Direção da TSF demite-se ao fim de dois meses

13 de dezembro 2023 - 11:18

A razão apontada para a saída é a viabilidade do projeto estar ameaçada pela nova redução do número de trabalhadores. O CEO do Global Media Group confirma o objetivo de afastar entre 150 a 200 trabalhadores, incluindo 40 do JN e 30 da TSF.

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Redação da TSF parada
Redação da TSF parada no dia da greve. Foto de Filipe Santa-Bárbara no Twitter.

Os três membros da direção da TSF que assumiram funções no início de outubro apresentaram a demissão em bloco à administração do Global Media Group. O diretor-geral Rui Gomes, a diretora de informação Rosália Amorim e o sub-diretor Artur Cassiano comunicaram a decisão à Comissão de Trabalhadores, que reuniu esta terça-feira com o diretor-geral do grupo, José Paulo Fafe e o administrador financeiro Filipe Nascimento, segundo noticia o jornal Público.

A administração do GMG não comenta o anúncio desta demissão, que surge logo após o anúncio da abertura de um programa de rescisões por mútuo acordo para abranger entre 150 e 200 trabalhadores do grupo que além da TSF detém o Jornal de Notícias, Diário de Notícias, O Jogo e outras publicações. Os trabalhadores abrangidos têm até 61 anos e contrato sem termo com as empresas do grupo e podem candidatar-se à saída até 20 de dezembro. As indemnizações serão calculadas a partir do valor legal e acrescidas de 10% para montantes abaixo dos 30 mil euros e de 5% para os que excedam esse valor, e pagas em 18 prestações mensais. O despedimento coletivo continua em cima da mesa se estas rescisões não atingirem o número desejado.

“Não tenho qualquer prazer em criar condições para que este grupo perca 150 a 200 trabalhadores, não queria fazer isso. Mas sei que é essencial, se não fizermos isso este grupo morre”, diz José Paulo Fafe em entrevista ao +M, na qual confirma o objetivo de despedir cerca de 40 pessoas no Jornal de Notícias e 30 na TSF. "É a lógica implacável da sociedade capitalista em que vivemos, este grupo já devia estar fechado" por causa dos prejuízos que acumula, acrescentou.

O administrador do GMG acusa ainda o PSD de ter dado "o dito por não dito" na venda da participação do grupo na agência Lusa, um negócio que em agosto tinha tido luz verde do Governo e do maior partido da oposição, "através do dr. Paulo Rangel", e que agora Luís Montenegro decidiu inviabilizar, defendendo que a decisão deve ficar para o próximo Governo. José Paulo Fafe também estranha a surpresa de Marcelo Rebelo de Sousa com o negócio. Recordando uma audiência em que foi recebido em Belém, o líder do GMG diz que "lembro-me perfeitamente que o Sr. Presidente da República disse “eu até percebo que vocês vendam, o vosso negócio não é propriamente a agência, são mais jornais e tal”. Duas semanas depois, mostrou-se ao Correio da Manhã surpreendido com o negócio".

"Não se precipitem", aconselha sindicato aos trabalhadores interessados no acordo de rescisão

Em comunicado, o Sindicato dos Jornalistas considera "inaceitável" que a proposta de acordos de rescisão tenha "um prazo tão curto – uma semana – para as pessoas se candidatarem à saída voluntária e decidirem uma mudança de vida tão profunda após décadas de dedicação e serviço". E diz também ser "inacreditável" que a administração "pareça querer imputar a responsabilidade de evitar a falência da empresa aos trabalhadores, que são os únicos que não contribuíram para a degradação do GMG, propalada aos sete ventos e diariamente por esta gestão".

O sindicato estranha também que não haja dinheiro para pagar os subsídios de Natal, transformados em duodécimos nos salários do próximo ano, "mas que não faltem fundos para dispensar pessoas". E alerta para a promessa da empresa de pagar em 18 meses a indemnização a quem acorde a rescisão do contrato. "Que garantias têm os trabalhadores que entenderem sair ao abrigo deste programa de que vão receber o dinheiro, quando o grupo que os quer dispensar agita, todos os dias, a bandeira da falência?", questiona o SJ.

O conselho deixado pelo sindicato aos eventuais interessados é claro: "não se precipitem, porque se a empresa avançar com um despedimento coletivo – que pode demorar até seis meses a concretizar-se –, a compensação total devida por esse despedimento será paga de só uma vez e, em termos de valores, acima da própria “majoração” proposta agora".

Quanto às constantes referências à situação de prejuízos do grupo e ameaças de falência por parte da nova administração, o sindicato diz não perceber "como um fundo de investimento comprou a maioria do capital de um grupo de media sem saber o que estava a fazer".

"Não sabiam o que estavam a comprar? Compraram sem fazer auditorias? Foram enganados ou deixaram-se enganar? Porque se foram enganados podem sempre recorrer aos meios legais ao dispor de qualquer pessoa ou empresa neste país, uma Democracia com instituições funcionais, e responsabilizar as anteriores administrações em vez de lançarem o ónus para cima dos trabalhadores, que não têm qualquer responsabilidade na gestão da empresa e se limitam a trabalhar com parcos salários e sem atualizações, na maioria dos casos, há 10 ou 15 anos".

A situação dos baixos salários no grupo é admitida por José Paulo Fafe, que diz ter ficado "impressionado" quando foi reunir com representantes dos trabalhadores e por "curiosidade" foi ver antes do encontro quanto é que eles ganhavam. "Uma delas ganhava 840 ou 870 euros e trabalhava aqui há 23 anos. (...) É inacreditável. Estava a ouvi-la falar e a pensar “como é que esta pessoa vive?”.