Eunice Muñoz (1928-2022)

15 de abril 2022 - 12:07

Morreu hoje Eunice Muñoz, com 93 anos. A atriz gostava de ser lembrada como “uma mulher simples”, a sua única queixa era o “corte medonho” da ditadura fascista, lamentando: “esse repertório proibido, fez muita falta”. “Atriz extraordinária, mulher doce”, destaca Catarina Martins.

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Eunice Muñoz (1928-2022), em 21 de setembro de 2021 – Foto de André Kosters/Lusa
Eunice Muñoz (1928-2022), em 21 de setembro de 2021 – Foto de André Kosters/Lusa

Morreu hoje a atriz Eunice Muñoz no Hospital de Santa Cruz em Lisboa. Nasceu na Amareleja, no distrito de Beja, em 1928, e era filha e neta de atores de teatro, dos espanhóis Muñoz, e de artistas de circo, dos sicilianos Cardinalli. Em novembro passado completara 80 anos de carreira.

A estreia de Eunice Muñoz foi no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, em 28 de novembro de 1941, na peça “Vendaval” de Virgínia Vitorino, na companhia Rey Colaço/Robles Monteiro, refere a Lusa.

Segundo a base de dados do Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Eunice Muñoz trabalhou em cerca de uma centena de companhias e no cinema e na televisão, estando o seu nome ligado a mais de oitenta produções de ficção, entre filmes, telenovelas e programas de comédia.

Em setembro de 2021, disse à Lusa “Sou uma pessoa como outra qualquer” e gostava de ser lembrada como uma “mulher simples”, embora não pudesse “deixar de ser atriz”.

As peças que lhe “foram roubadas”

A Lusa refere também que de uma vida inteira no teatro, o seu “grande amor, Eunice Muñoz só tinha uma queixa, da ditadura do Estado Novo e das peças que gostava de ter e que lhe “foram roubadas” pela censura.

“Eu e toda a minha geração apanhámos efetivamente esse corte medonho, como quem tira um bocado duma perna", disse Eunice Muñoz à agência Lusa em novembro de 2011, referindo-se à ditadura. "Esse repertório proibido, fez muita falta", disse, exemplificando com “Mãe Coragem”, de Bertolt Brecht, que só interpretou em 1986, no Teatro Aberto, dirigida por João Lourenço, mas também com a "Cantora Careca" de Ionesco, que não consta do seu percurso.

O teatro prevaleceu

Estreou-se no cinema em 1946, em “Camões”, de Leitão de Barros, que lhe valeu o prémio de melhor atriz. Na altura, entrou também em "Um Homem do Ribatejo", de Henrique de Campos, que também a dirigiria em “Ribatejo” (1950) e “Cantiga da rua” (1955).

Na sua carreira, porém, é o teatro que prevalece.

No final dos anos de 1940, entrou em peças como “Outono em flor”, de Júlio Dantas (1948), e “Espada de Fogo”, de Carlos Selvagem (1949). Em 1950 e 1951, protagonizou as comédias “Ninotchka”, de Melchior Lengyel, ao lado de Igrejas Caeiro, e “A loja da esquina”, de Edward Percy, dois textos celebrizados no cinema por Ernst Lubitsch.

Com Carlos Avilez foi “Fedra”, de Jean Racine (1967). Em Cascais, trabalhou também com o encenador argentino Victor Garcia, com quem fez "As Criadas” (1972), de Jean Genet. Nos anos de 1960, fez também comédia na Companhia de Teatro Alegre, no Parque Mayer, com António Silva e Henrique Santana.

Em 1971, a poucas horas da estreia de “A mãe”, de Stanislaw Wiktiewicz, sob a direção de Luiz Francisco Rebello, no Teatro S. Luiz, a censura proibiu o espetáculo.

Em 1986, fez “Mãe coragem e os seus filhos”, encenada por João Lourenço, no Teatro Aberto, uma peça que viria a ser posta em filme.

Na comemoração dos 70 anos de palco, em entrevista à agência Lusa, salientou: “A minha luta é melhorar, melhorar, melhorar. A minha luta é essa mesmo. E nunca fico contente, fico sempre de pé atrás, porque, de uma maneira geral, não gosto de me ver”.

“Atriz extraordinária, mulher doce"

“Atriz extraordinária, mulher doce. Tocou todas as gerações ao longo de toda a sua carreira, no teatro como no cinema e na televisão. Eu faço parte da que se apaixonou pela “Mãe Coragem”, escreveu Catarina Martins no twitter:

Uma atriz “extraordinária e inigualável”

Em declarações aos jornalistas, à margem da conferência de imprensa de apresentação do Desobedoc 2022, Catarina Martins afirmou hoje sobre Eunice Muñoz:

“Queria transmitir os meus sentimentos à família e amigos de Eunice Muñoz que foi uma atriz extraordinária e inigualável com uma carreira absolutamente brilhante e que se foi reinventando ao longo de 80 anos”.

Catarina Martins disse que tem a certeza de que não há nenhuma geração em Portugal que não se tenha sentido tocada, nalgum momento, pelo trabalho e pelas personagens da atriz no teatro, na televisão e no cinema e apontou a concluir:

“Os votos que eu faço é que o seu trabalho, a sua carreira e o que nos deixou seja lembrado e seja vivido”.

Eunice Muñoz recebeu diversas condecorações ao longo da sua vida: Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada (1981), grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique (1991), Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique (2011), Grã Cruz da Ordem do Mérito (2018) e a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada (2021). Em 1990, foi-lhe atribuída a Medalha de Mérito Cultural.