Obituário

Eduardo Silva (1952-2026): Na luta por um dos primeiros bairros SAAL do país

10 de fevereiro 2026 - 17:54

A vida do Eduardo está intimamente ligada à história da luta pela habitação que se gerou logo nos primeiros dias da Revolução de 25 de abril de 1974. Em Setúbal, sua terra natal, mas também pelo país.

porJaime Pinho

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Eduardo Silva
Eduardo Silva

Após várias complicações de saúde que se vinham agravando, morreu o Eduardo Silva.

A vida do Eduardo está intimamente ligada à história da luta pela habitação que se gerou logo nos primeiros dias da Revolução de 25 de abril de 1974. Em Setúbal, sua terra natal, mas também pelo país.

Nascido e criado numa barraca do Castelo Velho, um dos mais periféricos e abandonados bairros de lata da cidade do Sado, aí ganhou raízes e laços de vizinhança até decidir desertar da guerra colonial e “dar o salto” para França, como milhares de jovens como ele. Nos arredores de Paris deparou com os impressionantes bairros de barracas, os “bidonvilles” onde os portugueses viviam. Aí participa em atividades culturais e anti-salazaristas, onde conhece cantores da resistência exilados, como Tino Flores e José Mário Branco. Frequenta os meios da resistência e as redes de apoio aos emigrantes e desertores da guerra colonial, o que lhe permite emigrar para a Holanda.

Quando a Revolução dos Cravos se consolida, rapidamente regressa a Portugal. Ao seu bairro, em Setúbal. Recorde-se que nas vésperas do 25 de Abril cerca de um quarto da população de Setúbal vivia em barracas, como consta de documentos internos e não divulgados na época pela Câmara fascista. E é então que ele assume protagonismo como um dos organizadores do movimento de moradores dos inúmeros bairros de barracas de Setúbal que culmina com a construção dos bairros SAAL, com a passagem unida e solidária das famílias das barracas para as novas casas. O Bairro de barracas do Castelo Velho foi substituído pelo Bairro de vivendas do Grito do Povo, a poucas dezenas de metros de distância, numa zona com vistas sobre o mar. Foi um dos primeiros a ter casas construídas, que logo acolheram as famílias mais vulneráveis das barracas.

Os bairros SAAL foram-se desenvolvendo pela cidade, pelas principais cidades, do Minho ao Algarve, lutas lideradas sobretudo pelas mulheres dos bairros de barracas, como no caso do Bairro do Eduardo. A sua mãe, Maria da Lucha, era a principal porta voz do movimento para a comunicação social da época, nomeadamente a RTP. Ela e outras vizinhas é que iam sempre à frente!

A história dos Bairros SAAL continua a ser escrita e desvendada nos últimos tempos. Nascidos da Revolução, estes bairros forram arrancados a ferros, face à apatia ou mesmo oposição de governos e câmaras. Até hoje! Alguns ficaram mesmo pelo caminho, outros ficaram a meio…

O Eduardo participou em várias obras, expondo o seu testemunho. É o caso dos livros “Fartas de viver na Lama” e “Outro Mundo no mesmo Lugar - Setúbal, a cidade das barracas”, bem como nos documentários “Das barracas à dignidade” de Leonardo Silva e “O nosso filme” de João Bordeira.

O Bairro do Eduardo, O Grito do Povo, construído pelas pessoas com fundos públicos, só há poucos anos conheceu arruamentos, parte das casas carecem de substituição urgente dos telhados de amianto e o edificado precisa urgentemente de ser reparado e recuperado. As pessoas já vivem dignamente, mas a luta não terminou. Não termina nunca, como nos mostrou o Eduardo.

Nas últimas campanhas do Bloco o Eduardo esteve por várias vezes presente, como amigo e simpatizante.

O Esquerda.net apresenta os seus pêsames à família e amigos do Eduardo.

O velório decorre nesta quarta -feira pelas 18.45h na Igreja da Anunciada, em Setúbal e o funeral parte às 14.45h de quinta feira.

Jaime Pinho
Sobre o/a autor(a)

Jaime Pinho

Professor de História
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