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Doclisboa 2021: “A imaginação como espaço para a potencial materialização de utopias”

Entre 21 e 31 de outubro, a 19ª edição do Doclisboa será “bastante intensa e viva”, ocupando vários espaços da cidade. A abertura é já esta quinta-feira, com dois gestos de resistência, pela força dos filmes de Marta Popivoda e Sergio Silva. O Esquerda.net irá acompanhar este festival. Por Mariana Carneiro.

Durante a conferência de imprensa do 19º Doclisboa, que teve lugar na Culturgest, a 7 de outubro, com a presença de Joana Gusmão, Joana de Sousa e Miguel Ribeiro, da direção do Doclisboa, Maria João Gonçalves, membro do conselho diretivo da Culturgest, Joana Gomes Cardoso, presidente do conselho de administração da EGEAC, e José Manuel Costa, diretor da Cinemateca Portuguesa, foi anunciada a programação do festival, que decorre entre 21 e 31 de Outubro, nas salas habituais - Culturgest, Cinema São Jorge, Cinemateca Portuguesa e Cinema Ideal – bem como no Cinema City Campo Pequeno, Museu do Oriente e Museu do Aljube.

O Doclisboa vai voltar a “uma edição bastante intensa e viva” por toda a cidade, pretendendo-se que continue a ser um festival que marca o panorama do cinema e a cidade de Lisboa, afirmou Joana de Sousa.

Esta edição conta com 249 filmes para ver em sala ao longo de 11 dias. São 106 longas metragens, 143 curtas, 46 filmes portugueses e 62 países representados. Entre estes, incluem-se 12 primeiras obras, 51 estreias mundiais, 28 estreias internacionais e cinco estreias europeias.

Os filmes repartem-se pelas secções competitivas e não-competitivas: Competição Internacional, Competição Nacional, Riscos, Da Terra à Lua, Heart Beat, Retrospectiva Ulrike Ottinger, Retrospectiva Cecilia Mangini, Cinema de Urgência, Verdes Anos e Doc Alliance.

De acordo com Joana de Sousa, este festival “mostra filmes que têm estado a marcar o panorama dos festivais e da distribuição de sala, mas também filmes que começam o seu percurso no Doclisboa e que confiamos que vão continuar o seu caminho ao longo dos próximos tempos”.

Na competição internacional entram 13 filmes de 14 países representados, entre os quais sete estreias mundiais, quatro internacionais, duas europeias e três primeiras obras. Já na competição portuguesa serão exibidos 11 filmes.

Doclisboa 2021 abre “com dois gestos de resistência"

O Doclisboa abre, na próxima quinta-feira, “com dois gestos de resistência, pela força dos filmes de Marta Popivoda e Sergio Silva”. Em A Terra segue Azul quando saio do Trabalho, uma estreia internacional de Sergio Silva, o funcionário de um arquivo de filmes e sua personagem imaginam um filme para fazer depois do trabalho. A obra conta com as vozes de Eduardo Gomes, Gilda Nomacce, Julia Katharine, Juliana Albuquerque, Lucas Wickhaus e Tuna Dwek.

Já o filme de Marta Popivoda, Landscapes of Resistance, segue as memórias de Sonja (97 anos), combatente antifascista, uma das primeiras mulheres da resistência na Jugoslávia e também uma das cabecilhas do movimento de resistência em Auschwitz, mostrando que é sempre possível pensar e resistir.

No encerramento, o Doclisboa apresenta o novo filme da dupla de realizadores Alessio Rigo de Righi e Matteo Zoppis, vencedores do Grande Prémio da Competição Internacional do Doclisboa’15 com Il Solengo.

Em The Tale of King Crab, caçadores de idade recordam a lenda de Luciano, um bêbado errante de uma aldeia da Tuscia que se envolve em ações vingativas com o príncipe local. Exilado para a longínqua Terra do Fogo, procura um tesouro mítico, abrindo caminho para a redenção.

"O regresso aos autores, agora no feminino"

O regresso aos autores, agora no feminino, é o mote para a colaboração entre a Cinemateca e o Doclisboa em 2021.

“A expressão tem a ver com o facto de, nos últimos dois anos, termos feito aquilo que eu considero serem histórias retrospetivas mais abrangentes, não de autores específicos mas de cinematografias, como foi o caso da Geórgia em 2020, ou a Alemanha de Leste, em 2019”, explicou o diretor da Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema.

De acordo com José Manuel Costa, “não sendo desconhecidas em Portugal, Cecilia Mangini nunca teve uma retrospetiva de autor” e Ulrike Ottinger teve uma em 2003, “mas numa fase em que a obra dela ainda estava em pleno desenvolvimento”.

O diretor da Cinemateca Portuguesa chamou a atenção “para um diálogo interessante” entre as duas realizadoras: “trata-se de nomes que atravessaram décadas importantes da história do cinema europeu e do documentário”, são “autoras que têm um olhar próprio, olhar a que não é, claramente, alheia a condição do feminino mas que, acima de tudo, são dois olhares originais, profundamente livres”.

“A cada ida ao cinema, há uma transmutação entre quem mostra e quem vê”

Destacamos nesta edição filmes como Oh Dear Sarah, na secção Da Terra à Lua, sobre uma ativista dos direitos das mulheres e a primeira taxista no Afeganistão, Alcindo, do antropólogo Miguel Dores, sobre racismo em Portugal, partindo do homicídio de Alcindo Monteiro, vítima de ódio racial em 1995, ou a estreia de Jamaika, documentário de José Sarmento Matos sobre a vida do bairro da Jamaica, em Setúbal, durante o confinamento. Realçamos ainda a presença do realizador israelita Avi Mograbi neste festival, que nos traz a realidade da ocupação israelita dos territórios palestinianos na Cisjordânia e na Faixa da Gaza.

E deixamos uma referência às sessões de cinema para escolas, em que se recorre “à história para entender o presente, enquanto se percorrem “vários cantos do mundo. Da Palestina ao Brasil, do Afeganistão ao Senegal. Do colonialismo às vagas migratórias, passando pelo urgente combate à crise climática e a consequente destruição da vida marinha”.

Mas estas são apenas algumas notas a respeito de um intenso programa que, nas palavras de Joana de Sousa, Joana Gusmão e Miguel Ribeiro, foi concebido “pensando a imaginação como espaço para a potencial materialização de utopias”.

As diretoras e o diretor do Doclisboa convidam-nos a construir “em conjunto um outro lugar, um espaço de liberdade onde coexistem certezas e dúvidas, o possível e o impossível”.

“Um festival de cinema é uma geografia mutante, em permanente transformação por cada olhar que encontra um filme. São esses movimentos radicais que nos dão a certeza de que é possível ser livre e que há uma força que não é afinal exclusiva dos contos de fadas”, rematam.

Sobre o/a autor(a)

Socióloga do Trabalho, especialista em Direito do Trabalho. Jornalista do Esquerda.net. Mestranda em História Contemporânea.
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