A sessão de abertura do encontro, que teve lugar no Parlamento dinamarquês, contou com as intervenções de boas vindas de Pelle Dragsted, porta-voz da Aliança Vermelha e Verde da Dinamarca, e de Manon Aubry, deputada europeia da França Insubmissa e co-coordenadora do The Left no Parlamento Europeu.
Seguiu-se um seminário sobre transição justa e verde e empregos de qualidade com representantes sindicais e ativistas climáticos e um painel constituído por Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, Li Anderson, do Vasemmistoliitto (Vas), da Finlândia, Pernando Barrena, do partido Euskal Herria Bildu (EH Bildu), do País Basco, e Maciej Konieczny, do Razem, da Polónia.



Findo este primeiro momento, os representantes partidários estiveram reunidos para juntar esforços na definição de uma agenda para uma transição ecológica justa e na construção de um programa para a plataforma, que será apresentado brevemente.
Em entrevista ao Esquerda.net, Nicolaj Villumsen, da Aliança Vermelha e Verde da Dinamarca, explicou que, com um maior apoio nas eleições europeias de 2024, a esquerda progressista europeia terá ainda mais força para continuar a lutar pela solidariedade, democracia, igualdade e justiça climática.

Nikolaj Villumsen, da Aliança Vermelha e Verde da Dinamarca (ao centro).
Como surgiu a plataforma “Europa para o Povo”?
Tivemos uma reunião em Paris, no final do ano passado, em que decidimos estabelecer uma plataforma de partidos progressistas da esquerda verde por forma a definir, antes das eleições europeias, uma agenda progressista, de transição verde, de direitos dos trabalhadores e de igualdade.
Vemos que a extrema-direita está a crescer e que é uma ameaça para os direitos dos trabalhadores, o clima, para sociedades mais igualitárias. É por isso que a esquerda é tão, tão necessária.

Esta plataforma está a crescer?
Na primeira reunião juntámos seis partidos, e hoje temos aqui quinze. Portanto, é, realmente, um projeto em crescimento. E estamos muito felizes por tantas forças políticas se juntarem neste encontro de Copenhaga, que a Aliança Vermelha-Verde da Dinamarca se orgulha de acolher.
Mas também é muito importante sublinhar que o que estamos a ver é que há forças políticas fortes em muitos países diferentes que estão aqui, que estamos a unir-nos de norte a sul, de leste a oeste, o que creio ser a chave para sermos mais fortes após as próximas eleições europeias e garantirmos resultados na próxima legislatura.
Há a expectativa de que esta plataforma venha a crescer ainda mais?
A título de exemplo, sabemos que os nossos amigos da Galiza gostariam de estar aqui, mas têm eleições no domingo. Por isso, não puderam vir. E, claro, esperamos que ainda mais partidos se juntem e se revejam nesta plataforma.
Quais são os principais pontos que vos unem?
Penso que é fundamental apelar a uma transição ecológica justa, a políticas de investimento, em vez de austeridade, ao investimento nas pessoas e em novos empregos verdes para o futuro, mas também ter uma posição firme em matéria de direitos humanos e de defesa do direito internacional. Estamos a assistir a uma situação perigosa no mundo, com Putin a atacar a Ucrânia, a ocupação ilegal da Palestina por Israel, e os massacres terríveis em Gaza. Por isso, precisamos que a Europa se mantenha firme na defesa dos direitos humanos e do direito internacional. E é isso que estamos a pedir. Não queremos assistir à duplicidade de critérios por parte da União Europeia, em que, por um lado, temos as duras sanções contra Putin, que apoiamos. Mas, ao mesmo tempo, não são tomadas medidas contra Netanyahu. Consideramos que a ocupação russa da Ucrânia é má, assim como consideramos que a ocupação israelita da Palestina é má. Portanto, não estamos a ter dois pesos e duas medidas. Estamos a transmitir uma mensagem clara de respeito pelo direito internacional.

Em vários dos países que hoje se reúnem em Copenhaga, a extrema-direita está em franco crescimento. É fundamental ter uma estratégia comum para responder a esta investida?
Claro. Queremos mantermo-nos firmes na defesa dos direitos humanos, na defesa dos direitos das mulheres e na defesa do direito de requerer asilo.
As lições da Segunda Guerra Mundial foram que, por exemplo, os judeus que fugiam do regime nazi na Alemanha foram expulsos e não foram autorizados a entrar na Dinamarca. É por isso que, após os horrores da Segunda Guerra Mundial, o direito de pedir asilo daqueles que fogem da guerra ou de perseguições, é um direito humano que temos de proteger. E a União Europeia também está a ameaçar esse direito, com a externalização das fronteiras, em que estamos a fazer de Erdogan, ou das milícias brutais na Líbia, os guardas fronteiriços. Isso não é aceitável.

Por vezes, a direita acusa os partidos de esquerda de não terem propostas para a economia. Qual é a alternativa à austeridade que esta plataforma propõe?
Precisamos de ter investimentos. Vimos como, durante a crise financeira, os especuladores e os banqueiros destruíram a economia, mas quem pagou o preço foram os trabalhadores, as pessoas comuns, com cortes na segurança social, com cortes nos salários e um enorme ataque aos direitos laborais. Sobretudo nos países que estavam sob a alçada da troika. E também vimos como, como durante a pandemia, toda a governação económica e a regra dos auxílios estatais foram ignoradas e suspensas.
As coisas não estão gravadas na pedra, uma esquerda forte pode fazer a diferença.
Os sociais-democratas, ou os socialistas, como se chamam a si próprios, juntamente com a direita, voltaram a impor a austeridade e a governação económica. Isto é algo que nos vai prejudicar a todos, e ainda mais as economias mais pobres da UE.
É ainda claro que não podemos concretizar a necessária transição ecológica, e não podemos fazê-la justa, se não nos for permitido garantir o investimento necessário para apostar em energia renovável que permita baixar a fatura da eletricidade.
Quais são os principais desafios com que se confronta a esquerda europeia neste momento?
Penso que o principal desafio que enfrentamos é, evidentemente, a ascensão da extrema-direita. E é, também, por isso que somos tão importantes.
Penso que, nos últimos quase cinco anos, mostrámos que fazemos a diferença no Parlamento Europeu. Estamos a fazer a diferença para os trabalhadores, para o clima, para uma sociedade mais igualitária.
Não podemos prever qual será o resultado das próximas eleições europeias. Mas de uma coisa podemos ter a certeza: para que haja uma maioria progressista no próximo Parlamento Europeu, será fundamental a presença dos partidos hoje aqui representados.

E dizemos que queremos fazer ouvir as nossas vozes e queremos usar o poder que esperamos obter com o apoio do povo para conseguir uma melhor proteção dos trabalhadores, para uma transição ecológica justa e para uma posição firme da UE no que diz respeito aos direitos humanos e ao direito internacional, e solidariedade com a Palestina.
Qual é objetivo deste encontro em particular e que ações estão a ser preparadas para o futuro, até às eleições europeias?
Naturalmente, estamos a definir uma agenda para uma transição ecológica justa. Além dos representantes dos quinze partidos, contamos neste encontro com a presença e os contributos de Judith Kirton-Darling, secretária-geral do IndustriAll Europe, do vice-presidente da Confederação dos Sindicatos dos Trabalhadores Dinamarqueses, Flemming Gronsund, e da ativista climática Caroline Bessermann, da Green Youth Dinamarca.
Estamos empenhados na construção de um programa de dez pontos para a nossa plataforma, que apresentaremos brevemente. Queremos mostrar que estamos juntos de norte a sul, de leste a oeste, nestes pontos.
Depois, vamos continuar a tentar usar todas as ocasiões que pudermos para estabelecer uma agenda verde progressista e de esquerda e para nos ajudarmos mutuamente, para nos fortalecermos.

Terão, portanto, novas iniciativas conjuntas e uma comunicação comum?
Sim, claro. Faremos atividades conjuntas que irão realçar as prioridades do nosso programa, como a defesa dos trabalhadores, a luta contra a austeridade e o necessário investimento numa transição verde justa. Assim como a proteção dos direitos humanos que vemos ameaçados, tanto em Gaza, mas também dentro da União Europeia. Quando olhamos para a direita autoritária e para os regimes em alguns países da União Europeia, como a Hungria, temos de nos alarmar.
O Novo Pacto para as Migrações e Asilo é outro exemplo?
Sem dúvida. As políticas brutais e cínicas do pacto de migração certamente não levarão a que menos pessoas fujam dos seus países. O seu resultado será que mais pessoas morrerão na tentativa de fugir da guerra e da opressão. As pessoas continuarão a vir, mas serão tratadas ainda pior. Muito pior.