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Desflorestação da Amazónia bate novo recorde em abril

Foram destruídos mais de mil quilómetros quadrados de floresta, uma área 74% superior à registada no mesmo mês do ano passado. Ambientalistas atribuem responsabilidade ao governo de Jair Bolsonaro.
Desmatamento na Amazónia. Outubro 2016. Fonte: Jeso Carneiro/Flickr.

De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados sexta-feira, no mês passado a área desflorestada na Amazónia atingiu os 1.012,5 km² de floresta. A área de floresta destruída em abril quase duplicou face ao mesmo mês do ano passado.

"Esta é a primeira vez na história do sistema Deter-B, do Inpe, que os alertas mensais de desmatamento ultrapassam 1 mil km² no mês de abril", alerta o Observatório do Clima.

Os analistas climáticos ficaram surpresos com uma leitura tão alta durante a estação chuvosa, em que é mais difícil para os madeireiros extrair madeira.

O Observatório do Clima brasileiro apontou que, no acumulado do ano/período, os alertas já chegam a 5.070 km², o que equivale a 5% mais do que na temporada passada e é o segundo maior número da série histórica. O recorde mais elevado é também do governo Bolsonaro: 5.680 quilómetros quadrados em 2020.

A destruição da Amazónia brasileira nos primeiros quatro meses do ano também bateu um novo recorde para o período. Os 1.954 km² acumulados, um aumento de 69% em relação ao mesmo período de 2021, representam mais do dobro da tamanho da cidade de Nova York.

A desflorestação na Amazónia disparou desde que o presidente de direita Jair Bolsonaro assumiu o cargo em 2019 e enfraqueceu a proteção ambiental.

“As causas desse recorde têm nome e sobrenome: Jair Messias Bolsonaro. O ecocida-em-chefe do Brasil triunfou em transformar a Amazónia num território sem lei, e a desflorestação será o que os grileirosi quiserem que seja. O próximo presidente terá uma dificuldade extrema de reverter esse quadro, porque o crime nunca esteve tão à vontade na região como agora”, apontou Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.

André Freitas, coordenador da Greenpeace Brasil na Amazónia, também reforçou o alerta: "A fragilização dos órgãos de fiscalização ambiental não é por acaso, é um projeto perverso que tem como um dos principais resultados a prescrição de crimes ambientais sem que os criminosos sejam punidos. Com a certeza da impunidade, o que já está mau tende a piorar caso projetos de leis que visam legalizar a grilagem de terras, flexibilizar o licenciamento ambiental e abrir Terras Indígenas para mineração sejam aprovados na Câmara e no Senado. É preciso de uma vez por todas travar este mecanismo que vem esboroando os órgãos públicos e investir em fiscalização ambiental se quisermos realmente manter a maior floresta tropical do mundo em pé".

“Internamente, temos três anos de impunidade, com redução das ações de controle, fiscalização e autuação, agravados em 2021 por um discurso ainda mais permissivo por causa da temporada eleitoral. E, com a guerra, a escassez de produtos aumenta o valor das commodities e vigora a falsa ideia de que é necessário desmatar mais para produzir mais, o que é um equívoco. A floresta não suportará mais quatro anos com essa pressão”, destacou, por sua vez, Raul Valle, do WWF-Brasil.

Ane Alencar, diretora científica do Instituto de Investigação Ambiental da Amazónia, citada pelo The Guardian, referiu que “parece que o derrube de florestas se institucionalizou no país como algo comum, com registo atrás de registo”.


i"Grilagem" é a prática criminosa que envolve invadir, ocupar, lotear e obter ilicitamente a propriedade de terras públicas sem autorização do órgão competente e em desacordo com a legislação. Colocado de forma simples: é a invasão de terras públicas para apropriação particular, por meio de desmatamento e violência, com ou sem fraude documental (in World Wide Fund for Nature Brasil).

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