A extrema-direita cativa o eleitorado argentino

20 de agosto 2023 - 14:43

As eleições primárias argentinas causaram um terramoto político. Ao primeiro lugar do libertário Javier Milei soma-se o terceiro lugar do peronismo. A direita radicalizada nunca havia somado tantos votos. Por Pablo Stefanoni e Mariano Schuster.

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Imagem da Nueva Sociedad.

A política argentina sofreu um terramoto político no domingo, 13 de agosto. O candidato libertário de extrema-direita – e um outsider face à política tradicional – Javier Milei conquistou o primeiro lugar, com 30% dos votos; a oposição liberal-conservadora ficou em segundo lugar, com menos votos do que o esperado (28%), e o peronismo, pela primeira vez na história, em terceiro lugar, com 27% dos votos.

As primárias abertas, simultâneas e obrigatórias (PASO) constituem um tipo de eleição sui generis: em tese, servem para que cada força escolha os seus candidatos, mas na prática, quando vota todo o universo eleitoral, são uma pré-primeira volta, que cria o clima para a eleição real que, neste caso, acontecerá no dia 22 de outubro. Por isso, a análise do PASO tem dois níveis: por um lado, quem ganha cada eleição interna, se houver concorrência, e por outro, o que diz a eleição sobre a correlação de forças entre os diferentes partidos e coligações.

Sobre o primeiro, no Juntos pela Mudança (JxC) devemos destacar a vitória da ex-ministra da Segurança Patricia Bullrich sobre o presidente de Câmara de Buenos Aires Horacio Rodríguez Larreta. Uma vitória, em suma, dos “falcões” contra os “pombos” na principal força da oposição; do “tudo ou nada” de Bullrich contra o compromisso gradualista de Rodríguez Larreta. A campanha de Bullrich foi alimentada por todos os ingredientes: tinha, ao mesmo tempo, um estilo folclórico e uma forte ênfase na “mão forte” contra a insegurança – mas também contra o protesto social – . O seu triunfo na eleição interna fez de Bullrich uma candidata com amplas possibilidades de acesso à Casa Rosada. Militante do peronismo revolucionário dos anos 1970, Bullrich voltou-se posteriormente para a extrema-direita, embora mantenha posições “liberais” noutras áreas, que se refletem no seu apoio à descriminalização do aborto e à aprovação do casamento igualitário.

Do ponto de vista das próprias primárias, no espaço de Javier Milei não houve surpresa, pois era o único contendor no seu espaço: La Libertad Avanza. Finalmente, no peronismo, o candidato da “unidade” Sergio Massa, um centrista ultra-pragmático apoiado pela ex-presidente e atual vice-presidente Cristina Fernández de Kirchner, venceu por muito. No entanto, Juan Grabois, um populista de esquerda próximo do Papa Francisco, ganhou o voto de vários kirchneristas de esquerda que estavam relutantes em votar em Massa. Os eleitores de Grabois tendiam a vê-lo como uma espécie de “kirchnerista puro” que recuperou parte da história e do legado do kirchnerismo original, especialmente a sua versão cristã. Uma situação um tanto estranha, na medida em que a própria Cristina Fernández de Kirchner tinha optado pela candidatura do atual Ministro da Economia.

A “chefa” apoiou a nomeação de Massa, após a “queda” da candidatura de Eduardo “Wado” de Pedro, atual ministro do Interior pertencente à La Cámpora, o grupo criado por Máximo Kirchner e o mais importante da estrutura de Cristina Kirchner. Depois de um grupo de governadores ter pediu que o candidato fosse Massa, Fernández de Kirchner deu sinal verde. O compromisso ideológico de Grabois constituía, neste sentido, um “cristinamismo sem Cristina”: um cristinanismo ideológico sem o apoio real da figura a que apelavam ou do líder a que se referiam. Em suma, as únicas primárias dignas desse nome eram as do JxC, e aí venceu a sua versão de direita.

Isto liga-se com a leitura mais geral da eleição: nunca antes a extrema-direita tinha obtido tantos votos na Argentina: entre Milei e Bullrich somaram quase metade do eleitorado. A eleição ficou marcada pela morte de Morena Domínguez, uma menina de 11 anos, no dia 9 de agosto, num assalto violento como tantos outros que marcam o quotidiano do eleitorado da chamada Grande Buenos Aires, e, mais amplamente, por uma crise económica sem fim que se traduz numa inflação de mais de 100% ao ano. Nesse quadro, Bullrich capitalizou a crise da segurança enquanto Milei capitalizou a economia, apostando numa proposta de dolarização que remete à época do peronista neoliberal Carlos Menem (1989-1999) quando o valor do peso estava ligado por lei ao dólar. Nesse quadro, a esquerda que está fora da Unión por la Patria (peronismo e aliados), agrupada numa frente trotskista, também sofreu um forte revés.

Houve nesta eleição algo como o “retorno do reprimido” de 2001, uma viragem na história política argentina. Embora naqueles dias de saques, protestos massivos e de um presidente – Fernando De la Rúa – que fugiu de helicóptero dos telhados da Casa Rosada, tenham prevalecido os discursos progressistas, as saídas ultraliberais constavam do cardápio e despertaram adesões significativas: não por acaso, Carlos Menem proclamava, nas eleições de 2003, a necessidade de passar da conversibilidade à dolarização total da economia argentina, historicamente marcada pela inflação persistente. O paradoxo de toda esta história é que Bullrich, a ministra mais impopular de De la Rúa na época, renasceu nestas eleições como uma fénix, como uma espécie de salvadora da nação.

Quem mais se conseguiu identificar com o clima “destituinte”, que hoje não tem massas nas ruas mas é feito de muita frustração social, foi Milei. O libertário não só importou a ideologia paleolibertária do americano Murray Rothbard – cujo anarcocapitalismo o leva a defender a compra e venda de órgãos humanos – como também a denúncia da “casta” como eixo de campanha, tomada do partido espanhol de esquerda Podemos. Milei, que recebeu o apoio de Jair Bolsonaro, não se privou de usar canções de rock nacional cantadas anteriormente pela esquerda (como as de La Renga ou Bersuit Vergarabat) e até mesmo o “hino” de 2001: o refrão "Que se vayan todos… que no quede ni uno solo”, que ecoou de forma estrondosa no seu comício de encerramento da campanha.

Mas o libertarianismo de Milei tem outra dimensão, que costuma passar despercebida aos progressistas: a sua ideia de “liberdade” ecoa num mundo popular, de classe média baixa e em risco, em que a exigência de serviços públicos coexiste com formas de anti-estatismo bastante radicais, associadas à economia moral do “empreendedorismo” informal.

O esquema de subsídios à pobreza, e mesmo a chamada “economia popular”, funcionam – de facto, muito bem – como um guarda-chuva protetor em tempos de crise, mas não constroem futuros desejáveis, hoje mais associados ao “esforço individual”. Embora o liberalismo-conservador da década de 1980, especialmente o de Adelina Dalesio de Viola, tentasse construir um thatcherismo popular, o seu partido mostrava-se muito elitista e o seu empreendimento também acabou por ser cooptado pelo menemismo, que conseguiu juntar peronismo e reformas estruturais privatizadoras.

Mas Milei conseguiu resultados surpreendentemente bons em bairros populares, mesmo em áreas peronistas tradicionais como La Matanza e ainda mais nas províncias. De facto, foi primeiro em 16 das 24 províncias e em duas arrasou diretamente, uma das quais é Salta, no norte andino argentino.

Como costuma acontecer com outras direitas radicais atuais, Milei acabou por funcionar como o nome de uma rebelião. De facto, muitos de seus eleitores não querem abolir o Estado, comprar ou vender órgãos ou filhos, dinamitar o Banco Central, nem acabar com a educação ou a saúde públicas. Mas, como se viu nas entrevistas de rua do canal sensacionalista Crónica TV, dizer “Milei”, na boca de jovens e trabalhadores precários, assim como na dos trabalhadores das plataformas, acabou por ser uma espécie de “significante vazio” de um momento da policrise nacional.

Ao contrário do que acredita uma parte do progressismo, Milei não foi um produto do establishment económico ou dos meios de comunicação social: os empresários interessaram-se por ele quando começou a crescer – e sempre foi visto como folclórico e imprevisível – e os meios de comunicação social chamam-no lhes porque dá audiências, ou seja, aproveitam mais a sua popularidade do que contribuíram para a criar, embora obviamente as horas de ecrã acabassem por aumentar a sua performance. Uma exceção é o canal do jornal La Nación, LN+, que funciona como uma espécie de potência reacionária local ao estilo Fox News.

Milei e Bullrich, ao contrário de Rodríguez Larreta e obviamente de Massa, encarnaram um discurso refundacional fortemente anti-progressista. Algo semelhante, mas ideologicamente invertido, aos da “maré rosa” dos anos 2000. Uma arma nas mãos dos eleitores para dinamitar o “sistema”, seja lá o que isso signifique para cada um.

Do lado do peronismo, a estratégia de Cristina Fernández de Kirchner levou a um beco sem saída. A pré-candidatura de “unidade” de Sergio Massa, atual ministro da Economia que tem de lidar com uma inflação anual de mais de 100%, foi para além do mais rejeitada de facto por grande parte da militância, que o via como um “traidor” pelo seu passado recente anti-kirchnerista. Apesar do “clamor operativo” da militância, Cristina não só não cedeu como, após apoiar brevemente uma candidatura mal-sucedida do seu próprio espaço, a do ministro do Interior Eduardo "Wado" de Pedro, decidiu apoiar Massa, uma figura que muitos kirchneristas consideram “de direita”. Embora as listas para o Congresso estejam repletas de fiéis, entre os kirchneristas mais “crentes” reina o desespero.

É a terceira vez (2015, 2019, 2023) que, apesar de Cristina ser uma das políticas mais importantes do país, o kirchnerismo não tem um candidato próprio à Presidência. Embora em 2019 ela tenha participado da fórmula como vice-presidente, o kirchnerismo sempre falou no governo como se fosse algo alheio (embora este setor tenha controlado grande parte do orçamento nacional sob a gestão de Alberto Fernández, hoje desprezado pela ex-presidenta). Os alarmes já estavam a soar na chamada Grande Buenos Aires, onde o peronismo tem os seus principais redutos. Lá, duas eleições estão a ser disputadas paralelamente: o voto peronista nestas localidades populosas devia servir para promover o candidato presidencial, Sergio Massa, mas também para garantir a reeleição do governador Axel Kicillof, um homem de Cristina Fernández de Kirchner. O problema é que, como apontou um estratega do governador, o desânimo reina entre as bases potenciais do peronismo.

Por diversas razões, no peronismo vive-se um clima semelhante ao de 1983, quando a derrota deu lugar à renovação. Mas o que significa renovação hoje? Como os diferentes planetas do universo peronista – governadores, presidentes , sindicatos, grupos – se poderão realinhar? Que papel terá Fernández de Kirchner, atingida por este resultado?

Numa recente entrevista à Nueva Sociedad, o jornalista Martín Rodríguez destacou que o kirchnerismo é, antes de mais, uma “estrutura de sentimento”. Como apontámos noutro artigo, esta “estrutura de sentimento” não só interpelava boa parte do peronismo, como também atraía resquícios de diferentes culturas políticas de esquerda: comunistas, socialistas, populistas de esquerda, autonomistas de 2001, nostálgicos da armada dos anos 70, ativistas de direitos humanos. O seu discurso “anos 70” também conseguiu dar um sentido histórico à derrota política e militar contra a ditadura: todo aquele sofrimento, que incluía uma “geração dizimada”, teria valido a pena. O país estava finalmente a ser refundado.

O Bicentenário, em 2010, selou, como apontou a ensaísta Beatriz Sarlo no seu livro Audácia e Cálculo, a encenação desse novo país “inclusivo” no auge do kirchnerismo. Mas hoje esta estrutura de sentimento está seriamente danificada. Cristina Fernández de Kirchner não consegue explicar, perante os “crentes”, as suas próprias decisões. E estes “crentes”, sem cargos nem aspirações a cargos, são a base não só eleitoral, mas também emocional do seu projeto político. A vice-presidente parece ter ficado presa a uma curiosa mistura de ideologia e pragmatismo. Os diferentes peronismos pareciam neutralizar-se entre si.

O país avança, atónito, rumo às eleições de 22 de outubro. As perguntas são mais do que as respostas: será que Milei conseguirá usar este resultado como uma alavanca para continuar a crescer, ou será que o efeito vertigem de que um “anarcocapitalista” que quer dinamitar o Estado possa chegar à Casa Rosada ativará algum tipo de travão de emergência? Será que a “loucura” de Milei permitirá que Bullrich pareça mais razoável, como aconteceu com Marine Le Pen contra o ultra Éric Zemmour na França? O peronismo saberá mostrar algum reflexo para não cair novamente no terceiro lugar?

Os analistas estão a redefinir os seus GPS.


Pablo Stefanoni é editor-chefe da Nueva Sociedad. Coautor, com Martín Baña, de Tudo o que você precisa saber sobre a Revolução Russa (Paidós, 2017) e autor de A rebelião virou à direita? (Século XXI, 2021).

Mariano Schuster é jornalista, editor da plataforma digital da Nueva Sociedad. Foi editor-chefe das publicações socialistas argentinas La Vanguardia e Nueva Revista Socialista. Colabora com meios de comunicação social como o Letras Libres e o Le Monde diplomatique, entre outros. É co-autor de Mario Bunge e Carlos Gabetta (comps.) de O socialismo tem futuro? (Eudeba, Buenos Aires, 2013).

Texto publicado originalmente na Nueva Sociedad. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.