início do ano, numa altura em que a cidade enfrenta uma grave crise de habitação.

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José Manuel Pureza, Carolina Serrão e Ricardo Moreira
José Manuel Pureza, Carolina Serrão e Ricardo Moreira na visita aos edifícios vendidos peo Estado. Foto Esquerda.net

Entre as pingas da chuva e os raios de sol, José Manuel Pureza e Carolina Serrão aguardam em frente ao número 72 da Avenida Visconde de Valmor, em Lisboa. O antigo edifício da DGAE vai ser alienado e o Estado vai arrecadar milhões.

Em outubro de 2025, o Governo determinou a alienação de 16 imóveis do Estado e da ESTAMO. Na altura, o governo defendeu que seria para financiar políticas públicas de habitação.  Só que não há despesa consignada no Estado, pelo que se vai vender para o orçamento de estado e não há nenhuma garantia que a verba reverte para políticas de habitação.

No início de 2026, teve lugar o primeiro conjunto de alienações, correspondente ao primeiro lote de cinco imóveis a vender em hasta pública. Estes imóveis incluíam dois edifícios devolutos de serviços nas Avenidas Novas, em Lisboa, e três imóveis no distrito do Porto, entre terrenos e prédios rústicos.

Foram levados a leilão no dia 31 de março de 2026 a especuladores imobiliários, com um valor base total de 17,9 milhões de euros e com a expectativa de arrecadar pelo menos 18 milhões. O resultado superou as expectativas do Governo. Foram arrecadados cerca de 21 milhões de euros, quase inteiramente obtidos através da venda de dois imóveis situados no centro de Lisboa.

O primeiro, o edifício da Avenida Visconde de Valmor, onde o coordenador do Bloco de Esquerda e a vereadora eleita se encontra, é um prédio de serviços com dez andares anteriormente ocupado por organismos públicos, foi arrematado por 15.726.900 euros, cerca de 2,7 milhões acima do valor base estabelecido.

edificio da Av. Visconde Valmor
Edificio da Av. Visconde de Valmor, em Lisboa vendido pelo Estado a privados. Foto Esquerda.net

"Manifestamente, o aproveitamento de edifícios públicos de boa qualidade, como é este caso, para habitação a preços acessíveis era uma atitude lúcida e corajosa, porque o mercado é selvagem, só por isso. Mas, na verdade é a coragem do bom senso", defendeu José Manuel Pureza.

Pureza realçou que "na venda destes imóveis estava anunciado, em termos retóricos, que a verba arrecadada seria para financiar política de habitação acessível".

"E, na verdade, primeiro, não há qualquer verba consignada, isto é vendido para o Orçamento de Estado e, ao mesmo tempo, estes edifícios têm uma tipologia que permitiria e desejavelmente faria com que houvesse conversão imediata em edifícios para habitação", sustentou.

Depois da visita àquele edifício, a comitiva bloquista parte para a Rua Filipe Folque, onde um prédio com seis andares suscitou intensa concorrência entre investidores privados e acabou vendido por 5.213.754 euros, igualmente acima do valor inicial previsto.

Ambos os edifícios, pelas suas características físicas e pela sua volumetria, eram altamente adequados a reconversão imediata para uso habitacional, evitando o desvio destes ativos para o mercado especulativo de investimento imobiliário.

O edifício da Avenida Visconde de Valmor tinha capacidade para ser reconvertido em cerca de 32 fogos, distribuídos de forma equilibrada para responder às necessidades reais da cidade: 16 T2, 8 T3 e 8 T1. Já o edifício da Rua Filipe Folque possuía viabilidade para acolher cerca de 10 fogos.

Carolina Serrão, refutou o argumento da autarquia governada por Carlos Moedas (PSD) de que não tinha o valor necessário de 15 milhões para adquirir o edifício, afirmando que estando em causa duas entidades públicas, tal poderia ter sido negociado.

"Podiam ter conversado entre si e ter feito o melhor negócio para o interesse público. E quando falamos em interesse público é o interesse das pessoas. São as pessoas que vivem aqui em Lisboa ou que viviam e que foram expulsas", criticou.

Lisboa perdeu a oportunidade de criar 42 fogos públicos, localizados em áreas centrais, servidas por transportes, comércio, serviços e equipamentos públicos. Considerando uma média de 2,3 a 2,5 pessoas por agregado familiar, estes 42 fogos poderiam proporcionar habitação para mais de 100 pessoas.