Esta semana fica marcada pela vaga de demissões nas direções da rádio e jornais do Global Media Group, depois de o administrador José Paulo Fafe, que assumiu funções de CEO após a entrada de um fundo suíço para controlar a maioria do capital do grupo, ter anunciado a intenção de promover cortes de pessoal, levando à saída de 150 a 200 trabalhadores, dos quais cerca de 40 no Jornal de Notícias (JN) e 30 na rádio TSF.
Depois da demissão da direção da TSF ao fim de apenas dois meses no cargo, anunciada na terça-feira, foi a vez das direções do JN, O Jogo e Dinheiro Vivo tomarem a mesma decisão.
Num comunicado interno citado pelo Expresso, o Conselho de Redação do JN afirma que “tomou conhecimento, com grande consternação, da demissão da direção do JN”, que consideram um “sinal inequívoco de que esta redação e quem a lidera não aceita que se possa denegrir publicamente um jornal, os seus leitores e até uma região e um país”. E agradece à diretora Inês Cardoso a “forma empenhada, abnegada e com enormes sacrifícios pessoais com que zelou, com a restante direção, pela manutenção do espírito e da matriz do JN, um jornal próximo dos leitores há 135 anos”, estendendo o agradecimento aos diretores-adjuntos Pedro Ivo Carvalho, Manuel Molinos e Rafael Barbosa, bem como ao diretor de arte Pedro Pimentel. Manuel Molinos demitiu-se também do cargo de diretor digital do Global Media Group. A redação promete “continuar a trabalhar, fazendo o melhor jornal que conseguir, ainda que sob a ameaça de vir a perder 40 jornalistas”, o que significa o corte de metade da atual redação.
No jornal desportivo O Jogo, o Conselho de Redação deu a conhecer esta quinta-feira as demissões do diretor, Vítor Santos, e do diretor-adjunto, Jorge Maia, devido à “degradação das condições tecnológicas, funcionais e de recursos humanos”. Lamentando "mais um golpe profundo" no grupo de comunicação, acrescentam que “os profissionais têm sido duramente afetados nos últimos tempos por uma série de decisões e comunicações, com impacto profundo nas respectivas famílias”. O chefe de redacção João Araújo e os chefes de redacção adjuntos Carlos Pereira Santos e Nuno Vieira também colocaram os cargos à disposição em "solidariedade" com a direção demissionária do jornal.
Além da administração do Global Media Group ter anunciado que não iria pagar o subsídio de Natal este mês, convertendo-o em duodécimos ao longo do próximo ano, os jornalistas que trabalham a recibos verdes ou à peça ainda não receberam os pagamentos do mês passado nem qualquer explicação para este atraso.
Redação do Diário de Notícias está solidária e não se sente "a salvo" dos despedimentos que ameaçam o resto do grupo
Também na quinta-feira, o diretor do Dinheiro Vivo, Bruno Contreiras Mateus, anunciou a demissão do cargo que ocupava desde julho. Segundo o site +M, na reunião do Conselho de Redação do Diário de Notícias (DN) no início da semana, falou-se na intenção da administração em poder vir a integrar a redação do Dinheiro Vivo no DN. O diretor do jornal, José Júdice, revelou ainda "que tinha tido autorização da administração para reforçar o orçamento, num valor quatro vezes superior ao atual, para distribuir entre novos colunistas e colaboradores em todas as secções, em particular na área da sociedade e cultura”. Quanto à secção internacional, o DN passaria a contar com acesso "sem limite de todo o conteúdo editorial do New York Times, incluindo colunistas como Krugman, Friedman, etc, à nossa escolha e em todas as áreas, tanto no papel como no online".
Ainda segundo o comunicado do Conselho de Redação a que o +M teve acesso, José Júdice rejeitou a ideia “que alguns querem passar de que os cortes previstos no JN sejam para manter o DN em funcionamento” e defendeu “a mesma solidariedade com o JN que foi mostrada pelo JN aquando dos cortes efetuados no DN”.
A redação do Diário de Notícias também reuniu na quinta-feira para afirmar a sua solidariedade com os restantes trabalhadores do grupo e sublinhar que "discorda da tese de que o DN ‘está a salvo’ de um imprevisível processo de rescisões”. No comunicado citado pela agência Lusa, a redação do DN diz que vai pedir uma reunião com a administração do Global Media Group “para pedir esclarecimentos sobre a real situação financeira” do grupo e “apresentar soluções alternativas para a regularização do subsídio de Natal, em incumprimento”.
Na TSF, os trabalhadores reuniram-se na quarta-feira, o dia seguinte ao anúncio da demissão da direção da rádio. A reunião serviu para a Comissão de Trabalhadores informar sobre o resultado da sua reunião com a administração do grupo. "Perante o anunciado corte de 30 trabalhadores, a conclusão é unânime: o projeto editorial da TSF está ameaçado de morte", afirma a CT, citada pelo Público, considerando impossível fazer o mesmo trabalho com apenas metade da atual redação, se avançar a intenção de afastar 30 trabalhadores da rádio.
No próximo dia 6 de janeiro, exatamente um mês depois do primeiro dia da greve do JN que pela primeira vez em 135 anos esteve dois dias fora das bancas, o Sindicato dos Jornalistas convoca uma paralisação simbólica de uma hora de todos os jornalstas do Continente e Regiões Autónomas, como "forma de assinalar esta luta e demonstrar que os jornalistas estão atentos aos grandes desafios do setor".