Extrema-direita

Deputado do Chega acusado de comprar votos a neonazis

22 de fevereiro 2026 - 13:52

Um dirigente do grupo neonazi 1143 acusa o líder da distrital do Chega do Porto de ter inscrito membros do grupo e comprado os seus votos para ganhar eleições internas do partido. Investigação revela dezenas de ligações entre elementos do Chega e a milícia de Mário Machado.

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Rui Afonso e André Ventura
Rui Afonso e André Ventura na campanha presidencial no Porto. Foto publicada pelo deputado nas redes sociais.

O jornalista Miguel Carvalho, autor do livro Por dentro do Chega, assina este domingo no Público mais duas peças da sua investigação sobre os meandros da extrema-direita portuguesa, desta vez dedicadas às ligações entre membros do Chega - desde dirigentes locais e nacionais a candidatos e eleitos em órgãos autárquicos - e o grupo neonazi 1143, recentemente alvo da operação “Irmandade” da Polícia Judiciária.

Uma das notícias dá conta das acusações de que é alvo Rui Afonso, o líder da distrital do Chega do Porto e deputado na Assembleia da República, por um dos arguidos da operação levada a cabo pela PJ. Trata-se do coordenador do núcleo de Santo Tirso do grupo 1143, Tirso Faria, camionista de profissão e militante do Chega, tendo já ocupado a vice-presidência da concelhia tirsense do partido. Ele afirma que “o deputado Rui Afonso inscreveu membros do 1143 no Chega e comprou-lhes votos para ganhar eleições internas”, pagando-lhes as quotas durante meses, num valor que Tirso calcula estar entre os 3.500 e os 3.800 euros.

As suspeitas destas ligações próximas entre Rui Afonso e o 1143 foram lançadas logo no dia das detenções dos elementos neonazis por um ex-dirigente do Chega em Penafiel, que questionou no Facebook: “Alguém me sabe dizer se o presidente que ganhou a distrital do Porto com os votos que comprou aos 1143 também foi dentro ou ativou a imunidade parlamentar”? Um dos adversários de Rui Afonso na corrida à distrital em 2023 era Israel Pontes, que confirma ter percebido então que “Rui Afonso tinha uma relação muito vantajosa com o grupo 1143, a quem pediu protecção pessoal e outros trabalhinhos”, sem especificar quais seriam.

Em 2024 já tinha sido notícia a presença de elementos do grupo neonazi nos autocarros alugados pela distrital do Porto para uma manifestação do Chega em Lisboa, para a qual o grupo liderado por Mário Machado também mobilizou os apoiantes. Na altura, Rui Afonso disse que nem sabia o que era o grupo 1143 e negava usar os seus membros como seguranças pessoais. Tirso Faria discorda e diz que  “até para ir à casa de banho da estação de serviço pedia para irmos com ele”.

A relação estreita que o deputado do Chega com elementos do grupo pode ter sido vantajosa nas disputas políticas internas, mas Rui Afonso não quis comentar a notícia nem prestar esclarecimentos ao Público. Na outra reportagem publicada este domingo, fica evidente que nem todos os elementos do Chega tiveram problemas no passado em assumir o seu apoio ao neonazi Mário Machado e ao seu grupo agora desmantelado pela Judiciária sob suspeita de vários crimes, incluindo o de agressões contra imigrantes.

Numa longa lista compilada por Miguel Carvalho de mensagens de solidariedade e apoio ao grupo neonazi, nalguns casos complementada por foto dos próprios ao lado de Mário Machado, dezenas de dirigentes locais do Chega, candidatos a várias eleições e até autarcas eleitos surgem em público a partilhar as publicações dos perfis do 1143 e dos seus membros nas redes sociais, muitas delas de teor xenófobo e racista.