Foi a economia, Orbán

porCatarina Martins

16 de abril 2026 - 14:18
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Num país em que o partido agora derrotado se confunde com a oligarquia que controla a economia, o aparelho do Estado, a justiça e a comunicação social, nenhuma mudança será fácil.

Os 16 anos de governação ininterrupta de Orbán foram um guia para a ação da extrema-direita. Um projeto de concentração de riqueza que se apropria do aparelho de Estado e usa as guerras culturais e a narrativa do inimigo externo para criar cortinas de fumo, perseguir oposições e expiar as culpas próprias pelo empobrecimento da generalidade da população.

Máxima violência e fratura social, para esconder o assalto à economia. Até que foi demais e o rio transbordou.

O aumento brutal do custo de vida, a estagnação dos salários e a degradação dos serviços públicos essenciais, tornou insuportável o contraste entre o privilégio da elite do regime mais corrupto da Europa e a pobreza do povo. O empobrecimento chegou a camadas que se julgavam a salvo e constituiu-se uma maioria social que quer mesmo discutir o preço do pão e sabe que quem lhe esvazia a mesa não é o arco-íris do orgulho nem nenhum papão estrangeiro.

E a entrada de Trump na campanha, com o telefonema que fez para Orbán em direto, terá servido para lembrar até os mais distraídos das responsabilidades que a extrema-direita tem na guerra que fez os preços disparar.

Magyar soube ler o momento. Viajou por todo o país e concentrou o seu discurso no custo de vida. Esteve nas localidades mais rurais, onde Orbán tinha voto dado como certo, e prometeu recuperar a economia húngara combatendo a corrupção. A sua vitória esmagadora, que nem as alterações à legislação eleitoral ou o controlo da comunicação social conseguiram travar, é a prova de que foi mesmo a economia que derrotou Orbán nas ruas. Mas irá a Hungria mudar?

Num país em que o partido agora derrotado se confunde com a oligarquia que controla a economia, o aparelho do Estado, a justiça e a comunicação social, nenhuma mudança será fácil. E ainda que a larga maioria parlamentar alcançada pelo Tisza, o partido agora vencedor, lhe permita recuperar alguns dos equilíbrios básicos de um Estado de Direito Democrático, incluindo a separação de poderes, haverá no novo governo a força ou a vontade para uma viragem na economia?

É difícil de acreditar que Magyar, saído apenas há dois anos do Fidesz, o partido de Orbán, tenha um programa económico ou social radicalmente diferente.

Magyar fez o caminho que nenhuma das oposições conseguiu fazer até agora, precisamente porque não foi oposição neste longo inverno de perseguições. E contou com apoios destas oposições corajosas que o atravessaram, incluindo de esquerda, que sentiram que não podiam desperdiçar a oportunidade de afastar Orbán do poder e travar a espiral de fascização do seu país.

Estive em Budapeste há menos de um ano, para marchar com milhares de pessoas que desafiavam com bravura a proibição das marchas LGBT+ que havia sido decretada por Orbán. Vi com os meus próprios olhos, que a força social que derrotou Orbán é muito maior do que o candidato vencedor. Mas que lugar terá esta força? E como pode a direita resolver a crise que a direita criou?

Estas eleições têm derrotados e avisos. Derrotados foram Trump, Putin e toda a extrema-direita europeia, que agora se apressa a desvalorizar o resultado e espera que esqueçamos a campanha empenhada que fizeram ao lado de Orbán.

Ventura pode correr a apagar as fotografias ao lado de Orbán, a Iniciativa Liberal pode festejar a derrota do candidato por quem Milei fez campanha e Trump pode fazer por esquecer a sua participação na campanha, mas todos sabemos o que fizeram até domingo passado.

Esta derrota é uma boa notícia. Não estão predestinados a crescer. Perderam no país da sua articulação europeia.

Mas há um aviso à União Europeia, onde o custo de vida continua a aumentar e o dogma neoliberal permanece. Clinton dizia “é a economia, estúpido” numa campanha norte-americana, lembrando o que conta para as mudanças eleitorais. Orbán caiu porque, depois de longos anos consecutivos no poder, para lá do ódio e das perseguições, o que tinha para oferecer era a mesma política de desigualdade de cujas vítimas se aproveitou.

Se a política de esmagamento dos salários se mantém, onde irá transbordar o rio que agora virou o jogo eleitoral na Hungria? Se a União Europeia insiste nas regras do liberalismo forçado, o interlúdio autoritário da Hungria não será o último, nem o pior. Não haverá novo fôlego para a democracia, sem uma nova economia da igualdade que a faça respirar.


Artigo publicado no site do Expresso a 15 de abril de 2026.

Catarina Martins
Sobre o/a autor(a)

Catarina Martins

Eurodeputada. Dirigente do Bloco de Esquerda. Atriz
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