Após várias complicações de saúde que se vinham agravando, morreu o Eduardo Silva.
A vida do Eduardo está intimamente ligada à história da luta pela habitação que se gerou logo nos primeiros dias da Revolução de 25 de abril de 1974. Em Setúbal, sua terra natal, mas também pelo país.
Nascido e criado numa barraca do Castelo Velho, um dos mais periféricos e abandonados bairros de lata da cidade do Sado, aí ganhou raízes e laços de vizinhança até decidir desertar da guerra colonial e “dar o salto” para França, como milhares de jovens como ele. Nos arredores de Paris deparou com os impressionantes bairros de barracas, os “bidonvilles” onde os portugueses viviam. Aí participa em atividades culturais e anti-salazaristas, onde conhece cantores da resistência exilados, como Tino Flores e José Mário Branco. Frequenta os meios da resistência e as redes de apoio aos emigrantes e desertores da guerra colonial, o que lhe permite emigrar para a Holanda.
Quando a Revolução dos Cravos se consolida, rapidamente regressa a Portugal. Ao seu bairro, em Setúbal. Recorde-se que nas vésperas do 25 de Abril cerca de um quarto da população de Setúbal vivia em barracas, como consta de documentos internos e não divulgados na época pela Câmara fascista. E é então que ele assume protagonismo como um dos organizadores do movimento de moradores dos inúmeros bairros de barracas de Setúbal que culmina com a construção dos bairros SAAL, com a passagem unida e solidária das famílias das barracas para as novas casas. O Bairro de barracas do Castelo Velho foi substituído pelo Bairro de vivendas do Grito do Povo, a poucas dezenas de metros de distância, numa zona com vistas sobre o mar. Foi um dos primeiros a ter casas construídas, que logo acolheram as famílias mais vulneráveis das barracas.
Os bairros SAAL foram-se desenvolvendo pela cidade, pelas principais cidades, do Minho ao Algarve, lutas lideradas sobretudo pelas mulheres dos bairros de barracas, como no caso do Bairro do Eduardo. A sua mãe, Maria da Lucha, era a principal porta voz do movimento para a comunicação social da época, nomeadamente a RTP. Ela e outras vizinhas é que iam sempre à frente!
A história dos Bairros SAAL continua a ser escrita e desvendada nos últimos tempos. Nascidos da Revolução, estes bairros forram arrancados a ferros, face à apatia ou mesmo oposição de governos e câmaras. Até hoje! Alguns ficaram mesmo pelo caminho, outros ficaram a meio…
O Eduardo participou em várias obras, expondo o seu testemunho. É o caso dos livros “Fartas de viver na Lama” e “Outro Mundo no mesmo Lugar - Setúbal, a cidade das barracas”, bem como nos documentários “Das barracas à dignidade” de Leonardo Silva e “O nosso filme” de João Bordeira.
O Bairro do Eduardo, O Grito do Povo, construído pelas pessoas com fundos públicos, só há poucos anos conheceu arruamentos, parte das casas carecem de substituição urgente dos telhados de amianto e o edificado precisa urgentemente de ser reparado e recuperado. As pessoas já vivem dignamente, mas a luta não terminou. Não termina nunca, como nos mostrou o Eduardo.
Nas últimas campanhas do Bloco o Eduardo esteve por várias vezes presente, como amigo e simpatizante.
O Esquerda.net apresenta os seus pêsames à família e amigos do Eduardo.
O velório decorre nesta quarta -feira pelas 18.45h na Igreja da Anunciada, em Setúbal e o funeral parte às 14.45h de quinta feira.