O Atlas dos Pesticidas, lançado esta terça-feira, mostra que o uso de pesticidas aumentou 80% a nível mundial desde 1990. Este estudo, da responsabilidade dos Amigos da Terra – Europa, da Rede para a Ação sobre os Pesticidas, que junta 600 organizações não governamentais, instituições e indivíduos de mais de 60 países, e da Heinrich-Böll-Stiftung, um instituto associado ao Verdes Alemães, salienta ainda que, em 2023, o valor total dos pesticidas usados a nível mundial andará à volta dos 130,7 mil milhões de dólares.
Neste Atlas, a Europa surge destacada como “um dos maiores mercados de pesticidas com quase um quarto de todos os pesticidas vendidos na União Europeia”. Este espaço económico está também no topo das exportações, “vendendo cada vez mais a países do Sul Global, para onde pesticidas atualmente banidos na União Europeia podem ser exportados”. Avança-se, por exemplo, a informação de que, em 2018, as grandes empresas agro-químicas da Europa planeavam exportar 81.000 toneladas de pesticidas proibidos internamente. E acrescenta-se que, nesse mesmo ano, 40% de todos os pesticidas usados no Mali e no Quénia foram considerados altamente perigosos, assim como 65% dos pesticidas usados em quatro estados da Nigéria.
A análise dá ainda conta de que o mercado é dividido entre “um pequeno número de empresas do Norte Global”. Outro dos números que surge no relatório é que as quatro maiores empresas do ramo, o grupo Syngenta, a Bayer, a Corteva e a BASF, controlam “cerca de 70% do mercado de pesticidas globais”.
Os especialistas que assinam o documento salientam que “o uso de pesticidas é fatal para a biodiversidade”. Sendo que os campos em que são têm cinco vezes menos riqueza de espécies vegetais e vinte vezes menos riqueza de espécies polinizadoras em comparação com os campos orgânicos. Desde 1990, isto conduziu a uma queda de 30% das aves nos campos e borboletas. Quase uma em cada dez das abelhas da Europa estão ameaçadas.
O uso de pesticidas tem também outras consequências nefastas: “de acordo com cálculos conservadores há cerca de 255 milhões de incidentes de envenenamento na Ásia, pouco mais de 100 milhões em África e perto de 1,6 milhões na Europa”. Serão ao todo, 385 milhões a cada ano. 11.000 destas pessoas morrem.
Sublinha-se igualmente que os ingredientes ativos dos pesticidas “habitualmente não ficam só nos locais onde são aplicados”, impregnam-se nos solos e nos lençóis freáticos, no ar e “alguns podem ser encontrados a mais 1.000 quilómetros de distância”.
Nota-se ainda que, ao contrário das promessas das empresas do setor agro-químico, o cultivo de plantas geneticamente modificadas não diminuiu o seu uso. Pelo contrário.
Clara Bourgin, os Amigos da Terra – Europa pensa que “as provas são impressionantes, o atual sistema alimentar baseado no uso pesado de produtos químicos venenosos está a falhar gravemente aos agricultores e consumidores e a alimentar o colapso da biodiversidade”. Para ela, a União Europeia “precisa parar de fechar os olhos para o comércio cada vez mais tóxico do agro-negócio e ouvir os seus cidadãos”.
Por sua vez, Martin Dermine, diretor-executivo da rede sobre os Pesticidas reconhece que “a lei da União Europeia está feita para proteger os cidadãos e o ambiente contra os pesticidas mas observamos que tanto a Comissão Europeia quanto os Estados Membros não a implementam corretamente e dão prioridade ao agro-negócio”.
Estas organizações exigem metas de redução dos pesticidas “mais ambiciosas”, mais “apoio efetivo aos agricultores na sua transição para a agro-ecologica” e o fim da exportação dos pesticidas proibidos para países terceiros.