"Mesmo ao fim de cinco meses de hostilidades brutais, Gaza ainda consegue surpreender-nos". As palavras são do subsecretário da ONU para os Assuntos Humanitários, Martin Griffiths, após ter tido conhecimento do que já é qualificado como um dos massacres mais vergonhosos do conflito, com as autoridades de saúde de Gaza a confirmarem a existência de pelo menos 104 mortos.
Desta vez as vítimas foram centenas de palestinianos na cidade de Gaza, que há semanas não recebem ajuda humanitária ou comida. Segundo os relatos recolhidos pela imprensa, centenas de pessoas concentraram-se na rotunda de Nabulsi, local onde era suposto chegarem alguns camiões transportando comida e ajuda humanitária. E em vez de comida, acabaram por receber as balas dos soldados israelitas que dispararam indiscriminadamente sobre a multidão.
Segundo contou à Associated Press Kamel Abu Nahel, um dos feridos a receber tratamento no hospital Shifa, ele chegou ao local com alguns companheiros ainda a meio da noite para esperar pelos camiões, pois "andamos a comer comida para animais há dois meses". Contou que quando os camiões chegaram os soldados israelitas começaram a disparar e a multidão dispersou. Quanto parou o som das balas, as pessoas voltaram a aproximar-se dos camiões e os soldados começaram de novo a disparar. Além do ferimento de bala numa perna, que o fez cair, Kamel ainda viu o camião passar-lhe por cima das pernas quando acelerou para fugir do local.
O chefe do serviço de ambulâncias do hospital de Kamal Adwan diz que viu "dezenas ou centenas" de pessoas caídas no chão. Fares Afana afirma que não há ambulâncias suficientes para recolher todos os mortos e feridos e que muitos foram retirados em carroças puxadas por burros.
Hamas ameaça interromper negociações
O Hamas reagiu ao massacre afirmando à Reuters que "as negociações conduzidas pela direção do nosso movimento não são um processo aberto às custas do sangue do nosso povo", deixando antever um recuo nas negociações em curso no Qatar para a libertação de mais reféns.
Para o presidente da Autoridade Palestiniana Mahmoud Abbas, "o assassínio deste grande número de vítimas civis inocentes que arriscaram os seus próprios meios de subsistência é considerado parte integrante da guerra genocida cometida pelo governo de ocupação contra o nosso povo". Abbas defende que as autoridades israelitas "têm toda a responsabilidade e responderão por isso perante os tribunais internacionais".
A Jordânia e o Egito condenaram o massacre da rotunda de Nabulsi, com a diplomacia jordana a falar num "ataque brutal das forças de ocupação israelitas à concentração de palestinianos que aguardavam ajuda", enquanto o Egito diz que "atacar cidadãos pacíficos que se apressam a ir buscar a sua parte da ajuda é um crime vergonhoso e uma violação flagrante do direito internacional".
De Washington veio uma nota do porta-voz do conselho nacional de segurança dos EUA a afirmar que se trata "de um incidente grave e estamos a analisar os relatórios. Lamentamos a perda de vidas inocentes e reconhecemos a terrível situação humanitária em Gaza, onde palestinianos inocentes estão apenas a tentar alimentar as suas famílias. Este facto sublinha a importância de alargar e manter o fluxo de assistência humanitária a Gaza, nomeadamente através de um eventual cessar-fogo temporário".
Por seu lado, o exército israelita começou por acusar os civis palestinianos de terem atacado os camiões que lhes vinham trazer comida, admitindo ter disparado contra grupos que tentaram atacar os soldados e um tanque.