O jornalista Miguel Carvalho, autor do livro Por dentro do Chega, assina este domingo no Público mais duas peças da sua investigação sobre os meandros da extrema-direita portuguesa, desta vez dedicadas às ligações entre membros do Chega - desde dirigentes locais e nacionais a candidatos e eleitos em órgãos autárquicos - e o grupo neonazi 1143, recentemente alvo da operação “Irmandade” da Polícia Judiciária.
Uma das notícias dá conta das acusações de que é alvo Rui Afonso, o líder da distrital do Chega do Porto e deputado na Assembleia da República, por um dos arguidos da operação levada a cabo pela PJ. Trata-se do coordenador do núcleo de Santo Tirso do grupo 1143, Tirso Faria, camionista de profissão e militante do Chega, tendo já ocupado a vice-presidência da concelhia tirsense do partido. Ele afirma que “o deputado Rui Afonso inscreveu membros do 1143 no Chega e comprou-lhes votos para ganhar eleições internas”, pagando-lhes as quotas durante meses, num valor que Tirso calcula estar entre os 3.500 e os 3.800 euros.
Extrema-direita
Militantes do Chega na milícia neonazi que preparava provocação à comunidade muçulmana
As suspeitas destas ligações próximas entre Rui Afonso e o 1143 foram lançadas logo no dia das detenções dos elementos neonazis por um ex-dirigente do Chega em Penafiel, que questionou no Facebook: “Alguém me sabe dizer se o presidente que ganhou a distrital do Porto com os votos que comprou aos 1143 também foi dentro ou ativou a imunidade parlamentar”? Um dos adversários de Rui Afonso na corrida à distrital em 2023 era Israel Pontes, que confirma ter percebido então que “Rui Afonso tinha uma relação muito vantajosa com o grupo 1143, a quem pediu protecção pessoal e outros trabalhinhos”, sem especificar quais seriam.
Em 2024 já tinha sido notícia a presença de elementos do grupo neonazi nos autocarros alugados pela distrital do Porto para uma manifestação do Chega em Lisboa, para a qual o grupo liderado por Mário Machado também mobilizou os apoiantes. Na altura, Rui Afonso disse que nem sabia o que era o grupo 1143 e negava usar os seus membros como seguranças pessoais. Tirso Faria discorda e diz que “até para ir à casa de banho da estação de serviço pedia para irmos com ele”.
A relação estreita que o deputado do Chega com elementos do grupo pode ter sido vantajosa nas disputas políticas internas, mas Rui Afonso não quis comentar a notícia nem prestar esclarecimentos ao Público. Na outra reportagem publicada este domingo, fica evidente que nem todos os elementos do Chega tiveram problemas no passado em assumir o seu apoio ao neonazi Mário Machado e ao seu grupo agora desmantelado pela Judiciária sob suspeita de vários crimes, incluindo o de agressões contra imigrantes.
Numa longa lista compilada por Miguel Carvalho de mensagens de solidariedade e apoio ao grupo neonazi, nalguns casos complementada por foto dos próprios ao lado de Mário Machado, dezenas de dirigentes locais do Chega, candidatos a várias eleições e até autarcas eleitos surgem em público a partilhar as publicações dos perfis do 1143 e dos seus membros nas redes sociais, muitas delas de teor xenófobo e racista.