Empréstimo à Grécia: Europa tira dinheiro de um bolso para pôr no outro

15 de novembro 2012 - 11:28

A Grécia está insolvente já há três anos. Desde essa data, a zona euro tem estado a emprestar enormes quantias ao governo grego para manter a ilusão de que um (segundo) default é evitável. Artigo de Yanis Varoufakis.

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O FMI está a dizer à Europa: “Já chega! Admitamos! Chegou a hora de reconhecer que a Grécia tem de declarar default e que uma grande parte da sua dívida tem de ser anulada.” Foto de mkhalili

Todos já ouviram a afirmação de que a Grécia está à beira da bancarrota oficial por a Europa não lhe entregar os fundos que permitiriam que o governo grego continuasse a fingir que não está insolvente – resgatando títulos que estão à beira de maturação, na posse do Banco Central Europeu. A verdade é que a Grécia está insolvente já há três anos. Desde essa data, a zona euro tem emprestado enormes quantias ao governo grego para manter a ilusão de que um (segundo1) default é evitável. A Europa tira dinheiro de um dos bolsos para pôr no outro e, enquanto faz isso, afirma ter evitado a bancarrota da Grécia. A questão é que agora correm o risco de ficar sem bolsos porque as três partes da troika de credores da Grécia (FMI, UE e BCE) começaram a divergir entre si em relação ao que fazer com a Grécia.

O FMI está a dizer à Europa: “Já chega! Admitamos! Chegou a hora de reconhecer que a Grécia tem de declarar default e que uma grande parte da sua dívida tem de ser anulada.”

O BCE está a dizer aos políticos europeus (particularmente em Berlim): “Entreguem à Grécia as tranches dos empréstimos com base no dinheiro dos contribuintes, porque nós, o BCE, não estamos preparados para imprimir mais dinheiro para eles – através da ELA (Emergency Liquidity Assistance – Assistência de Liquidez de Emergência).

Entretanto, os políticos europeus resistem à proposta do FMI (negando-se teimosamente a admitir a falência dos seus planos para a Grécia) mas não podem conceder mais empréstimos sem a cobertura de respeitabilidade dada pelo FMI. Para evitar um defaultnas próximas horas, vão acabar por descobrir um truque novo que siga a linha da austeridade ponzi. O mais provável é que peçam a Atenas que recorra ao fundo de recapitalização dos bancos gregos para pagar ao BCE nos próximos dias (prometendo que vão autorizar que o fundo de recapitalização dos bancos seja reconstituído logo que as tranches de 31,5 mil milhões forem entregues, logo que o FMI e a Europa resolvam as suas divergências).

Entretanto, a economia social grega afunda-se mais e mais profundamente, sob as medidas de austeridade que são a condição para manter esperança de receber mais tranches deste empréstimo tóxico. O resto é pura catástrofe; nem sequer tragédia (até porque as tragédias acabam em catarse).

Traduzido do blog de Yanis Varoufakis

13 novembro de 2012

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

1Em fevereiro deste ano, a Grécia declarou default aos investidores privados, que tiveram de aceitar a uma grande redução da dívida de 75% do seu valor bruto. Contudo, a Europa garantiu que este default (mesmo apesar de os contratos de CDS terem sido ativados) não fosse chamado de 'default'.