Reino Unido

A extrema-direita à espreita nas eleições de 4 de julho

25 de junho 2024 - 15:36

Com os conservadores em apuros, Nigel Farage, depois do sucesso no Brexit, pretende voltar a afirmar-se na política britânica e ser eleito pela primeira vez para o parlamento. Os candidatos do seu novo partido são um desfile de horrores nas redes sociais. O Reform UK culpa a empresa que contratou para verificar antecedentes.

PARTILHAR
Nigel Farage num comício.
Nigel Farage num comício. Foto de Gage Skidmore/Flickr.

Nigel Farage pode vir a ser um dos vencedores da noite eleitoral, apesar das dificuldades inerentes a um sistema eleitoral maioritário uninominal que distorce a representativa porque só os candidatos mais votados em cada círculo serão eleitos. Por isso, aliás, tendo-se apresentado por oito vezes a eleições legislativas, nunca conseguiu ser eleito deputado nacional mas obteve a eleição para euro-deputado em 1999, 2004, 2009 e 2014.

Nesta eleições, começou por dizer que não se candidataria porque estava nos EUA a “ajudar Trump a ser eleito”, depois deu o dito por não dito e escolheu um dos círculos mais seguros para a eleição, Clacton. Pelo caminho, tirou o tapete ao líder de circunstância do partido, o empresário Richard Tice, para assumir o seu papel.

A sua vida profissional passou pela bolsa e pela banca e a sua vida política começou nos conservadores até 1992. Mas é pelo seu percurso na extrema-direita que é conhecido. Primeiro com o UKIP, o “Partido da Independência do Reino Unido”, que criou em 1993, depois como fundador do Partido do Brexit, um dos principais impulsionadores da saída do Reino Unido da União Europeia, e agora do Reform UK.

Ganho o referendo da saída em 2016, e desbaratados os conservadores pelo caminho sobre a gestão política deste resultado, abandonou o Partido do Brexit à sua sorte (nominalmente continua a existir, aliando-se a grupos fascistas como o BNP) e tratou de se tornar comentador político. Regressou em 2021 com o novo partido aproveitando a pandemia para discursar contra os confinamentos. Ainda alimentando-se da crise da direita tradicional, agora tanto se pode manter “discretamente” num terceiro lugar como ultrapassar os conservadores em vários pontos decisivos.

Do seu programa fazem parte ainda “fazer grandes poupanças com os gastos do governo em emissões líquidas zero até 2050”, ou seja atacar a enormemente tímida política ambiental do país.

A última tirada para que falem dele, num comício na tarde desta segunda-feira em Kent, foi lançar a mensagem de que foi o Ocidente que “provocou Putin”, desculpabilizando assim o seu contraparte da extrema-direita russa pela invasão da Ucrânia. Como costume, as suas afirmações não seguem uma linha reta, tendo o ex-comentador televisivo pago pela Russia Today depois vindo a dizer que “nunca defendeu” Putin, figura que, a par de Trump, já elogiou em várias ocasiões.

Aproveitou ainda as críticas que lhe foram feitas por Boris Johnson sobre o tema para o atacar ferozmente como “o pior primeiro-ministro dos tempos modernos” quando há três dias sugeria que era uma figura dos conservadores com a qual poderia vir a trabalhar numa futura solução política.

Na mesma intervenção voltou ao seu tema da “invasão” de jovens de outros países que trariam ao país “terrorismo, cultura de gangues e zonas de guerra”.

A empresa de validação de candidatos que "anda a falhar": racismo e misoginia à solta

No final de maio, o Guardian dava conta de uma investigação da organização Hope Not Hate que concluiu que 110 dos candidatos a deputados se demitiram ou foram demitidos na sequência de terem sido revelados “comentários racistas e ofensivos”. A amplitude do fenómeno colocou em causa o anúncio de que o Reform UK iria concorrer em todo o país.

A versão do partido então foi a de que 80% das trocas ocorreram meramente porque as pessoas em causa estavam “inativas ou incapazes de se empenhar nas eleições de julho”. Mas multiplicavam-se os exemplos dos candidatos a candidatos que foram expostos recorrentemente como “racistas, teóricos da conspiração e extremistas”, afirma Georgie Laming, diretor de campanhas daquela organização.

Depois, Farage culpou uma empresa, a Vetting.com, que contratou para o processo de validação de candidatos com comentários inapropriados ou outras questões que impossibilitassem as candidaturas. A empresa respondeu que esperava que as eleições fossem no outono e que precisava do consentimento dos candidatos para fazer as investigações necessárias.

Ainda assim, muitos candidatos problemáticos permanecem, até pelos padrões da extrema-direita que se quer mostrar respeitável em busca de conquistar o voto conservador. Este domingo, a BBC traz a história de mais oito deles que fizeram “uma vasta gama de comentários ofensivos online sobre mulheres”. Os casos são muitos e alguns muito desagradáveis mas, para citar apenas um dos mais “ideológicos”, Ian Gribbin diz que são os homens que pagam 80% dos impostos para as mulheres” e que “a feminização cultural do Ocidente é um desastre de proporções épicas”, associando as mulheres a neurose e histeria. Para ele, as mulheres são o “género esponja”, tendo sugerido ainda que deviam ser privadas de cuidados médicos até que a diferença de esperança de vida entre os sexos pudesse ser eliminada.

O mesmo já a 10 de junho tinha sido obrigado a pedir desculpas por ter dito que o país teria ficado “bem melhor” se tivesse ido “ter com Hitler e oferecido a sua neutralidade” em vez de combater na II Guerra Mundial, elogiando Putin. Ainda sobre Hitler, o seu colega Jack Aaron escreveu que era um homem “inspirador” que sabia usar a sua personalidade “para inspirar as pessoas a agir”. Acabou por ter de se retratar desse comentário dizendo agora que queria dizer que era tão brilhante quanto horrível, mas também tem comentários sobre o ditador sírio Assad ser “gentil por natureza” e “não um tirano que exerce controlo sobre as pessoas com um punho de ferro”, ou sobre a invasão da Ucrânia ser “legítima”.

A semana passada, o Times tinha noticiado a renúncia à candidatura de Grant StClair-Armstrong que tinha apelado antes ao voto no partido fascista BNP, para além de inúmeros comentários ofensivos numa rede de páginas que mantinha. Ao mesmo tempo saía a notícia de que o candidato Edward Oakenfull tinha feito comentários insultuosos sobre o QI dos africanos e outros islamofóbicos. O diário israelita Haaretz, este domingo, informa que o candidato Ben Aston acusou grupos judaicos de organização de imigração muçulmana para o Reino Unido.