A operação policial “Carbono Oculto” desvendou um esquema de branqueamento de capitais usado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) no Brasil, recorrendo a pelo menos 40 fundos de investimentos e transações financeiras através de fintechs, em vez de bancos tradicionais. O grupo que controla o crime organizado em boa parte do país aproveitou a fraca regulação deste setor financeiro para lavar dinheiro, ocultar património e até mesmo obter lucros chorudos através da participação numa empresa de distribuição de combustíveis.
Entrevista
Acusação prova que o 8 de janeiro era parte do plano golpista de Bolsonaro
A regulação das fintechs estava nas prioridades do governo Lula no combate ao crime organizado, mas a proposta caiu após o deputado Nikolas Ferreira ter publicado em janeiro um vídeo que atingiu centenas de milhões de visualizações nas redes sociais. Nesse vídeo, Nikolas alegava que Lula da Silva se preparava para criar um imposto sobre as transações na popular plataforma de pagamentos Pix. Contra esta vaga de desinformação de nada valeram os desmentidos de ministros, com a oposição a cavalgar as “fake news” e a obrigar o Governo a deixar cair a proposta.
“Essas fake news foram tão fortes, que apesar de todo o esforço da Receita Federal, nós não conseguimos seguir essas mentiras, por conta da força de quem as impulsionava, o que já estava, inclusive, prejudicando o uso dos meios de pagamento instantâneo. Nós tivemos que dar um passo atrás e revogar essa instrução normativa. E as operações de hoje mostram quem ganhou com essas mentiras, com essas fake news”, afirmou esta quinta-feira Robinson Barreirinhas, secretário da Receita Federal, no rescaldo da operação policial contra o crime organizado.
Num debate na quinta-feira à noite com o também deputado Guilherme Boulos, do PSOL, transmitido na CNN Brasil, Boulos reafirmou que "foi demonstrado, hoje, pela operação do Ministério Público e da Receita Federal [que o vídeo] contribuiu para a lavagem de dinheiro do crime organizado". Nikolas Ferreira rejeitou as acusações e ameaçou processar o deputado do PSOL: "Você acha mesmo que eu, que sou uma pessoa que não tem um pingo de processo sobre nada de corrupção, você acha mesmo que vai colar que eu estou ajudando o PCC e CV [Comando Vermelho, organização criminosa concorrente do PCC]?”, questionou.
Em reação à operação policial, o deputado do PT Rogério Correia apresentou uma queixa na Procuradoria-Geral da República, pedindo a abertura de um inquérito contra Nikolas Ferreira, argumentando que a desinformação que propagou "fragilizou políticas públicas de combate à lavagem de dinheiro e à sonegação fiscal, além de ter impacto direto em investigações estratégicas, como a Operação Carbono Oculto". E outro deputado do mesmo partido, Reimont, apresentou queixa no mesmo sentido, acrescentando uma notícia de maio que dava conta da prisão de um primo de Nikolas que tinha 30 quilos de canábis no porta-bagagens do carro. Reimont quer ver investigadas as ligações entre o deputado e o seu primo.
Nikolas Ferreira interveio com louvor ao Chega na semana passada
Membro da chamada “bancada evangélica” e filho de um pastor evangélico, Nikolas Ferreira tem 29 anos e é deputado do Partido Liberal - agora na oposição e que tem Jair Bolsonaro no cargo de “Presidente de honra” -, tendo sido eleito pelo estado de Minas Gerais em 2022 com a maior votação do país inteiro. Enquanto estudante destacou-se como youtuber e influencer da direita nas redes sociais, apoiando sempre Jair Bolsonaro com enorme fervor.
Ainda na semana passada, Nikolas Ferreira interveio na Câmara dos Deputados do Brasil para saudar a visita do deputado português do Chega Daniel Teixeira, que lhe levou o voto de condenação proposto pelo partido da extrema-direita em São Bento contra as supostas “violações dos direitos humanos que o Supremo Tribunal Federal tem cometido”, ou seja, o processo que está a julgar Bolsonaro e os seus cúmplices na tentativa falhada de golpe após a derrota nas presidenciais brasileiras.
“Agradeço a você, agradeço ao Partido Chega, ao André Ventura, à Rita Matias e a outros Deputados que também compõem esse grande partido”, declarou Nikolas no plenário parlamentar em Brasília, numa curta intervenção para deixar registado “que muito abrilhanta a sua presença aqui no Congresso Nacional”, dirigindo-se ao deputado eleito por Setúbal e membro da Igreja do Evangelho Quadrangular, um dos dois deputados evangélicos da bancada do Chega.
Além de divulgar as intervenções de André Ventura no Parlamento contra Lula da Silva, Nikolas veio a Portugal em 2022, quando aos 25 anos era vereador de Belo Horizonte, para participar em sessões da comunidade evangélica e apelar ao seu voto no Chega.