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Espanha: o poder económico e o seu escudo protetor

Neste artigo sobre a situação política em Espanha e na Europa, Manuel Monereo defende que “a tarefa do momento é pensar estrategicamente” e que o verdadeiro poder de Unidas Podemos é o de “impedir medidas antissociais” e tentar aprovar propostas que reforcem o Estado Social.
“Comissão Europeia quer ganhar tempo para voltar às inexoráveis leis do ordoliberalismo alemão” – Foto do Edifício da Comissão Europeia com bandeiras da União Europeia
“Comissão Europeia quer ganhar tempo para voltar às inexoráveis leis do ordoliberalismo alemão” – Foto do Edifício da Comissão Europeia com bandeiras da União Europeia

Para Susana López camarada e amiga

"Sabem que as alternativas realistas, quando um partido toma posse do governo são: a) uma implementação contínua do programa prometido, ou, b) uma rápida transição para o que se chamou" administração da crise", ou c) uma mistura, em proporções criticamente variáveis, de a e b. ” Raymond Williams (1983)

A tarefa do momento é pensar estrategicamente. Os milhares de infetados e de mortos acumulam-se na nossa mente; a dor, o sofrimento em massa e o medo do futuro dificultam-nos pensar, sobretudo, a longo prazo. Os que mandam e não se apresentam às eleições estão acostumados a operar numa perspetiva global. A chave é a antecipação e tirar vantagem disso. Dá a sensação de que o governo vive no dia-a-dia, carece de uma análise solvente da realidade e não é capaz de definir as suas principais prioridades.

A tarefa do momento é pensar estrategicamente

Há muitos anos, Raymond Williams falou do "Plano X". Referia-se a um modo específico de pensar das elites dominantes caraterizado por: a) uma análise implacável da realidade, ainda mais dura do que os catastrofistas costumam prever; b) o convencimento de que as tendências básicas dificilmente são reversíveis; e c) o decisivo é tirar vantagem, adiantar-se na proposta e dirigir os processos. Por isso, falei antes da importância de um pensamento estratégico.

Face ao que geralmente se costuma pensar, a realidade é um complexo onde se entrecruzam tendências que apontam e possibilitam estratégias diferenciadas. É bom partir daqui. Quando chega a crise, os poderes têm medo, organizam-se, mobilizam-se e dotam-se de um plano X. Estamos nisso há meses. Enquanto que o governo, as administrações públicas e os funcionários fazem enormes esforços para controlar a pandemia, eles estão a definir os cenários futuros e a tentar antecipar-se. A política é algo maior que o político; ficar apenas neste último é equivocar-se. O pior é o silêncio ensurdecedor da esquerda social e cultural.

Poderes dominantes querem novos planos de austeridade

Atendendo ao que os tertulianos dizem, os jornalistas confirmam e os pesquisadores analisam, parece que estamos numa guerra, diante de um conflito de difícil saída. Muitos falam de um cenário semelhante ao da II República e outros anunciam golpes palacianos num momento não bom para a Casa dos Bourbons. Isto é "o político", mas a "política" vai muito além. O que está em fundo é uma luta gritante por e no poder. Os que mandam sabem que as crises têm várias possibilidades de saída, temem perder os seus privilégios, a sua enorme influência sobre a classe política e, acima de tudo, o seu controle sobre o Estado. Estão a mover-se para um horizonte que coloque o governo e a sociedade num tal estado de necessidade que sejam obrigados a aceitar a direção económica da União Europeia (UE) e novos planos de austeridade. Este estado de exceção económica – isto já sabemos - será acompanhado por novos mecanismos de controle sobre as populações que impeçam a mobilização, a luta social e a saída, de uma vez por todas, do neoliberalismo.

Estão a mover-se para um horizonte que coloque o governo e a sociedade num tal estado de necessidade que sejam obrigados a aceitar a direção económica da UE e novos planos de austeridade

O seu problema está no governo. As classes dominantes nunca tiveram dificuldades com o PSOE, mas não confiam em Pedro Sánchez; temem que acredite no que diz, que tome medidas inadequadas e que não enfrente bem os cenários que cuidadosamente estão a preparar. Eles sabem exatamente o que está a acontecer no Conselho de Ministros, têm informações em primeira mão e expressam uma crescente preocupação com o que se decide e com o que se pode decidir. Sobredimensionar a figura de Pablo Iglesias, acentuar a importância das ministras da UP (Unidas Podemos), tem como objetivo atingir Pedro Sánchez. Se conseguissem romper o governo, seria um sinal inequívoco de que o bom senso se impõe e de que têm a situação controlada. Por agora, o verdadeiro poder da UP é o veto, ou seja, impedir medidas antissociais e tentar ir além com propostas que reforcem o nosso debilitado Estado Social.

O escudo social que protege os grandes poderes económicos

Tem-se falado muito do escudo social; isto é, de fortalecer as redes que protegem os assalariados, os idosos e, em geral, os setores mais fracos. O que nunca conseguimos ver é o escudo social que protege aqueles que mandam e não concorrem a eleições, os grandes poderes económicos. Deve-se sempre assumir que na sociedade capitalista, as classes economicamente dominantes têm um poder estrutural e que, consequentemente, existe uma desigualdade básica, substancial. É necessário refinar mais a análise. Quais são os elementos que configuram o escudo social dos poderosos?

 

Em primeiro lugar, a União Europeia. Dá um pouco de vergonha falar destas coisas depois do que aconteceu em 2008 e do que está a acontecer agora, os preconceitos ideológicos continuam a ser muito fortes. As classes dominantes do sul da Europa apostaram claramente no projeto europeu definido em Maastricht porque tinham medo da democracia, do conflito social e do pluralismo político. O envolvimento com a Europa do euro foi um mecanismo decisivo para disciplinar as economias, submetê-las a um ajustamento permanente e debilitar a capacidade contratual das classes trabalhadoras. Nenhum governo (em Itália, França, Espanha) teria durado muito tempo aplicando as políticas neoliberais e as regras férreas da estabilidade financeira se realmente houvesse soberania política. A UE é hoje a garantia máxima de que os interesses das classes economicamente dominantes prevalecerão. Por isso, na hora da verdade, não há grandes diferenças entre os governos do Sul singularmente considerados e as instituições europeias; é um "jogo" que a Alemanha ganha sempre.

 

Em segundo lugar, o forte controle dos meios de comunicação por parte do capital financeiro. Isto foi bastante acentuado na crise anterior e agora será ainda mais relevante. Nem há que enganar sobre isto. A pluralidade tem a ver com os diferentes modos e formas de aplicar o neoliberalismo; pode-se falar de uma direita e de uma esquerda neoliberal. O pensamento único tornou-se uma política económica única. No final, aceitam-se as diretrizes que vêm da UE e dir-se-á repetidamente que não há alternativa ou que esta seria pior; isto é, sair do euro e pôr em questão a UE. É uma chantagem discursiva que foi usada e será usada no futuro.

 

Em terceiro lugar, as direitas e uma parte significativa do Partido Socialista. O coronavírus pôs em relevo, com muita clareza, a verdadeira face das direitas e a sua unidade de ação. O material com que trabalham é muito simples: criminalizar o governo pelos mortos - e até pelo vírus - para minar a sua legitimidade e forçá-lo a convocar eleições o mais rápido possível. O Vox deu tudo o que se esperava, neoliberalismo, autoritarismo e uma absoluta falta de um projeto de país. É importante não se perder muito nisso. PP, Vox e Ciudadanos representam fortemente os interesses das classes economicamente dominantes. Antes falei da UE. Agora pode-se ver a outra face: a nossa histórica burguesia patrimonialista não tem problema em alienar a soberania e a independência nacionais, desde que possam continuar a controlar a cidadania e a impor os seus critérios económicos e políticos. O seu nacionalismo é perfeitamente compatível com sua subordinação a interesses estrangeiros e a projetos que nos convertam num país economicamente dependente e politicamente submetido.

Pensar estrategicamente significa preparar-se ativamente para o confronto que está para vir, analisar com precisão a correlação de forças imperante e organizar um bloco alternativo

Em quarto lugar, a direção da economia em sentido estrito. Não há dúvida nenhuma sobre o domínio que exerce o capitalismo financeiro sobre os grupos empresariais, os meios de comunicação e o governo económico do país. É a "mão visível" de uma hegemonia baseada em específicas e tradicionais relações com o poder político de uma plutocracia dependente da despesa pública e com infinitas capacidades para gerar corrupção em todo o sistema. É preciso insistir que os poderes fáticos optaram há décadas por serem a periferia de uma Europa alemã. Este é o seu verdadeiro projeto político. As políticas neoliberais significam para a Espanha aceitar a divisão do trabalho imperante na UE, renunciar a uma indústria própria e diversificada, à soberania alimentar, a um setor energético poderoso e crescentemente autónomo, ao pleno emprego e a um trabalho digno. Em suma, ir debilitando progressivamente um Estado Social que nunca atingiu o nível requerido.

 

Pensar estrategicamente significa preparar-se ativamente para o confronto que está para vir, analisar com precisão a correlação de forças imperante e organizar um bloco alternativo. O que acontecerá no futuro vai depender em grande parte do governo, da sua coerência política, da sua coragem; da sua capacidade para definir um projeto de reconstrução económica, social e política ao serviço das maiorias sociais, de subordinar o mercado capitalista às necessidades básicas das pessoas. O sinal de que se está a falar a sério é simples: procurar o apoio do povo e promover a sua mobilização, saindo do Palácio e passando à ofensiva político-cultural.

Comissão Europeia quer ganhar tempo para voltar às leis do ordoliberalismo alemão

Devemos antecipar e evitar o cenário que está a ser preparado para os próximos meses, a saber, situar-nos perante o dilema de ser resgatados ou abandonar a União Europeia, no meio de uma gravíssima crise económica, com um desemprego brutal e com grandes problemas fiscais. É o momento de enfrentar as políticas neoliberais das instituições da UE, pondo em questão as regras dos Tratados e exigindo monetizar e mutualizar a dívida.

A Comissão está perante a sua estratégia favorita: ganhar tempo para que o pior da pandemia tenha passado e voltar às inexoráveis leis do ordoliberalismo alemão. É agora ou amanhã será demasiado tarde. A Europa alemã do euro não é viável sem a Itália e a Espanha. Isto deve ser claramente colocado na negociação. No final, certamente, haverá que escolher entre defender os interesses nacionais e populares ou aceitar as políticas austericidas. A chave, como sempre, é tomar a iniciativa, marcar o território e saber para onde se quer ir. As batalhas que não acontecem são sempre perdidas.

Artigo de Manuel Monereo, publicado em Cuarto Poder, a 5 de maio de 2020. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

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