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Desinformação e xenofobia: da Peste Negra ao Coronavírus

A semelhança entre as duas epidemias não é a doença em si, mas as suas consequências sociais. O alastrar da desinformação e da xenofobia mostra que não conseguimos aprender com as lições do passado. Artigo de Rachel Clamp.
Ilustração de vítimas da peste bubónica
Ilustração de 1411 com um homem e uma mulher vítimas da peste bubónica. Imagem Everett Historical/ Shutterstock

Embora alguns órgãos de comunicação tenham começado a referir-se ao surto do novo coronavírus como uma “peste moderna”, a ameaça do COVID-19 continua a ser insignificante quando comparada aos surtos históricos das pestes. O último relatório da Organização Mundial de Saúde coloca a fasquia das mortes pouco acima das três mil em todo o mundo, enquanto a Peste Negra foi responsável pela morte de entre 30% e 50%  da população da Europa em meados do século XIV. A semelhança mais preocupante entre as duas não é a doença propriamente dita, mas as suas consequências sociais. Na altura, como agora, a responsabilidade dos surtos foi apontada a determinados grupos étnicos. 

Tanto quanto sabemos, a Peste Negra teve origem na China ou lá perto. Seguiu depois as rotas das peregrinações ao longo do Médio Oriente, acabando por entrar na Europa através das rotas comerciais a partir de Itália. Tal como o coronavírus, os surtos da peste levaram a quarentenas nos lares afetados e à criação de equipas de especialistas que acompanhavam e controlavam o contágio.

Mas a semelhança mais alarmante entre as duas é a forma como as pessoas reagiram. Durante a Peste Negra do século XIV, as comunidades judaicas pareciam ter menor mortalidade que os vizinhos cristãos. Muitos viram nisto uma prova de que os judeus estavam a espalhar intencionalmente a doença, envenenando poços, rios e fontes. A consequência disso foi a tortura e a morte do povo judeu por toda a Europa.

Os médicos da peste vestiam por vezes uniformes especiais.
Imagem Wellcome Collection, CC BY

Nos surtos posteriores do fim do século XVI e início do século XVII, este medo passou rapidamente a dirigir-se a todos os forasteiros. Por exemplo, um decreto proclamado no reinado de Isabel I afirmava que um forasteiro que quisesse entrar na cidade só o podia fazer se possuísse um “certificado especial” — algo apenas ao alcance dos muito ricos.

Hoje em dia, os asiáticos em todo o mundo tornaram-se o alvo de ataques racistas e xenófobos. As lojas na Chinatown de Londres apontam uma queda no comércio, responsabilizando a disseminação de “fake news” pelo medo crescente de consumir comida asiática. Em Roma, um café perto da fonte de Trevi proibiu a entrada a “todas as pessoas vindas da China”. Na Bolívia, três turistas japoneses foram postos de quarentena num hospital, apesar de nunca terem visitado a China nem mostrarem quaisquer sintomas de infeção.

Desinformação e “fake news”

Sabemos agora que a peste bubónica — que foi a causa da Peste Negra no século XIV — era transmitida aos humanos pelas pulgas que transportavam a bactéria Yernsinia pestis. Quando a doença chegava ao sistema respiratório, podia então ser transmitida de pessoa para pessoa através da tosse e dos espirros.

Mas as explicações populares para a disseminação rápida da peste iam desde o castigo divino para os pecados coletivos ao alinhamento das estrelas. Outras interpretações centravam-se na disseminação de maus cheiros ou “miasmas” como fonte de infeção ou um desequilíbrio nos frágeis “quatro humores” do corpo.

Na verdade, a maior parte das pessoas eram impotentes contra o desencadear da peste. A única medida eficaz a tomar foi fugir das zonas infetadas. Isso deixou para trás os que eram demasiado pobres para fugir. A sua única esperança era esperar pelo aparecimento de medidas preventivas e curas mais acessíveis — embora esses remédios fossem muitas vezes comparáveis a “fake news”.

Infelizmente, centenas de anos depois parece que estamos a repetir os mesmos erros. No atual clima de ansiedade e medo, a desinformação espalha-se tão depressa como o próprio vírus. As origens do coronavírus foram recentemente apontadas como uma fuga acidental de uma arma biológica criada pelo governo chinês. Nas redes sociais, fizeram-se ligações diretas entre o vírus e as redes 5G, com um grupo muito popular no Facebook a defender que o vírus é uma forma de encobrir as doenças provocadas pelo 5G. Os media também continuam a exagerar as taxas de mortalidade, com um comentador de direita a falar em mais de 100 mil mortos. 

Tal como as primeiras respostas aos surtos da peste, muito daquilo que a Organização Mundial de Saúde chama “infodemia” está a encontrar terreno fértil entre grupos que já têm preconceitos contra as comunidades asiáticas. Por isso seria errado partir do princípio de que os surtos de epidemias criam respostas racistas e xenófobas. Já existiam tensões entre as comunidades judaicas e cristãs muito antes do surto da Peste Negra e o sentimento anti-chinês já existia muito antes do surto de coronavírus. O coronavírus agiu simplesmente como um catalizador para espalhar as convicções racistas e xenófobas que já existem.

Mas se a história das doenças epidémicas nos ensina alguma coisa, é que devemos resistir ao desejo de interpretar a doença no âmbito moral. O nosso aparente desejo instintivo para encontrar bodes expiatórios cria inevitavelmentte uma epidemia de desinformação mais potente do que o próprio vírus. Enquanto o coronavírus continua a espalhar-se, as lições do passado continuam a ser uma ferramenta importante para prevenir novos ataques racistas e xenófobos.


Rachel Clamp é doutoranda em História na Universidade de Durham, em Inglaterra. Artigo publicado no portal The Conversation. Traduzido por Luís Branco para o esquerda.net.

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