O Partido Democrático do Povo (HDP), que chegou a ser o terceiro maior partido turco, evitando a maioria absoluta do AKP do presidente Erdogan, foi alvo nos últimos anos de uma campanha de repressão do governo turco. Conhecido pela sua defesa dos direitos da minoria curda e maioritário nas regiões do leste do país onde se concentra esta população, o HDP viu há sete anos os seus líderes presos e acusados de apoio ao terrorismo, continuando hoje na cadeia. Muitos dos seus autarcas foram afastados administrativamente e substituídos por figuras nomeadas pelo poder de Ancara, e a ameaça de proibição nunca deixou de pairar sobre a sua atividade.
7 years have passed since the November 4 coup in which #HDP Co-Chairs Yüksekdağ & Demirtaş along with MPs, were detained. Despite the ECHR ruling stating that their detention was unlawful, they remain imprisoned. We continue our fight to end their politically motivated detention! pic.twitter.com/637aU4vqUg
— HEDEP Official (@HEDEPworld) November 4, 2023
Para evitar ser afastado das últimas eleições legislativas, os militantes do HDP apresentaram-se nas listas da Esquerda Verde e mantiveram a terceira posição, perdendo alguns deputados. Com o processo de encerramento a avançar na justiça, e com eleições autárquicas marcadas para o fim de março de 2024, o recente Congresso da Esquerda Verde decidiu no mês passado prosseguir a atividade sob outro nome e com uma organização nova, o Partido da Igualdade e Democracia do Povo, com a sigla HEDEP.
No dia seguinte ao Congresso, já o Partido de Ação Nacional (MHP), ultranacionalista e aliado de Erdogan no Governo, interpôs uma ação na justiça contra a nova sigla, com o argumento de HEDEP ser muito semelhante a HADEP, um partido extinto há 20 anos por ordem do Tribunal Constitucional com a habitual acusação de ligações ao terrorismo curdo do PKK. Sem surpresa, o Gabinete da Procuradoria no Supremo Tribunal de Recursos, não aceitou a alteração da sigla, usando o mesmo argumento dos ultranacionalistas.
The arbitrary political plot against the democratic tradition in #Turkey continues. "This is a new attempt to clamp down on the judiciary", "it is a new attempt to plot", said our party's spokesperson Ayşegül Doğan in a statement in the Turkish Parliament. Please read & share pic.twitter.com/UV0JsfWFy4
— HEDEP Europe (@HEDEP_Europe) November 24, 2023
A deputada e porta-voz do HEDEP, Ayşegül Doğan, jornalista também condenada em 2020 a seis anos e três meses de prisão, ainda pendentes de recurso, por ter entrevistado membros do Congresso da Sociedade Democrática, uma ONG pró-curda que defende uma Constituição confederal para a Turquia, diz que a ação do MHP "é uma nova tentativa de pressionar o poder judicial" e o repetir das "tentativas de golpe" para tirar a esquerda turca dos boletins de voto na autárquicas de março.
"Sabemos muito bem que conotações tem o HADEP e que conotações são temidas. Eles têm medo da nossa teimosia, da nossa insistência e do facto de não abandonarmos o campo da política democrática", acrescentou Ayşegül Doğan, desafiando o poder a criar um "manual do utilizador" com as letras e palavras censuráveis e "que letras são censuráveis se estiverem juntas". Dessa forma, diz a líder do HEDEP, "eles não vão precisar de trabalhar horas extraordinárias e nós também não".
Para já, apesar de prometer continuar a contestar o entendimento da acusação neste processo, o partido não arrisca ser excluído da eleição por causa deste golpe jurídico e vai mesmo adotar uma nova sigla, mantendo o seu nome por extenso.