EUA/China: resistir à pressão para a guerra interimperialista

04 de junho 2023 - 22:03

Ashley Smith faz o ponto da situação da relação entre as grandes potências e equaciona a questão de como construir pela base uma solidariedade internacionalista contra a rivalidade imperialista.

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Bandeiras dos EUA e da China. Ilustração de Territory of American Canada/Wikimedia Commons.
Bandeiras dos EUA e da China. Ilustração de Territory of American Canada/Wikimedia Commons.

As notícias quotidianas estão cheias de histórias acerca do conflito em espiral entre os EUA e a China sobre tudo: desde o comércio a escaramuças geopolíticas e exercícios militares em formato duelo. Tudo isso converge sobre Taiwan – uma pequena ilha reclamada pela China como província renegada, apoiada pelos EUA, e sede das fábricas mais avançadas de produção de microchips do mundo.

Estas fábricas produzem chips presentes em desde os iPhones aos caças-bombardeiros F-35 de Washington e outras armas de alta tecnologia. Este facto aumenta os riscos de uma disputa há muito latente, pontuada por periódicas “Crises do Estreito de Taiwan”, transformando-a num volátil confronto diplomático, económico e militar.

No Capitólio e nas salas de reuniões, como nota Edward Luce, “o velho Consenso de Washington” de integrar a China foi substituído por um novo de “desintegrar a China”. Joe Biden continuou a grande estratégia de Donald Trump de uma rivalidade entre grandes potências relativamente a Pequim.

O porta-voz da Câmara dos Representantes, Kevin McCarthy, e os Republicanos dissertam sobre uma nova Guerra Fria e lançaram uma Comissão Especial sobre o Partido Comunista Chinês que recentemente sujeitou a CEO do TikTok, Shou Zi Chew, a um interrogatório racista. E empresas como a Apple estão nas fases iniciais de deslocar as suas cadeias de abastecimento para fora da China.

Pequim lançou uma contra-ofensiva contra aquilo que Xi Jinping chama a política de Washington de “contenção, cerco e supressão” da China com o objetivo de restabelecer a sua nação como uma grande potência num mundo multipolar. Como resultado, os dois estados, apesar da sua integração económica profunda, parecem dirigir-se a um conflito geopolítico mais intenso e até a uma guerra. O seu antagonismo é a rivalidade interimperial central do século XXI, com os EUA a tentar preservar a sua dominância e a China a tentar contestá-la.

Da Unipolaridade à Multipolaridade

O desenvolvimento desta rivalidade era a última coisa que os EUA queriam. Depois do fim da Guerra Fria, estavam a desfrutar daquilo a que Charles Krauthammer chamou um “momento unipolar”. Os Estados Unidos pretendiam consolidar o seu estatuto de única super-potência mundial e impedir a ascensão de um novo concorrente, incorporando todos os Estados do mundo na sua chamada ordem baseada nas regras de globalização do comércio livre.

Como Gilbert Achcar argumenta no seu livro recentemente publicado, The New Cold War, os EUA queriam prevenir particularmente qualquer desafio da Rússia e da China. De forma a contê-los, assim como outras potenciais ameaças à sua dominação, Washington expandiu a NATO, manteve a sua vasta rede de bases militares na Ásia, levou a cabo operações militares contra os chamados Estados párias, como o Iraque, e impôs “estabilidade” a países como o Haiti, devastados pelas suas políticas económicas neoliberais.

Contudo, até os planos mais bem gizados podem falhar. Três desenvolvimentos deram início à atual ordem mundial multipolar assimétrica, despoletando, no seu centro, a rivalidade entre Washington e Pequim.

Primeiro, a China e várias potências sub-imperialistas aproveitaram o longo boom neoliberal dos anos 80 até 2008 para se tornarem novos centros de acumulação de capital. Assim, a expansão económica começou a alterar o equilíbrio relativo de poder entre os Estados no capitalismo global.

Segundo, a tentativa de Washington de consolidar a sua hegemonia através das invasões do Afeganistão e do Iraque rebentou-lhe na cara, atolando-a em duas décadas de guerra de contra-insurreição. A China e outros países aproveitaram a situação para se tornarem mais assertivos nos seus interesses económicos e políticos.

Terceiro, a Grande Recessão de 2008 acabou com o boom e atingiu os EUA e os seus aliados europeus. O enorme investimento estatal chinês conseguiu afastar com sucesso a sua economia da curva descendente e impulsionou um boom de matérias-primas que sustentou o crescimento em países como o Brasil e a Austrália.

Tudo isto levou ao declínio relativo do imperialismo dos EUA e à ascensão da atual ordem mundial multipolar assimétrica. Os EUA permanecem, claro, como o Estado imperialista mais dominante mas agora enfrentam a China como rival em ascensão, uma Rússia que se revitalizou como potência regional de grande dimensão e uma série de Estados sub-imperialistas, desde a Arábia Saudita a Israel e ao Brasil, que desafiam e cooperam com os EUA.

A ascensão do imperialismo chinês

Washington vê a China como o seu maior rival. Pequim transformou-se de uma economia autárquica, subdesenvolvida numa super-potência capitalista. É agora a segunda maior economia, a primeira industrialmente, o maior exportador, o principal parceiro comercial da maioria das maiores economias mundiais, um dos principais exportadores de capitais, o maior credor e um dos principais beneficiários de investimento direto estrangeiro.

Uma combinação de competição económica e crise levou a China a desafiar o capital dos EUA, Japão e Europa pelo mundo. Para reforçar a indústria de alta tecnologia da China, Xi Jinping lançou uma nova política industrial – o Made in China 2025 – com o objetivo de financiar as grandes empresas nacionais na produção de semicondutores avançados, dar um salto na cadeia de valor e acabar com a dependência de fornecedores estrangeiros.

Contudo, a Grande Recessão e o vasto estímulo estatal da China conduziram a problemas sistemáticos na sua economia. Como Ho-fung Hung argumenta no seu livro, Clash of Empires, desenvolveu-se uma crise de sobre-acumulação, “caracterizada pelo aumento do endividamento, pelo excesso de capacidade e pela queda dos lucros das empresas chinesas”.

Para ultrapassar estas dificuldades, Xi lançou a Iniciativa “Uma Cintura, Uma Rota” em 2013. A China prometeu conceder mais de 1 bilião de dólares em empréstimos dos seus bancos estatais para construir infraestruturas no Sul Global, em grande parte para facilitar as exportações de matérias-primas para alimentar a sua economia à maneira imperialista clássica.

A China transformou este poder económico em força geopolítica. Criou a Organização de Cooperação de Xangai, que reuniu a Rússia e os Estados da Ásia Central, e também uniu o Brasil, a Rússia, a Índia, a China e a África do Sul num bloco geopolítico (os BRICS), juntamente com o seu Novo Banco de Desenvolvimento, para rivalizar com o G7, dominado pelos EUA. Usou ambos (entre outros acordos políticos e económicos bilaterais e multilaterais) para projetar os seus interesses na Ásia e por todo o mundo.

Para apoiar estes esforços, a China revolucionou as suas forças armadas. Nas últimas duas décadas, tem aumentado de forma consolidada a despesa militar entre 5% e 7% por ano, atingindo uma despesa de quase 300 mil milhões de dólares, apenas atrás dos EUA.

Concentrou-se em projetar o seu poder nos mares da China Oriental e do Sul da China. Construiu ilhas militarizadas para patrulhar as rotas marítimas internacionais, reivindicou áreas marítimas com reservas submarinas de combustíveis fósseis e afirmou o controlo das pescas. Tudo isto colocou Pequim em conflito com outros países com reivindicações rivais, incluindo o Japão, o Brunei, Taiwan, a Indonésia, a Malásia, as Filipinas e o Vietname.

A China desenvolveu uma estratégia militar de "negação de área anti-acesso" para proteger os seus interesses e dissuadir os EUA e os seus aliados. Estabeleceu também a sua primeira base militar estrangeira no Djibuti, com outra prevista para a Guiné Equatorial e outras a serem estabelecidas em vários países da Ásia-Pacífico, do Médio Oriente e de África que considera estratégicos.

O imperialismo keynesiano de Biden

É claro que os EUA continuam a ser a maior economia do mundo, controlam o dólar como moeda de reserva internacional, possuem a maior rede de aliados militares, gastam quase três vezes mais do que a China em defesa e possuem mais de 750 bases em todo o mundo. Para fazer valer a sua supremacia, têm vindo a adotar uma atitude cada vez mais agressiva para conter Pequim.

Barack Obama iniciou isto com a sua política de Viragem para a Ásia e Donald Trump escalou-a com a sua declaração da rivalidade entre grandes potência com a China e a Rússia. Mas a má governação errática de Trump exacerbou o declínio relativo de Washington.

Para restaurar a sua hegemonia, a administração Biden adotou uma estratégia de keynesianismo imperialista. Começou a implementar uma política industrial inteiramente concebida para garantir a supremacia económica e militar dos EUA.

Biden manteve as tarifas e sanções que Trump impôs às exportações chinesas para os EUA e está a preparar-se para acrescentar novas. Especificamente, utilizou a segurança nacional como justificação para bloquear a venda de microchips avançados que têm tanto aplicações industriais quanto militares.

Biden também incentivou as empresas a “protegerem” as suas cadeias de abastecimento, transferindo-as da China para os EUA e para os seus aliados. Para adoçar a oferta, assinou um projeto de lei de infraestruturas no valor de um bilião de dólares para renovar o delapidado sistema de transportes dos EUA, atualizar a sua miseravelmente atrasada Internet e financiar a construção de uma nova rede de estações de carregamento de veículos elétricos, tudo isto essencial para o capitalismo do século XXI.

Promulgou a lei do Chip e da Ciência que irá injetar mais de 280 mil milhões de dólares em empresas e universidades para conceber e fabricar chips de computador avançados nos EUA, a fim de diminuir a sua dependência de fornecedores estrangeiros. Por último, a sua Lei de Redução da Inflação (IRA), no valor de 385 mil milhões de dólares, embora seja vendida como uma forma de lidar com as alterações climáticas, apresenta “soluções” capitalistas verdes batidas e duvidosas.

Mas, ao mesmo tempo, expande a extração de combustíveis fósseis para exportação, especialmente para os países europeus, para lhes permitir alcançar a independência energética da Rússia. A IRA também financia a produção nacional de painéis solares, carros elétricos, baterias e respetivos componentes, para acabar com a dependência de fornecedores e concorrentes estrangeiros, sobretudo da China.

Democracias” versus Autocracias

Para complementar esta política industrial imperialista, Biden lançou uma campanha geopolítica para forjar uma frente de democracias contra autocracias. Muito disto é uma pose ideológica, uma vez que a democracia dos EUA está, no mínimo, repleta de crises (lembram-se do 6 de Janeiro?) e os aliados que convidou para as suas duas “Cimeiras da Democracia” incluíam Estados que a Freedom House classificou como “parcialmente livres”, “nada livres” ou “autocracias eleitorais”.

Porém, Biden fez progressos na construção de uma aliança, composta principalmente pelos seus aliados da Guerra Fria contra a China e a Rússia. Usou o álibi da opressão de Pequim aos uigures em Xinjiang como justificação para encenar um boicote diplomático aos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Inverno de 2022, ao qual se juntaram a Grã-Bretanha, o Canadá, a Austrália, a Índia e uma lista de Estados mais pequenos. As pretensões de Washington de se preocupar com os direitos humanos cheiram a hipocrisia, uma vez que impõe um “Novo Jim Crow” domesticamente e apoia Estados opressivos no estrangeiro, como o apartheid de Israel.

Em resposta, a China e a Rússia anunciaram, no período que antecedeu os Jogos Olímpicos, uma “amizade sem limites” numa declaração conjunta que apela a “um sistema multipolar de relações internacionais” e denuncia as tentativas de “certos Estados [os EUA e os seus aliados] de impor os seus próprios 'padrões democráticos' a outros países”, uma política que denuncia como “tentativas de hegemonia”. Com a intensificação da rivalidade, Biden tem aumentado os orçamentos militares todos os anos, desembolsando 780 mil milhões de dólares em 2022, quase 820 mil milhões em 2023 e propondo 886 mil milhões para 2024. E pressionou todos os aliados dos EUA, especialmente os da Europa e da Ásia, a aumentar os seus gastos com defesa, alimentando uma corrida ao armamento internacional.

Na Ásia, colocou ênfase especial no Diálogo de Segurança Quadrilateral, que inclui a Austrália, a Índia e o Japão, e que tem vindo a realizar exercícios militares conjuntos há anos. Orquestrou a sua primeira cimeira com os chefes de todos os Estados em 2021, numa iniciativa explicitamente concebida para contrabalançar a China.

Também deu início ao novo pacto militar trilateral entre a Austrália, o Reino Unido e os EUA (o AUKUS) para que Camberra adquira submarinos nucleares para contrariar o crescente poder naval de Pequim. E pressionou a Coreia do Sul a esquecer as suas queixas históricas contra o imperialismo japonês e a juntar-se a este país e aos EUA numa frente unida contra a Coreia do Norte e a China.

O imperialismo russo sobreaquece as rivalidades

A invasão russa da Ucrânia levou esta rivalidade interimperial a um ponto febril. Putin lançou a guerra para reconstruir o império russo, colonizar a Ucrânia, esmagar as lutas internas e regionais pela democracia e contrariar a expansão da NATO para o que ele considera ser a esfera de influência da Rússia.

Ele acreditava que a Rússia estava numa posição ideal para lançar a guerra, depois de ter garantido a “amizade sem limites” com a China e no seguimento da retirada caótica de Biden do Afeganistão. O que ele subestimou foi a resistência ucraniana que parou a Rússia no seu caminho e surpreendeu os EUA e as potências da NATO que esperavam a queda de Kiev.

Washington apoiou a Ucrânia, como declarou o secretário de Defesa Lloyd Austin, para enfraquecer a Rússia e reunir os seus aliados contra Moscovo e Pequim. Na verdade, a guerra de Putin foi uma prenda para o imperialismo dos EUA. Washington relegitimou e galvanizou a Nato, que deveria ter sido abolida após a Guerra Fria. A aliança de segurança em expansão aceitou recentemente a Finlândia e está a negociar a adesão da Suécia. E os EUA pressionaram com sucesso os seus aliados europeus para aumentarem os seus orçamentos militares.

Além disso, Washington conseguiu convencer a Organização do Tratado do Atlântico Norte a identificar a China como um de seus “desafios sistémicos”. A França, a Holanda e a Alemanha já se juntaram aos EUA e ao Japão em exercícios navais na Ásia-Pacífico.

Por seu lado, Washington intensificou as suas políticas de confronto com a China desde a guerra. Biden abateu o balão espião da China, prendeu agentes da polícia chinesa e, como documentam as recentes fugas de informação, aumentou as suas operações de vigilância não só sobre a Rússia e a China, mas também sobre aliados como a Coreia do Sul, o Egito e até o presidente da ONU.

Biden também utilizou a segurança nacional como justificação para intensificar a guerra de chips de Washington contra a China. Os EUA, juntamente com o Japão e os Países Baixos, proibiram a exportação para a China de semicondutores avançados e de máquinas para os fabricar, alegando que essa alta tecnologia tem aplicações civis e militares.

Morris Chang, o fundador do fabricante de semicondutores de Taiwan, TSMC, que já tinha concordado em deixar de vender chips avançados à Huawei, disse que “apoiava” a proibição, algo concebido para travar a indústria de alta tecnologia da China. Mas, advertiu, isso significa que “a globalização está morta” e que o “comércio livre” está em perigo.

Na realidade, porém, apesar das tarifas, sanções e proibições, o comércio entre os EUA e a China atingiu um recorde em 2022, com 690 mil milhões de dólares. Neste ponto, portanto, Washington, como a secretária do Tesouro Janet Yellen reiterou recentemente, não está à procura de uma “dissociação” mas “desarriscar” – deslocando indústrias militarmente estratégicas e cadeias de abastecimento para fora da China.

A contra-ofensiva da China

Pequim respondeu aos ataques de Washington com uma contra-ofensiva. Antes ainda de o fazer, teve de ultrapassar uma economia em abrandamento, o aumento do desemprego e a resistência interna, em parte causada pela sua política draconiana de Covid zero.

Assim, Xi abandonou os confinamentos, reabriu o país ao mundo e aumentou o apoio ao capital estatal e privado, desencadeando um crescimento de 4,5% no primeiro trimestre de 2023. Ele está a guiar este novo crescimento com uma nova política industrial concebida para criar uma economia de dupla circulação, com um sistema interno cada vez mais auto-suficiente junto com um sistema de exportação para o mundo.

A China também impôs sanções a empresas americanas, incluindo a Lockheed Martin e a Raytheon, e lançou uma investigação ao fabricante americano de chips Micron, tudo em retaliação contra o que chama de “bloqueio tecnológico” liderado por Washington. No entanto, como admitiu um analista da CIA, a China "tem muitas alavancas que pode acionar para exercer pressão sobre os aliados e parceiros dos EUA cujas economias dependem do comércio com a China".

Para capitalizar com esta situação, Xi lançou uma ofensiva diplomática em várias frentes contra Washington. Orquestrou um acordo entre a Arábia Saudita e o Irão para restabelecer as relações diplomáticas, surpreendendo e afastando os EUA, ao mesmo tempo que demonstrava o novo estatuto da China como mediador de poder no Médio Oriente.

Pouco depois, Xi realizou uma cimeira com Vladimir Putin na Rússia, em que afirmou a sua “amizade sem limites”, aceitou acordos comerciais em yuans e reiterou o seu compromisso comum de construir uma ordem mundial multipolar contra a hegemonia de Washington. Xi apelou igualmente a um cessar-fogo na Ucrânia, apresentou um quadro para as negociações de paz e prometeu telefonar ao Presidente Volodymyr Zelensky.

Após algum tempo, contactou finalmente Zelensky, mas a conversa entre ambos não produziu qualquer progresso no sentido de um cessar-fogo e de negociações e muito menos de uma paz justa, cuja condição prévia é a retirada das forças de Moscovo. No entanto, Pequim espera claramente explorar as divisões sobre a guerra da Rússia e usar acordos económicos para atrair potências sub-imperiais, especialmente os BRICS, assim como outros governos do Sul Global para a sua órbita e impedir a Europa de bloquear com os EUA.

O governo chinês teve alguns êxitos neste esforço, recebendo vários chefes de Estado na China e levando o FMI a preocupar-se com o facto de a economia mundial estar à beira de se fragmentar “em blocos económicos rivais”. O Presidente brasileiro Luís Inácio Lula da Silva viajou para Pequim, anunciou que “o Brasil está de volta”, criticou a hegemonia do dólar de Washington, apelou a um mundo monetário multipolar, iniciou a discussão sobre novos acordos comerciais e de investimento, reiterou as justificações de Putin para a invasão da Ucrânia e apelou a um cessar-fogo e a negociações. Como parte do seu esforço para atrair os Estados europeus, Xi recebeu em Pequim o chanceler alemão Olaf Scholz. Scholz, cuja economia é altamente dependente das exportações, pressionou Xi a fazer lóbi junto da Rússia para pôr fim à guerra mas sobretudo limitou-se a fechar acordos lucrativos de comércio e investimento.

O francês Emmanuel Macron, que enfrenta greves em massa no seu país, juntou-se à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, numa viagem a Pequim. Macron tentou definir uma posição geopolítica independente dos EUA, afirmando que, na questão de Taiwan, a UE deve resistir a tornar-se “seguidora” ou “vassala” dos EUA e a ser “apanhada em crises que não são nossas”.

Num sinal de divisão, von der Leyen repreendeu Macron, advertiu a China sobre o uso de qualquer tipo de força e reiterou o apoio da Comissão à política de Washington em relação a Taiwan. Outros líderes europeus, como o chefe da política externa da UE, Josep Borrell, revelaram um tom diferente. Este afirmou que a UE tinha identificado a Rússia como uma ameaça à segurança, mas não a China, e que Bruxelas precisava de continuar a falar com a China “devido à sua enorme influência no mundo”. Assim, os líderes europeus continuam divididos em relação à China, apesar da sua aparência de unidade em relação a Taiwan e à Ucrânia, na recente cimeira do G7.

Para apoiar esta ofensiva geopolítica com força, a China anunciou um aumento de 7,2% nas despesas com a defesa para este ano. A política industrial protecionista e o militarismo de Pequim contrastam com a sua repetida defesa do multilateralismo, do comércio livre e da globalização.

Taiwan: ponto crítico estratégico da rivalidade imperial

O conflito entre os EUA e a China está a chegar ao auge em relação a Taiwan, com o general americano Mike Minihan a prever uma guerra em 2025. Pequim reivindica a ilha como uma província renegada que pretende reintegrar, enquanto os EUA mantêm uma posição de “ambiguidade estratégica”, defendendo uma política de “uma só China” que apenas reconhece oficialmente Pequim, mantendo-se pouco claro se defenderia militarmente Taiwan de forma a impedir a China de invadir e Taiwan de declarar a independência.

Os riscos do conflito não são apenas geopolíticos, mas também económicos. Taiwan é a sede de algumas das indústrias de semicondutores mais avançadas do mundo. Empresas como a TSMC fabricam e exportam 90% dos chips de computador mais avançados para países incluindo a China que alimentam tudo, desde iPhones a drones militares.

A China promete bloquear qualquer ação de Taiwan para declarar a sua independência e afirma repetidamente a sua determinação em retomar a ilha pela força, se necessário. Em resposta a estas ameaças, Joe Biden declarou várias vezes, em aparente violação da ambiguidade estratégica, que os EUA defenderiam Taiwan em caso de ataque.

A visita provocatória da Presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, a Taiwan desencadeou uma quarta crise no Estreito de Taiwan. Ela declarou “o empenhamento inabalável dos Estados Unidos em apoiar a democracia vibrante de Taiwan”, uma vez que o “mundo enfrenta uma escolha entre a autocracia e a democracia”. Ao mesmo tempo, alegou apoiar a política de “uma só China” e opor-se a quaisquer “esforços unilaterais para alterar o status quo”.

A China reagiu à visita lançando os maiores exercícios militares de sempre perto de Taiwan, disparando mísseis balísticos, colocando navios de guerra no Estreito e enviando caças sobre a ilha. A visita da presidente taiwanesa Tsai Ing-Wen aos EUA precipitou mais uma ronda de exercícios militares chineses, desta vez simulando um bloqueio para impedir os EUA de defenderem o país.

Pouco tempo depois, os EUA e as Filipinas realizaram exercícios militares que simularam o ataque a um navio de guerra chinês simulado no Mar do Sul da China, enviando uma mensagem óbvia e beligerante a Pequim. Estas operações surgiram na sequência do novo acordo de Washington com Manila para a criação de quatro novas bases militares perto de águas contestadas por Pequim, incluindo uma em Luzon, perto de Taiwan.
O povo de Taiwan está preso entre a China e os EUA, o seu direito à auto-determinação ameaçado por Pequim e cinicamente apoiado pelos EUA por motivos imperiais.

Nem Washington, nem Pequim

Uma guerra entre os EUA e a China é, contudo, improvável nesta altura. As suas economias continuam profundamente integradas, ambos possuem enormes reservas de armas nucleares e estão inseridos em elaboradas instituições geopolíticas e económicas internacionais, fatores que mitigam as hipóteses de guerra.

Mas, entre as múltiplas crises do capitalismo global, ambas as potências estão a estimular a hostilidade nacionalista e a implementar políticas geopolíticas e económicas cada vez mais antagónicas. Em tais condições voláteis, é essencial para a esquerda internacional mobilizar-se contra o impulso para a guerra imperialista.

Nos EUA, a principal prioridade da esquerda deve ser opor-se à tentativa de Washington de impor a sua hegemonia contra o desafio da China. Washington continua a ser, como disse Martin Luther King Jr. há décadas, “o maior desencadeador de violência no mundo de hoje”, um facto confirmado mais recentemente pela sua destruição do Afeganistão e do Iraque.

Ao mesmo tempo, não devemos cair na política de “o inimigo do meu inimigo é meu amigo” e apoiar o principal rival imperial de Washington, a China, nem outros menores como a Rússia. Estes não são Estados imperialistas menos predadores e avarentos, como o atesta o historial de Pequim em Xinjiang e Hong Kong, assim como o de Moscovo, igualmente brutal, na Síria e na Ucrânia.

Construir solidariedade internacional a partir das bases

Em vez disso, a esquerda deve construir uma solidariedade internacional a partir das bases, entre nações oprimidas como a Palestina, a Ucrânia e Taiwan, bem como a partir dos trabalhadores explorados nos EUA e na China e em todo o mundo. Este projeto não é uma abstração, mas uma necessidade e uma possibilidade.

O capitalismo global uniu os trabalhadores para além das fronteiras, e as suas crises estão a produzir resistência a partir de baixo nos EUA, na China e em todo o mundo. De facto, desde a Grande Recessão, temos assistido a uma onda de protestos e revoltas contra as profundas desigualdades em todos os países.

O desafio político para a esquerda é construir solidariedade dentro destes países e entre eles. A forma mais imediata de o fazer é organizar a grande população chinesa e sino-americana, incluindo cerca de 300.000 estudantes internacionais chineses nos EUA.

Uma esquerda envolvida nestas comunidades tem e terá um papel essencial na liderança da luta contra o racismo anti-chinês que Washington tem fomentado. Pode também ajudar a organizar a luta dos trabalhadores, especialmente nos campus onde os estudantes chineses têm desempenhado um papel de liderança, mais recentemente nas greves universitárias que varreram a Califórnia. Uma organização deste tipo tem um potencial enorme para construir solidariedade internacional, uma vez que muitos estudantes chineses têm ligações ao movimento dos trabalhadores e ao movimento feminista na China.

Há também uma grande diáspora de pessoas oprimidas pelo Estado chinês, incluindo muitas de Hong Kong, Xinjiang e Taiwan. É essencial que a esquerda se solidarize com estas lutas, de forma a oferecer uma alternativa ao Estado norte-americano que cinicamente se mostra como seu amigo, enquanto usa a sua opressão como arma na sua rivalidade interimperial com a China.

Todo este trabalho abrirá caminhos para construir uma luta comum com os trabalhadores da China e da Ásia. O Labor Notes já estabeleceu um precedente com as suas visitas aos grevistas chineses. Embora a repressão de Xi às ONGs do setor do trabalho e aos militantes das causas dos trabalhadores nos últimos anos tenha tornado isso bem mais difícil, a esquerda deve procurar todas as possibilidades, por mais ténues que sejam, de construir pontes de solidariedade com as suas lutas.

Em 2019, por exemplo, 80.000 trabalhadores de tecnologia dos EUA e de todo o mundo assinaram um apelo internacional de solidariedade com o protesto de seus colegas chineses contra uma política que os obrigava a trabalhar das 9h às 21h seis dias por semana. Assim, mesmo na indústria de alta tecnologia, que é um local chave de rivalidade interimperial, os trabalhadores demonstraram a possibilidade de acção conjunta contra os seus exploradores.

Em 2019, por exemplo, 80.000 trabalhadores do setor tecnologia dos EUA e de todo o mundo assinaram um apelo internacional de solidariedade com o protesto dos seus homólogos chineses contra uma política que os obrigava a trabalhar das 9 às 21 horas seis dias por semana. Assim, mesmo na indústria de alta tecnologia, que é um ponto chave da rivalidade interimperial, os trabalhadores demonstraram a possibilidade de ação conjunta contra os seus exploradores.

Finalmente, a esquerda americana deve colaborar com a esquerda chinesa (e a esquerda asiática em geral), que apesar da repressão e das condições difíceis, tem desenvolvido extensas redes e publicações como o Lausan de Hong Kong, o New Bloom de Taiwan, e grupos e publicações chinesas como o Gongchao, o Chuang e o Made in China Journal. Chegou o momento de construir um anti-imperialismo internacionalista que rejeite a falsa escolha entre Washington e Pequim e se organize para além das fronteiras numa luta pelo socialismo internacional que coloque as pessoas e o planeta em primeiro lugar.


Ashley Smith é um escritor e ativista socialista de Burlington, Vermont. Tem escrito em várias publicações como o Truthout, The International Socialist Review, Socialist Worker, ZNet, Jacobin, New Politics, entre outras. Atualmente está a trabalhar num livro para a Haymarket Books intitulado Socialism and Anti-Imperialism.

Texto publicado originalmente no truthout. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.