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"É irreal que nos cursos de cinema não aprendam História do cinema português"

Entrevista sobre o panorama do cinema português a Miguel Gonçalves Mendes, realizador, entre outros filmes, de “José e Pilar”.
Miguel Gonçalves Mendes
Miguel Gonçalves Mendes

Esta entrevista foi conduzida por Mariana Gomes e faz parte do décimo segundo programa Mais Esquerda, e pode ser lida em resumo em baixo e vista na íntegra. O programa pode ser visto aqui, conta ainda com uma reportagem sobre a remunicipalização da água em Mafra (aqui) e um comentário de Ricardo Robles sobre o documentário "Terramotourism", do coletivo Left Hand Rotation (aqui).

No início de dezembro escreveste uma carta aberta sobre o panorama do cinema português (publicada no jornal Público, que pode ser lida aqui). Qual é o diagnóstico que fazes da situação atual?

É difícil fazer esse diagnóstico de uma forma tão sucinta. Na primeira parte do artigo, faço um diagnóstico do modus operandi cultural do próprio país, não tanto a ver com o cinema, mas com falhas ou características que acho que nos são endémicas ancestralmente, e que acho que só indentificando-as é que as podemos combater. Depois enuncio uma série de propostas em relação ao cinema, que acho que podem vir a melhorar ou a desbloquear o cinema. Obviamente, chamo a atenção para uma série de coisas erradas de atuação por parte do Instituto do Cinema, por parte das próprias universidades, por parte das próprias distribuidoras. 

O que eu digo em relação a Portugal, é que desde 1500 que somos governados por uma elite endinheirada que tem vergonha do seu próprio povo, tem vergonha das suas origens, e que nunca na vida pensou no que é o bem comum geral. Se pensarmos, por exemplo, na cultura anglo-saxónica, nos Estados Unidos e em Inglaterra, por mais que socialmente eles não sejam um bom exemplo, nesses países a filantropia sempre existiu ao longo da História, e mantém-se até aos dias de hoje. 

Em Portugal, não. As nossas elites pura e simplesmente sempre se demitiram de contribuir para o bem comum. Acham que as artes, ou a cultura em geral, é saber tocar piano, falar francês, ter uns bibelots lá em casa, umas antiguidades na casa da mãe. Acho lamentável a não existência da luta pelo bem comum. E num país que tem uma escala familiar temos que perceber que é muito fácil existir um grande tráfico de influências que bloqueia e que mina qualquer novo grupo ou criador que surja. Nesse sentido, defendo que encontremos mecanismos para travar esse processo, caso contrário existe uma geração mais nova que quer criar, e que não tem acesso a qualquer linha de apoio. Chegamos quase à esquizofrenia de parecer que os novos criadores só poderão criar quando toda uma geração desapareça e as coisas não podem ser assim.

Isso não acontece só no cinema, dizes bem. Artes plásticas, teatro…

Sim, é geral. Digo esta frase que é um bocado forte de "Portugal brincar aos países e ao cinema", mas a verdade é que isto também se coloca em termos políticos e de atuação política, não temos um desígnio, uma estratégia. O que parece é que chega um governo, implementa determinadas medidas, chega outro, vai tudo abaixo. É como se estivéssemos sistematicamente a construir do zero e nada sedimenta.

E que medidas específicas propões para a revalorização do cinema português?

Para escrever o texto, entrei em contacto com diversas universidades, distribuidores e com o Instituto de Cinema. E, no caso do Instituto do Cinema, aconteceu uma coisa risível. Perguntei-lhes qual era a estratégia a longo prazo que tinham para o cinema português e eles disseram que não tinham tempo para o escrever. Não tinham tempo para o escrever, mas isso não está feito? Não foi pensado? O Instituto de Cinema tem 45 trabalhadores. A maioria das produtoras em Portugal tem 2 ou 3 funcionários e conseguem produzir muito mais do que o Instituto de Cinema. O Instituto de Cinema, existindo há 40 anos, nunca fez nenhum plano para tentar minimizar o divórcio que existe entre o público e a cinematografia nacional.

As pessoas acham, estão convencidas, que o cinema português é chato, insuportável e intransponível. Mas todas as cinematografias têm filmes bons e filmes maus, e Portugal tem filmes maus, mas também tem filmes muito bons. Essa validação formal e pública da relação das pessoas na forma como lidam com o cinema português acontece com uma piada dos anos 80 do Herman em que ele diz que o cinema português é um plano do Manoel de Oliveira de meia hora de uma árvore chato e intransponível. Coitado do Manoel de Oliveira que fez tanto por nós em termos de prestígio internacional e que também tem tantos bons filmes. E isto é fácil, qualquer empresa de comunicação consegue mudar esta imagem e tu consegues comunicar com um público mais jovem.

Por outro lado, é absolutamente irreal que os cursos de cinema não tenham uma unidade curricular com a História do cinema português. Isto é, nem os próprios alunos que fazem cinema português, ou que irão fazer, em abstrato, cinema português, conhecem os maus ou os bons exemplos que foram realizados antes. Os futuros profissionais do cinema têm de saber o que é a sua cinematografia, porque a nossa cinematografia não é de Hollywood, não são equipas de 500 pessoas. Muitas vezes temos alunos que saem, principalmente da Escola Superior de Teatro e Cinema, com noções totalmente erradas e que depois mimetizam as mesmas falhas cá fora.

Depois, há outra coisa que me incomoda que é que 6 milhões e meio de pessoas vivem a norte de Lisboa, perdão e nós continuamos a olhar para tudo como se fosse centralizado em Lisboa. Em questões culturais e no jornalismo cultural é que é vergonha absoluta. A gestão informativa de ocorrências e atividades culturais, resume-se a Lisboa, não tens notícias do que está a acontecer no resto do país, nem sequer no Porto. E num país que produz 12 longas metragens por ano, a estreia de um filme, mesmo que seja uma merda absoluta, é notícia e não publicares nem que seja uma reportagem a dizer que o filme é mau, é estares a sonegar informação. E isso acontece em Portugal.

 

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