Despejo de mulher com dois filhos gera indignação no Porto

01 de março 2020 - 14:42

Joana Pacheco voltou a viver na casa de família para cuidar do pai. Pediu à Câmara do Porto para reintegrar o agregado familiar mas o pedido foi sempre negado. Depois da morte dele continuou a pagar renda. Esta sexta-feira, a autarquia expulsou-a. Há uma concentração de repúdio marcada para segunda e o Bloco condenou o despejo.

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Moradores em solidariedade com Joana Pacheco, despejada pela Câmara do Porto.
Moradores em solidariedade com Joana Pacheco, despejada pela Câmara do Porto. Foto de: Direito à cidade/Facebook.

Joana Pacheco é rececionista de hotel, tem 39 anos e dois filhos, de oito e doze anos. Em 2017, na sequência da morte da sua mãe, tinha voltado para a casa camarária onde habitava a família para poder cuidar do pai. Depois da morte deste, continuou a cumprir as suas obrigações, a pagar renda e a receber os recibos respetivos. Tinha pedido várias vezes para a autarquia a reintegrar no agregado familiar, pedido que foi sendo negado.

Esta sexta-feira foi chamada a uma reunião na Câmara. Foi quando, segundo conta um vizinho ao Jornal de Notícias, “aproveitaram para fazer o despejo” da sua habitação situada na Rua da Fonte Taurina, na Ribeira, Porto. Apesar de sempre ter recebido as rendas e de passar recibos em nome de Joana Pacheco, a autarquia alegou que a casa “está a ser ocupada abusivamente”. Os vizinhos reagiram com indignação.

Má fé da Câmara do Porto

Não foram os únicos. A concelhia do Porto do Bloco de Esquerda lançou um comunicado em que diz que o despejo merece a sua “total condenação” e exprime a sua solidariedade com a moradora.

O partido considera “especialmente chocantes” as condições em que o despejo foi realizado e que estas “denotam má fé por parte da Câmara”. A estrutura portuense do Bloco refere-se ao facto de se ter chamado a moradora para uma reunião com o Provedor do Munícipe para tratar do seu processo e, enquanto estava nessa reunião, a sua casa ter sido “arrombada, os seus pertences retirados e a fechadura alterada”.

Câmara Municipal e Domus Social nunca apresentaram qualquer solução alternativa de habitação. O que demonstra, considera o partido, “uma gravíssima ignorância da Lei de Bases da Habitação 83/2019 de 3 de setembro, onde está expressamente plasmado que “o Estado é o garante do direito à habitação” e que, além da “efetiva garantia desse direito a todos os cidadãos”, “os imóveis ou frações habitacionais detidos por entidades públicas ou privadas participam, de acordo com a lei, na prossecução do objetivo nacional de garantir a todos o direito a uma habitação condigna”. Nesta está consignado ainda que “o Estado, as regiões autónomas e as autarquias não podem promover o despejo administrativo de indivíduos ou famílias vulneráveis sem garantir previamente soluções de realojamento, nos termos definidos na lei”.

Para o Bloco, “este é mais um exemplo trágico da falta de respostas habitacionais na cidade, que não se resolve com a manutenção de uma política de despejos e alienação do direito à habitação das pessoas”. No concelho, a lista de espera para casas municipais é superior a 1000 famílias e os dados da carência habitacional, datados de 2017, apontam para mais do dobro desse número. Mas o município apenas propõe a construção de 200 casas em cinco anos, número “absolutamente irrisório perante as graves necessidades habitacionais da cidade”, consideram. Para o partido esta é uma política “negligente do ponto de vista do que é o direito humano à habitação” e a Câmara Municipal “deve reverter, com carácter de urgência, este despejo perpetrado em condições atrozes”.

Também Maria Manuel Rola reagiu ao despejo. No seu twitter, a deputada descreveu o despejo como “vergonhoso, sem qualquer respeito pela lei de bases da habitação e pelas pessoas que ali moram, cuidadora de ascendentes e mãe de duas crianças. Uma política deliberada que aposta na criação de pessoas em situação de sem abrigo.”

Concentração na segunda-feira pelo direito à habitação

A plataforma Direito à cidade marcou uma concentração para esta segunda-feira em solidariedade com esta família. Na convocatória pode ler-se: “depois do despejo da Joana na passada sexta-feira, por ordem da CMP, juntamo-nos em solidariedade e em protesto à porta da Assembleia Municipal. Exigimos uma solução. Exigimos o fim dos despejos, mais habitação pública e o combate à especulação imobiliária. Que cidade é esta onde uma mãe de dois filhos menores é despejada sem justificação e sem aviso prévio?”

Assim, pelo direito a uma habitação condigna, vão reunir-se no Largo das traseiras da Câmara Municipal do Porto, às 20.30.