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"É possível considerar herói um homem que está carregado de crimes?”

O historiador Fernando Rosas afirma que Marcelino da Mata foi "indiscutivelmente" um criminoso de guerra e que só não foi chamado à justiça "porque foi protegido quer pela ditadura, quer pelos comandos militares”. Bloco votou contra o voto de pesar na AR. (Notícia atualizada)
Fernando Rosas - Imagem retirada do debate da TVI

Na TVI, o historiador Fernando Rosas falou sobre Marcelino da Mata e considerou que foi “um homem que traiu a causa nacional do seu país através de uma ação dentro de um corpo de tropa especial, os Comandos, onde é acusado de cometer crimes gravíssimos”.

Segundo o historiador, “trata-se de um homem que não foi chamado à justiça porque foi protegido, quer pela ditadura, quer pelos comandos militares” e acrescentou que “acho que Marcelino da Mata é um criminoso de guerra, indiscutivelmente”.

“Não estou de acordo em que se fuzile ninguém sem julgamento, coisa que fez o Marcelino da Mata frequentemente. Não estou de acordo com o que se terá passado no Ralis, mas o que estamos a discutir é o Marcelino da Mata comandante dos Comandos durante a Guerra Colonial na Guiné”, afirmou Fernando Rosas.

O historiador e fundador do Bloco questiona: “É possível considerar herói um homem que está carregado de crimes?”

Numa publicação nas redes sociais, o escritor Mário Cláudio confirma essa impunidade de que gozava Marcelino da Mata durante a Guerra Colonial. “Como jurista a cumprir a minha comissão no Serviço de Justiça, no Quartel General em Bissau, fui muitas vezes encarregado de informar processos-crimes e disciplinares, motivados pelo comportamento ilícito, e por vezes atrozmente delitual, deste militar”, recorda o escritor. Mas “a despeito das reiteradas propostas da sua responsabilização pelas infrações em que incorria, muitas delas de extrema gravidade, os autos, que não poderiam deixar de lhe ser levantados, terminavam infalivelmente no arquivamento sumário, por ordem superior sem rosto”, acrescenta Mário Cláudio.

Bloco votou contra voto de pesar de Marcelino da Mata

Esta tarde foi votado, por proposta da Comissão Parlamentar de Defesa, um voto de pesar pelo falecimento do tenente-coronel Marcelino da Mata. O voto contou com os votos a favor do PS, PSD, CDS-PP, Chega e Iniciativa Liberal, e com os votos contra do Bloco, PCP, Verdes, PAN, da deputada não-inscrita Joacine Katar Moreira e de três deputados do PS (Ascenso Simões, Paulo Pisco e Eduardo Barroco de Melo).
 
Já a deputada não-inscrita Cristina Rodrigues e os deputados do PS Porfírio Silva, Miguel Matos, Maria Begonha, Cláudia Santos, Joana Sá Pereira e Bruno Aragão abstiveram-se.
 
O grupo parlamentar do Bloco de Esquerda entregou uma declaração de voto que reproduzimos na íntegra:
 
O projeto de voto de pesar apresentado insiste na tese de Marcelino da Mata como “um dos oficiais mais condecorados do Exército português”. Esta afirmação, que omite completamente o contexto político em que a quase totalidade das condecorações aconteceram, é uma forma parcial de contar a história deste militar português. Esta omissão é, em si, uma posição política que normaliza o contexto ditatorial e da guerra colonial em que os feitos militares foram aclamados pelas hierarquias militares e políticas.
 
A escolha de contar o percurso apenas de forma parcial pretende omitir várias acusações que pendem sobre a conduta militar e humana de Marcelino da Mata. Vários militares, reconhecidos pelo regime democrático, que conheceram de perto o percurso de Marcelino da Mata, não têm qualquer dúvida em classificar como “crimes de guerra” os atos pelos quais a ditadura condecorou o militar.
 
O processo de promoção de Marcelino da Mata pretende revisitar e normalizar as atrocidades cometidas em contexto de guerra colonial. Este tentativa de reescrever a memória histórica do país é um insulto a todas e todos que lutaram pela liberdade, em Portugal e nos países africanos ocupados, e construíram a democracia no nosso país. A apresentação deste voto é uma vergonha para o Portugal de Abril, pretende transformar em herói nacional um militar que levou a cabo crimes de guerra. O Bloco de Esquerda repudia veementemente esta intenção, motivo pelo qual votou contra o projeto de voto de pesar.
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