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Divergente lança reportagem sobre comandos africanos da Guiné abandonados por Portugal

Milhares de militares guineenses que estiveram ao serviço do governo de Salazar foram perseguidos, presos e executados no pós 25 de Abril. Sofia da Palma Rodrigues e Diogo Cardoso apresentaram este projeto, e passaram a palavra aos ex-combatentes Abdulai Djaló e Juldé Jaquité. Por Mariana Carneiro.
Foto Esquerda.net

Na passada quarta-feira, 29 de setembro, decorreu a pré-apresentação da reportagem multimédia “Por ti, Portugal, eu juro!”, da revista de jornalismo narrativo digital Divergente, criada em 2014.

A iniciativa, que teve lugar no Museu do Aljube, contou com a participação de Sofia da Palma Rodrigues e Diogo Cardoso, da Divergente, e de Abdulai Djaló e Juldé Jaquité, dois comandos africanos do Exército português na Guiné, que deram o seu testemunho e responderam a perguntas de quem esteve presente.

Diogo Cardoso apresentou o teaser do trabalho e fez uma visita guiada pelo site https://por-ti-portugal.divergente.pt/, no qual temos acesso ao resultado da investigação que decorreu entre os anos 2016 e 2021. Os quatro capítulos da reportagem serão divulgados faseadamente, um por mês. Neste momento, já é possível ver o primeiro: “Sangue e açúcar”. Mas, a par deste capítulo, o site da reportagem multimédia disponibiliza vários outros conteúdos.

Na introdução, somos transportados para uma realidade que a maior parte das portuguesas e dos portugueses desconhece: a dos africanos que combateram ao lado das Forças Armadas Portuguesas e foram abandonados por Portugal.

Durante a Guerra Colonial, milhares de africanos combateram ao lado das Forças Armadas Portuguesas, e arriscaram a vida por uma pátria que acreditavam ser a sua.

Após a Revolução de Abril, foram deixados para trás, perseguidos e fuzilados. Os comandos africanos da Guiné foram os que mais sofreram na pele o abandono de Portugal.

Quase 50 anos depois, contam pela primeira vez a sua história. Já não temem represálias, nem têm medo de falar. Querem que os seus nomes sejam recordados e que lhes devolvam os direitos que ganharam no campo de batalha.

No site está também disponível um Mural, com os nomes que constam das listas do Batalhão de Comandos da Guiné, aos quais foram adicionados os nomes de homens ouvidos neste trabalho que apresentaram documentação a provar terem integrado uma das três Companhias de Comandos Africanos da Guiné. Neste mural em construção, temos ainda a indicação daqueles que foram entrevistados no âmbito deste projeto, daqueles que morreram em combate e daqueles que foram fuzilados.

A Divergente faculta igualmente vários dados, nomeadamente no que respeita ao número de militares portugueses em Angola, Moçambique e Guiné, e sua composição.

Podemos ainda aceder aos bastidores do projeto e saber como surgiu a ideia para esta reportagem, conhecer a sua ficha técnica e as fontes consultadas.

“Estudei 12 anos em Portugal e nunca ouvi falar sobre os comandos africanos da Guiné”

E foi exatamente relatando como foi confrontada com a realidade que aqui nos expõe que Sofia Palma Rodrigues começou a sua intervenção.

“Desde 2012 que trabalho como jornalista na Guiné-Bissau. Num dos dias de 2013, já nem sequer consigo precisar o mês, estava a tomar um café no centro de Bissau e há um jovem na casa dos 30 anos que vem ter comigo e me diz:

Eu sei que é jornalista. Eu e a minha mãe andamos há muitos anos a tentar reivindicar os direitos do meu pai, que foi comando africano na Guiné, nas Forças Armadas Portuguesas. Já tentámos o reconhecimento da sua caderneta militar junto da embaixada de Portugal, mas, simplesmente, nunca obtivemos uma resposta.

Sofia lembra-se que, naquela altura, teve “duas estranhezas”: por um lado, “quão aliciante era a história” que lhe estava a ser contada; por outro, “quão desconhecida” era para si aquela parte da História.

“Estudei 12 anos na escola pública em Portugal e nunca ouvi falar sobre os comandos africanos da Guiné”, apontou.

A história foi registada num bloco, que, por sua vez, foi guardado numa estante. Quando entrou, em 2015, no programa de doutorando Pós-Colonialismos e Cidadania Global, do Centro de Estudos da Universidade de Coimbra, Sofia recuperou aquele bloco, e decidiu que esse seria o tema da sua tese.

“Existia um total apagamento destas pessoas”

A fase mais difícil foi a fase inicial, ao tentar descobrir quem eram aqueles homens e como poderia encontrá-los. Aí surgiu o primeiro grande obstáculo: “Apesar de eu saber que era uma tropa de elite e que era uma das frentes mais importantes na Guerra Colonial a combater ao lado de Portugal, existia um total apagamento destas pessoas em tudo o que são arquivos públicos, como o Arquivo Histórico Militar e o arquivo da Associação de Comandos”.

Sofia acabou por conseguir o contacto de Abdulai que, por sua vez, a fez chegar a Juldé. E, nesse momento, surge mais uma surpresa: “Juldé tinha a lista que eu procurava com o carimbo da Associação de Comandos, que me disse que não existia lista nenhuma”.

E foi a partir desta lista que se desenrolou este projeto: “Fomos quatro vezes à Guiné Bissau, entre 2016 e 2020, e fizemos o trabalho de jornalismo de base. Levámos um primeiro contacto, uma fonte levou a outra e acabámos por encontrar, em cada esquina, ex-combatentes das Forças Armadas Portuguesas na Guiné”.

E, em cada esquina, encontraram também “um sentimento de abandono e de revolta porque ficaram lá”.

Conforme sublinhou a jornalista, “estes homens, a quem foram feitas várias promessas, foram primeiro abandonadas por Portugal, e depois perseguidos e fuzilados por um movimento que prometia uma Guiné para todos os africanos”.

Sofia clarificou que não querem “contar uma história individual, trata-se de uma memória coletiva”. Como também não querem dizer “que a História que foi contada até aqui não é verdade. Ela é verdade, só que só é uma parte da verdade”.

De acordo com a jornalista, “a História acaba por ser um campo de batalha onde a memória se disputa, e até aqui só temos algumas memórias, aquelas que tanto a narrativa nacionalista de Portugal, como a narrativa nacionalista da Guiné-Bissau quiseram contar”.

“Portugal traiu os africanos”

Juldé Jaquité foi furriel da 2ª Companhia de Comandos Africanos da Guiné. Não sabia muito bem o que era a guerra e o que estava em causa, mas a tabanca (a aldeia) onde vivia estava a ser alvo de ataque e ingressar as Forças Armadas Portuguesas foi a forma de garantir a sua segurança.

“Sinto muita tristeza por causa dos meus colegas que ficaram para trás, na Guiné. Quando se deu o 25 de Abril, Portugal tinha-se comprometido a trazer os comandos africanos para o país. Mas isso não aconteceu”, explicou.

Na altura, Juldé teve de fugir para o Senegal, e a sua irmã foi presa, para que denunciasse o seu paradeiro, que desconhecia. Foi preso quando chegou a Dakar, juntamente com mais 106 pessoas. Apenas vários anos mais tarde, os militares que se encontravam no Senegal puderam vir para Portugal.

“Portugal traiu os africanos. Quem nascia na Guiné antes da independência era português, e fomos obrigados a cumprir serviço militar”, afirmou, lamentando que “ninguém fala sobre a situação da Guiné”.

Juldé recordou que “o antigo embaixador [português na Guiné] disse que Portugal não tem nenhuma divida com os guineenses”. E frisou que tal não é verdade: “Portugal assumiu que dava indemnização aos militares e que quem quisesse vinha para Portugal”, e não cumpriu esses compromissos.

Juldé pede justiça, que Portugal reconheça a nacionalidade portuguesa destes homens e que cumpra os acordos celebrados na Argélia.

“Chegou a um ponto em que deixámos de ter pátria”

Abdulai Djaló foi soldado da 1ª Companhia de Comandos Africanos da Guiné. Integrou esta companhia porque o pai era perseguido e ameaçado pela PIDE. Entrar para as Forças Armadas Portuguesas foi a única forma de travar as prisões consecutivas a que o seu pai estava a ser sujeito. O seu irmão era um dos principais comandantes do PAIGC.

“Chegou a um ponto em que deixámos de ter pátria. Não somos portugueses. Não somos guineenses”, disse, com um peso na voz.

Quando Abdulai conseguiu vir para Portugal dormiu num banco, na zona J de Chelas, porque não tinha qualquer apoio. Passou ainda 12 anos da sua vida a viver com a família num parque de campismo. Analfabeto, hoje diz orgulhoso que conseguiu formar os seus filhos, o mais novo em Economia e Finanças.

Abdulai lembrou com imenso pesar os seus colegas militares que foram fuzilados na Guiné, e aqueles que permanecem lá na miséria e sem assistência médica. Pediu ao Estado português que os reconheça, que cuide da sua saúde e lhes dê qualquer apoio, por mais pequeno que seja, para garantir a sua sobrevivência.

A Associação de Comandos da Guiné estima que 6000 militares guineenses instrumentalizadas por um regime colonial foram executados no pós 25 de Abril. Muitos outros foram perseguidos, presos, torturados.

Sobre o/a autor(a)

Socióloga do Trabalho, especialista em Direito do Trabalho. Jornalista do Esquerda.net. Mestranda em História Contemporânea.
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