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“Estamos aqui para a luta toda!”

Gabriela Morais, Fernando Rosas, Luís Fazenda, Francisco Louçã, Marisa Matias e Catarina Martins falaram do passado, presente e futuro da “esquerda de combate” no comício de comemoração dos 20 anos do Bloco. E Omiri e Fado Bicha trouxeram música mestiça e comprometida ao Mercado da Cultura que esteve cheio e em festa.
Foto de Paula Nunes

Catarina Martins começou a sua intervenção no comício de comemoração do 20º aniversário do Bloco por lembrar a “coincidência feliz” do partido que “nasceu para romper a desgraça da derrota dos direitos das mulheres no primeiro referendo do aborto” se juntar “no dia seguinte à maior manifestação feminista que este país já viu”.

Ao longo da sua intervenção, a coordenadora do Bloco quis rejeitar a ideia de uma esquerda que “se contentasse em ser simbólica”. O Bloco não se quer limitar a esse papel porque as vidas de quem defende não são simbólicas, “são as nossas vidas, são a nossa gente”.

Por isso, o Bloco não se limita ao simbólico quando combate “a financeirização do país” ou luta “para travar os eucaliptos e os furos de petróleo”. E é alternativa concreta “para salvar o Serviço Nacional de Saúde, nacionalizar os CTT ou manter o sistema financeiro em mãos públicas e nacionais”.

É também por não ser meramente simbólico que o Bloco fez “amigos” do lado das lutas e “inimigos poderosos” na “elite financeira que nos ataca porque quer liberdade para fazer os seus negócios à custa do país”. Catarina Martins considera que “essa elite teve no Partido Socialista um aliado ao longo desta legislatura”. Assim “cada voto no Partido Socialista em 2015 foi usado por António Costa para fazer sobre o sistema financeiro exatamente o mesmo que fez Passos Coelho”, ou seja, “limpar bancos com o dinheiro de todos, entregá-los limpos ao negócio de alguns”.

Também “as mortes das mulheres” e “as sentenças vergonhosas dos Netos Mouras desta vida” não são simbólicas. Por isso, a voz em defesa das mulheres “é um trovão” que “vai conseguir mudar a justiça, mudar a cultura, criar igualdade e respeito”. Nem o aquecimento global. Daí que tenha mobilizado para a greve climática de 15 de março: “chega de acordos nunca cumpridos, é tempo da mudança: descarbonização da economia, reconversão energética, da indústria e dos transportes, empregos para o clima”.

A coordenadora do Bloco também recordou a história mais do que simbólica do que o Bloco fez ao longo de 20 anos. O partido nasceu num país em que “entre marido e mulher não se metia a colher”, em que se “morria em abortos de vão de escada”, em que “gays e lésbicas só no armário”, “de racismo não se falava”, a “toxicodependência era tratada com prisão” e “do ambiente quase não se tratava”. O seu balanço de “20 anos a ser exigentes” e “a aprender com quem luta” é de que “mudámos o país e a política, acrescentámos luta à luta”. Passadas duas décadas, os bloquistas continuam portanto a apresentar-se como “anti-capitalistas, socialistas, ecosocialistas, feministas, anti-racistas, internacionalistas” que fazem “a luta toda. Todas as lutas.”

“Furámos o teto”

Gabriela Morais nasceu já depois do Bloco existir. Escolheu ser do Bloco por ele ser “um partido que mostra a intersecionalidade das lutas” que está “na rua” por exemplo com “as vítimas dos despejos” e que é “contra a aceitação acrítica do sistema de poder capitalista”.

Fernando Rosas está no Bloco desde o começo mas concorda com ela. O fundador do Bloco explica o que o partido trouxe de novo. “Alterou toda a correlação de forças à esquerda” dando consistência a “uma esquerda que não se reconhecia no social-liberalismo nem no atentismo”. Abriu também a agenda política a temas como a violência doméstica, a luta contra a precariedade, o casamento entre pessoas do mesmo sexo ou a luta contra a discriminação racial que o Bloco “trouxe para o centro do confronto político” porque "sabe que o capitalismo repousa na exploração do capital mas também no patriarcado, no sexismo, na perseguição das minorias sexuais". É por isso que vê nestas lutas não “lutas de uns contra os outros” mas “de todos contra a exploração, a opressão e a discriminação do capitalismo”.

Para além disto, o Bloco trouxe aquilo que foi “o segredo da sua longevidade”: a capacidade de juntar “pessoas das várias esquerdas da esquerda”, isto “sem que nenhuma se visse constrangida a prescindir da sua identidade ou da sua história.” A “prática da democracia interna” é, assim, “condição da sua subsistência”.

A propósito dos “inimigos de estimação” que diziam que o Bloco não tinha futuro ou que já não podia crescer mais porque tinha "atingido o teto", o historiador contrapôs: “furámos o teto”. Àqueles que dizem que o Bloco é um partido social-democrata em decomposição lembrou: “somos uma esquerda socialista e anti-capitalista que não desiste de mudar o mundo”.

“Agora piamos mais”

Outro dos fundadores do Bloco, Luís Fazenda também fez questão de desmontar os discursos que criticam o Bloco dizendo que este está muito “institucionalista” e “que já não parece ser aquilo que foi”. Para o dirigente bloquista são comentários conjunturais (ou seja se não houvesse geringonça a crítica continuaria a ser “que somos mal comportados, incapazes de assumir responsabilidades”), desdenhosos (porque “menorizam todo aquele conjunto de direito sociais, económicos e políticos que o Bloco fez valer” nesta conjuntura) e errados.

Lembrando “uma Esfinge que foi presidente” e que dizia “eles agora já não piam”, Fazenda contrariou a ideia: agora “piamos mais” e por causa disso estamos a ser mais contestados. Aliás, para Fazenda “o poder sempre foi o objetivo do Bloco de Esquerda” porque sem ele não se transforma a sociedade. Por isso opõe-se às ideias anárquicas de contra-poder que são “um folclore muito antigo” que pretende “afastar as nossas atenções do que é essencial".

Considerou ainda o Bloco um partido que enriqueceu a sua identidade fundadora: “queremos o socialismo, a concretização do ecologismo, do feminismo” na “diversidade ideológica” que é a razão de ser do partido, ao invés de quem quer “partidos dogmáticos” ou de “catecismo”. Porque “o sangue do nosso sangue é a ideia socialista”.

“Não há nada mais revolucionário do que o sorriso da gente normal”

Francisco Louçã começou a sua intervenção pelo episódio do sorriso das criadas de Tocqueville na revolução de 1848, desafiando os seus patrões. E considerou que talvez muita gente tenha “poucos motivos para sorrir” mas “quando o Bloco se formou soubemos que havia uma estrela que tinha renascido” e que “só triunfou porque quis fazer o que nos garantiam que era totalmente impossível”: acabar com a fragmentação, “uma estética da infelicidade, da solidão” e disputar a política.

Mas o Bloco “disputou tudo”: “recusou a armadilha do euro”, “nunca aceitou os tratados do mal a pior”, “rejeitou as aventuras financeiras” e nunca foi cúmplice “com o gangsterismo financeiro”. E “nunca teve causas fraturantes” nas sim “causas unificantes”: a defesa dos direitos das mulheres contra o assédio e contra a violência, dos jovens precários, dos idosos contra os despejos, contra o racismo ou pelos direitos de se amar quem se quer.

Para Louçã, a luta faz-se “com um sorriso” e do que “mais nos lembramos naqueles que morreram e que foram os nossos companheiros é a vida do seu sorriso". Ocasião para invocar Miguel Portas, João Semedo, Helena Lopes da Silva “e tantos e tantas outras”.

Eles, como o resto do Bloco, são “gente normal com um sorriso”. Voltando assim ao ponto de partida da sua metáfora, o ex-coordenador do Bloco lembrou o sorriso das criadas e igualmente soldados que empunharam os cravos, das jovens feministas, dos ativistas da greve climática. Louçã concluiu que “a nossa responsabilidade é esse sorriso” porque “não há nada mais revolucionário do que esse princípio do sorriso" e "como há vinte anos sabemos que vai por aqui uma estrela”.

“Venham mais vinte”

Marisa Matias não é da geração fundadora do Bloco. Mas não tem dúvidas: “a melhor escolha política que fiz foi juntar-me ao bloco”. Como também não tem dúvidas sobre a greve feminista: foi um momento único, um turning point e “haverá um antes e um depois” desta manifestação.

Marisa Matias aproveitou a ocasião para lembrar o quarto fundador do Bloco, Miguel Portas, através da trajetória do trabalho no parlamento europeu em que o partido procurou estar nas instituições mas também “em todas as lutas que contam”. Por isso desfiou os muitos exemplos de onde o Bloco marcou presença: do Sahara Ocidental, à Síria, à Palestina, à Argentina, ao Brasil, aos locais onde os refugiados são aprisionados, Calais, Hungria, Lampedusa, às lutas contra as alterações climáticas em Copenhaga e no México, entre tantas outros locais.

O Bloco esteve também com os trabalhadores portugueses na Europa: na Holanda e na Bélgica “quando soubemos de trabalho escravo”, no Luxemburgo quando quiseram expulsar emigrantes ou junto dos lesados do BES.

A eurodeputada sublinhou que o Bloco sabe que “os inimigos não são os pobres, não são os migrantes, os refugiados, as mulheres, os desempregados, os pensionistas”. São “a desigualdade, a injustiça, a opressão, a dominação, o racismo, a xenofobia” e “o sistema financeiro predador que nos tem retirado capacidade de investimento naquilo que é mais essencial para a vida de toda a gente.” O exemplo do Novo Banco mostra “como as imposições europeias têm saído tão caras aos portugueses e às portuguesas”. A Comissão Europeia “tornou-se hiperativa para atirar para cima dos contribuintes os custos da irresponsabilidade financeira”. Depois do “modo de invasão” em que disseram que não se podia nacionalizar, que o governo “tinha de dar garantias ao comprador”, despedir, encerrar balcões, a Comissão Europeia “evaporou-se”.

Ao contrário desta política, Marisa Matias concluiu que “o nosso lado é dos serviços públicos”, “dos cidadãos e cidadãs”, “de quem trabalha e de quem luta”. Por isso, exclamou, “venham mais vinte anos”!

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