Direita espanhola abriu as portas da governação autárquica à extrema-direita

19 de junho 2023 - 16:03

Em 23 das grandes cidades espanholas o PP governará com o Vox. Políticas de igualdade e combate à violência de género estarão assim em causa em muitas autarquias devido aos acordos. A nível regional, o acordo em Valência também ameaça a recuperação dos restos mortais das vítimas de Franco.

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Abascal e Feijóo na parada militar do dia de Espanha. Foto de RODRIGO JIMENEZ/EPA/Lusa.
Abascal e Feijóo na parada militar do dia de Espanha. Foto de RODRIGO JIMENEZ/EPA/Lusa.

Este sábado tomaram posse os executivos saídos das eleições autárquicas espanholas do passado dia 28 de maio. Foi altura para finalizar acordos e coligações, para algumas surpresas de última hora, como o pacto que fez com que os socialistas ficassem à frente da Câmara de Barcelona, e sobretudo para a confirmação de que o PP abriu amplamente as portas da governação autárquica à extrema-direita.

O Vox anunciou em comunicado que vai estar presente em 140 governos municipais. Ficou à frente apenas em 30 autarquias, 26 das quais com maioria absoluta, mas participa em muitos mais à boleia do Partido Popular. E até algumas capitais de província. O PP foi o partido mais votado em 28 delas mas governará mais quatro em que o PSOE tinha ficado à frente, Toledo, Burgos, Valladolid e Guadalajara, junto com a extrema-direita. Se fizermos as contas às grandes cidades, aquelas que têm mais de 50.000 habitantes, o balanço é que PP e Vox estarão coligados em 23 delas, em 17 das quais o PSOE tinha sido o partido mais votado.

Com as eleições legislativas à porta, o PP tenta minimizar a ideia de que precisará do Vox para governar. Em declarações no Hotel Ritz, citadas pelo El Diário, Alberto Núñez Feijóo, o seu líder, gaba-se de ter “triplicado o número de Câmaras”, o que conseguiu graças aos pactos com a extrema-direita, mas tentou passar a ideia de que nas grandes cidades só “em quatro ou cinco câmaras em toda a Espanha” está no poder graças ao Vox.

Memória histórica, a primeira vítima dos acordos com a extrema-direita

Santiago Abascal, líder do partido de extrema-direita, veio já vangloriar-se que, graças a estes compromissos, vai acabar com as “vereações ideológicas como a da Igualdade”. Políticas de igualdade e combate à violência de género estarão assim em causa em muitas autarquias devido a estes acordos. E também as políticas de memória histórica que visam fazer justiça às vítimas da ditadura franquista.

Em Valência, esse é mesmo um dos primeiros pontos que fazem parte do acordo que permitiu a Carlos Mazón ser presidente do Governo autonómico. Em nome de acabar com normas que “atacam a reconciliação nos assuntos históricos”, a recuperação dos restos mortais das pessoas assassinadas pelo regime franquista deverá ser bloqueada.

Apenas em dezembro de 2017 é que a Comunidade Valenciana assumiu como tarefa sua a tentativa de localização do que se estima serem 600 fossas com milhares de corpos enterrados, a identificação da vítimas e a retirada dos símbolos do regime fascista que continuam presentes em várias localidades.

O dirigente da extrema-direita local, José María Llanos, diz que a lei da memória democrática valenciana “apela ao ódio entre espanhóis” e coloca em causa a liberdade de expressão. Do lado das associações de familiares das vítimas, o clima é de apreensão. Citado pelo El Diário, Ángel González, presidente da Coordenadora de Associações pela Memória Democrática do País Valenciano, diz que se espera um “encerramento total” dos procedimentos em curso e um “retrocesso histórico em todo o tipo de políticas sociais, direitos, cortes em serviço públicos e liberdades”. Até ao momento foram exumadas 66% das fossas comuns do franquismo na zona de Valência, tendo-se localizado 2.166 vítimas, estando a identidade da maior parte ainda por verificar.

O negacionismo da violência de género também tem assento no executivo local

O acordo de Valência entre direita e extrema-direita abre também caminho ao negacionismo da violência de género, uma das grandes apostas do Vox. Do texto aprovado não consta qualquer referência a esta, mas apresenta o conceito alternativo de “violência intrafamiliar”.

Llanos, citado pelo El País, explicou o que isso significa: “a violência de género não existe, a violência machista não existe”. O PP, esse, volta a escolher a negação. O seu líder nacional escreveu nas redes sociais que “a violência de género existe” e que o PP não dará um passo atrás na luta contra este flagelo.” Mas para além da declaração genérica não explicou mais nada sobre os acordos  com o Vox.

Enquanto isto, ao nível regional, prosseguem ainda negociações entre PP e Vox para um acordo de governação na Extremadura, que assim se tornaria a terceira comunidade autónoma com a extrema direita no Governo, após o acordo em Valência e a aliança de 2020 em Catela e Leão.