Orbán perdeu as eleições na Hungria após 16 anos de Governo. Foram 16 anos em que minou profundamente as instituições democráticas do país e espalhou a sua rede de influência pelos tribunais, órgãos de comunicação social, institutos e sociedade civil. É substituído por Peter Magyar (literalmente Peter Húngaro), que até há dois anos era orbanista, membro do Fidesz, e é, na melhor das hipóteses, de direita conservadora.
A questão a que uma parte da esquerda não tem sabido responder é: esta transição é boa? Ao olhar apenas para o conteúdo político-programático da substituição, essa multidão responde: apenas marginalmente. Afinal, um reacionário é um reacionário. Olhando apenas por esse prisma, essa esquerda pode sentar-se confortavelmente e esquecer a situação. Só observando o problema a partir da relação de forças se percebe que a derrota de Orbán é positiva e porquê.
Uma derrota pesada para a internacional reacionária
A guerra de Trump abriu uma fratura na internacional reacionária. Na Europa, onde as extremas-direitas nacionais têm contradições acentuadas entre si, Orbán era a ponte entre os aliados de Trump e os aliados de Putin. A partir do governo da Hungria, montou uma plataforma de apoio a partidos de extrema-direita que apoiou os partidos de extrema-direita no seu crescimento. Orbán serviu até de modelo para Steve Bannon lançar a sua iniciativa de financiamento e impulsionamento ideológico da extrema-direita na Europa.
A sua derrota tem, por isso, uma consequência garantida: elimina o principal entreposto da extrema-direita na Europa e dificulta a manutenção de uma ponte entre as diferentes correntes da extrema-direita europeia. Para além disso, significa uma derrota pesada para a internacional reacionária, num momento em que Trump multiplica anticorpos devido à guerra com o Irão e à crise mundial que causou.
Magyar, mesmo sendo ideologicamente próximo de Orbán, não tem essa estrutura montada, e a derrota estrondosa de Orbán, que nas eleições se rodeou de todos os líderes da extrema-direita europeia e até de J.D. Vance (e Trump, via chamada telefónica), desaconselha a que esse seja o caminho em frente. O que é facto é que a plataforma que serviu de motor à ascensão da extrema-direita por todo a Europa sai fragilizada das eleições.
Uma abertura para a luta social
A derrota do Fidesz é muito mais do que uma derrota nas urnas. Na noite eleitoral, uma foto de um casal homossexual a beijar-se em celebração na rua atravessou as redes sociais. A verdade é que o peso simbólico da mudança de liderança vai muito para além de Magyar. Será que o novo líder aprova a fotografia que circulou pela internet? Pouco importa, porque a derrota de Orbán não é só sobre ele, é sobre criar movimento e espaços de respiração, sobre vitórias concretas.
Será mais fácil organizar um sindicato durante ou depois de Orbán? Será mais fácil haver independência da comunicação social durante ou depois de Orbán? A resposta não depende de Magyar. O movimento de combate à rede de influência oligárquica do Fidesz lançará novas frentes de luta. O novo líder apoiar-se-á naquelas que precisar e tentará dificultar aquelas a que se opõe, mas as frentes serão abertas em todos os planos. O impulso que se transporta da derrota política e simbólica de Orbán para a sociedade civil é em si uma vitória contra a política reacionária da extrema-direita.
Nesse movimento, há mais espaço para uma política de organização do trabalho e de lutas sociais do que havia antes. A enorme marcha LGBTQI, que tinha sido proibida por Orbán, tem uma oportunidade para pressionar o poder político numa fase em que Magyar estará fragilizado pelo que resta do aparelho burocrático, estatal e institucional do Fidesz.
Se o povo mostrou uma expectativa avassaladora de mudança nas urnas, o novo líder está pressionado a mudar, e isso significa que as lutas sociais podem ter mais peso na relação de forças do que tinham com Orbán, quando eram reprimidas pelo aparelho montado pelo partido do Governo.
O diagnóstico é este: a política de Magyar pode não ser muito diferente da de Orbán, mas a relação de forças mudou. A derrota do Fidesz sinalizou uma vontade de mudança que pode comprometer o novo líder da Hungria a mudanças reais, mesmo que contra a sua vontade. Só por isso, o resultado das eleições já é positivo. Mas sinaliza também uma derrota e uma fragilização do equilíbrio da internacional reacionária e da extrema-direita europeia.
É verdade que o receio é real, e há uma outra parte da esquerda que não o vê. Associa Magyar à União Europeia e a promessas de democratização que assume como garantidas. A simples verdade é que a luta social só dará frutos se houver capacidade orgânica para a fazer, e isso é particularmente difícil na Hungria, onde o espetro político se centra à direita da democracia cristã. Ao mesmo tempo, a luta social terá de enfrentar um parlamento menos diverso e bloqueado entre a extrema-direita de Orbán e a direita extrema de Magyar. Mas a análise do resultado eleitoral não pode só ser feito a partir das instituições, é feita também através dos movimentos e das forças sociais. A luta é sempre inclinada, mas a oportunidade existe e é maior do que a anterior.